quinta-feira, 4 de outubro de 2007

O Jovem Amor Atlante

Mas o que interessava é que o Nälden já tinha perdido a timidez, com um sorriso carismático, voando suavemente no seu tridente negro, e o ambiente romântico era favorecido por uma linda serenata com um acordeão e um violino, uma serenata à atlante, a típica música de amor que todo o feiticeiro atlante dedica pelo menos uma vez na vida à sua amada. O amante atlante é em duas palavras aquele tipo de homem misterioso e encantador, o cavalheiro gentil que nos socorre em qualquer sarilho; mas que não é nada frio, ao contrário do inglês. Carinhoso, é a sua verdadeira alcunha. Acho que nesses dias de Outono, nem quentes, nem frios, em que as as lindas folhas caem qual leves penas nos passeios da Floresta de Cristal é que se consegue ouvir as ternas declarações de amor dos simpáticos namorados atlantes às suas amadas através da eterna voz do inocente "Sami" nas trovi tocadas pelos violinos, pequenas harpas atlantes e pelos acordeões. As trovi é um tipo de baladas tipicamente "made in Atlantis", onde o cómico intrepecta um papel indispensável. O próprio Assassino do Amor componha e dava as letras para todas as bandas sonoras das diversões de Cyborg Town. Estas baladas e serenatas têm a características de serem feitas no período em que o coração do primeiro Rei dos Bruxos ainda não estar... digamos enferrujado. Têm mais de vinte mil anos e ainda são cantadas por vários artistas de rua cyborgs, e que sabem muito bem quem compôs estas canções.
Não é irónico que canções que no Reino de Terror do Assassino do Amor tenham sido consideradas aristocrácticas e privilégio da classe dos Bruxos possam agora ser tocadas e cantadas pela plebe dos Cyborgs? Isto faz-me esquecer os meus problemas, principalmente a mais famosa de todas as trovi, dedicada a um muito dos nomes atlantes característicos - Katherine, que em atlante arcaico significa "Papoila de Verão ":

Papoila de Verão,
Da primeira vez que te vislumbrei,
Turvou-se-me a visão;
Será culpa de quem?
Faltou-me a audição!
Adivinha minha querida,
Não havia naquela noite comigo, alguém?
Dessa primeira vez,
Dessa maravilhosa vez, eu nunca esquecerei!

Da primeira vez que te dei a mão,
Senti-me enamorado;
Senti-me relaxado;
Senti-me extasiado;
Senti-me desnorteado;
Senti-me embriagado,
No doce perfume do teu amor...!

Ò papoila de Verão,
És cada noite o objecto do meu ardor,
Por quanto tempo mais terei de suportar esta dor?!
Linda papoila de Verão,
Bate cada vez mais forte o meu coração!

Termina esta enfermidade com a tua poção,
Uma vez tomada, jamais se poderá deixar,
Esse encantador vício,
Dos teus lábios provar...Linda papoila de Verão!


Ao encontrar a Sara, a palidez habitual de bruxo do Nälden mudou para uma certa felicidade e corou um pouco, fazendo que atrás das costas estivesse na sua mão um ramo de flores.
Sorriu muito contente e, flutuando no seu tridente, saiu confiante, balançando-se ao voar, e apresentou-se, fazendo um voo rasante apressado perto das árvores e desajeitado, qual insecto atraído pela bela luz do luar na fonte perto de nossa casa. Apenas a aterragem forçada perto duns arbustos correu um pouco mal, consequentemente, este caiu de cabeça certeira na lama, com o chapéu bicudo castanho de couro todo enlameado e cheio de folhas de todas as cores, mais parecía um espantalho magricela deixado na floresta.
Uns passinhos delicados de cristal familiares aproximaram-se da ordinária poça, e, numa questão de minutos, a linda princesa chegou ao sítio onde estava o bruxo todo sujo e distraído.
O jovem homem de vinte e cinco anos engoliu em seco, de cabisbaixo, como se tivesse perdido uma batalha. Que diria uma donzela tão fina e bonita quando o visse daquela forma tão desleixada...?
Contrariamente ao que ele pensava, o rosto formoso da menina esboçou um sorriso maravilhoso e tão precioso quanto um tesouro no fundo do mar; seguido de um risinho agudo tão lindo quanto um chilrear duma rola. Ele tinha-a feito rir.
Encolhi os ombros, soltando um risinho menos bonito que o da “Princesa Sara”, piscando o olho, satisfeita com os esforços infrutíferos do Nälden, a tentar ser um esplêndido e garboso bruxo da elite. Bom, ainda era um começo, mas ele já a conhecía de alguns anos. O problema é que não se viam há mais de dois anos, segundo o próprio tenente me tinha contado. O pobre rapaz alemão tem um pequeno fraquinho pela princesa, só não sabe expressá-lo.

sábado, 29 de setembro de 2007

A Floresta de Cristal (Parte I)


Depois do que tinha acontecido há dias, era bom saber que a chuva constante e as trovoadas assustadoras tinham dado lugar a maravilhosos passeios cobertos por todas as cores alegres do Outono, qual grande e confortável manto de folhas, a brisa fresca enchia o ar de um um doce perfume a eucalipto. Algo bom e divino estava para se revelar, e o bom tempo era outra esperança. Decidi ir ver como é que estavam as coisas pela Floresta de Cristal, pois essa linda zona toda de floresta muito densa em que a gente consegue ficar calma e relaxar. Os pregões pouco atractivos trazidos pelo vendedor de castanhas misturava-se com uma estranha voz, tão linda e melodiosa quanto um rouxinol que deliciava até o mais frio e taciturno bruxo.
À medida que a ouviam os poucos pássaros e pombas aproximavam-se dos seus formosos braços, e cantavam juntos com uma rapariga magra de um metro e cinquenta e cinco, alheios a tudo e todos.
E quem pensaria que esta voz sobrenatural seria da encantadora Princesa Sara a passear, sonhadora entre as florestas de cristal, andando numa calma maravilhosa, apreciando os poucos mas valiosos tesouros que a Mãe Natureza tinha para oferecer antes de chegar o longo sono de Inverno. Aquela rapariga judia de dezasseis anos é mesmo a personificação do Bem. Simpática, ingénua, bondosa, generosa, pequena, ela consegue inspirar confiança em qualquer um. Agora irei dizer-te porque lhe chamam “Princesa Sara” à Sara, ela é tão boa, bonita e tem uma bela voz. Acho que ela é mesmo uma princesa, porque de bom grado e com um sorriso o Primo Coutinho lhe dava um quarto, embora só a conheça pela cara e pelas coisas que eu digo dela ao jantar; o Nälden que já a conhece desde que ela tinha onze adora fazer duetos com ela no seu piano; o Hans cora tanto quando falamos dela que até diz num gaguejar meio incompreensível «...adorava conhecer essa fada tão bonita...»; o Fritz e o Skánvasse esperam ansiosamente no seu turno quando lhes falo da milagrosa menina; Horus e Set dizem que gostavam de a ter como amiga deles. Até acho que o meu padrasto...Não!
Esse aí é demasiado mau para ter tido o privilégio de ter conhecido uma flor tão fantástica e linda como a nossa rapariga mais querida. O seu sorriso iluminava tudo e todos enquanto dançava por entre os troncos brilhantes, antigas moradas das fadas. Dos lagos e fontes à volta das floresta, saíram outras criaturas bonitas, para ouvir o canto da Sara. Cabelos verdes feitos de musgo e de plantas fluviais ondulados enfeitavam as peles verde-clara e completamente nuas, as náiades só chegavam até aos meus seios em relação a altura, porém, os seus corpos já eram bastante desenvolvidos, para criaturas femininas.
Aquele dia estava a ser tão estranho que a minha sombra, não aguentando a luz do dia, acenou como se estivesse a fazer uma longa despedida, e desapareceu na escuridão dos bosques, para dar lugar a uma vassoura, cuja eu não me consegui habituar à primeira, e balancei algumas vezes. Mas, lá consegui habituar-me depois de várias tentativas falhadas, e continuei a ver cnuma mistura de inveja e sangue-frio as estranhas fadas aquáticas, que segundo as fantasmas, eram suas irmãs.
Oh! Como tinha ciúmes delas. Nadavam felizes na sua grande – luxuriosa e colorida, pintada pelas maravilhosas luzes da manhã – prisão de mármore e pedra, vigiadas constantemente pela aústera estátua do primeiro von Tifon: braços caídos para a frente como um grande oficial militar; tronco viril para cima nas típica vestes pretas dum bruxo poderoso com o chapéu de feltro e tudo, tapando o brilho das duas safiras que serviam de olhos ao magnifico bruxo; na mão direita, brandia um tridente de três metros, símbolo do poder negro, e na esquerda, fazia flutuar um estranho triângulo formado três linhas curvas negras sempre em movimento dos ponteiros do relógio, onde no centro, giravam como pobres objectos num redemoinho seis esferas. Sabia lá o que aquilo significava, mas se ele tinha um ar autoritário sobre as náiades, tinha.
Olhei novamente para elas, para aquelas fadas, com aquela beleza que ultrapassava qualquer feitiço meu, e, senti o instinto de bruxa a aparecer, o meu lado mau começava a aparecer, e nos meus pensamentos, surgiu uma enorme vontade de pregar um susto de morte áquelas fadinhas betinhas sem graça, com aquelas cantorias pirosas! Os meus olhos brilhavam de maldade e ódio, por que razão seriam mais bonitas que eu?
Jamais poderia ser mais linda que aquelas náiades todas juntas, as raízes que as prendiam à Natureza eram mais fortes que as minhas, elas tinham um pai de pedra pelo menos, que olhava por elas dia e noite! Eu não tenho nenhuma família! São alegres mesmo presas na água. E, para piorar a minha inveja e ódio a elas; conseguem viver com pessoas estranhas. Podes ajudar-me, sinto-me tão só.....Sniff. L Também não tenho namorado, e se continuar assim tão triste, vou acabar como aquelas fantasmas japonesas de ontem, ou mesmo
como a Serpente de Fogo!

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

O quarto de Spiegel....


A luz mal entrava no espaçoso e poeirento quarto, dando um aspecto sinistro aos quadros de antigos bruxos e nazis famosos pela sua infâmia pregados na escuridão, e, pelos seus olhares penetrantres e nada simpáticos pareciam não gostar da presença do seu felpudo amigo. As paredes estavam decoradas com papel de parede com um padrão de pegadas muito adequadas para os sonhos felinos de Spiegel.
Ali estava o nosso pacifíco bichano a dormir na sua cama de dossel preferida com o seu brinquedinho, uma escovinha macia e boa para arranhar, a sofrer dos adenóides, soltando um ressonar muito cómico, que fazia com que os retractos ficassem incomodados, olhando-o com desprezo.
O tenente, olhou ternamente para o bicho pesado e acenou com o indicador, tirando do bolso uma guloseima.
É difícil agradar a este aristocrático e sempre desiludido gato com a mania de se armar em caprichoso, e Nälden sabia isso demasiado bem. Tinha uma pequena recordação na cara como prova que aquele gatão não era para brincadeiras. Uma cicatriz em forma de cruz, um pequeno arranhão como resultado das muitas formas de simpatizar com aquele convençido e preguiçoso sempre a dormir.
Fez um “bsch-bsch” a agitar a goloseima qual orgulhosa bandeira para que o gato, soltando um miado como se dissesse “Eu? Está a falar comigo?” e conseguisse chamar-lhe a atenção.
- Guten Tag, mein Herr
[1] Spiegel! – Disse ele baixinho. – Venha cá, o Onkel[2] Otto tem um bela gominha de caviar e atum para um lindo bichano puro. Se Sua Excelência se portar bem e vir cá para arejarmos um pouco e perdermos o peso, o Onkel Otto dá a bela gominha de caviar e atum a mein Herr Spiegel.
Infelizmente, o “tentador suborno” não resultou e ainda bem que a paciência do nosso amigo tenente é muita. As patas de Spiegel apenas mergulharam preguiçosamente como quatro pedras em areia movediça cada vez mais nos almofadados lençóis.
Ele miou um sonante e convencido bocejo, espreguiçando-se e refastelando-se na cama.
Na penumbra, o rapaz arriscou-se a aproximar-se mais do gato resmungão, desta vez, escondendo a sua mão treinada tanto para dar carícias, como também para ferir com uma faca atrás das costas.
Desta vez, ele iria tentar a diplomacia, e se nem isso nem a ameaça resultasse, então a magia e a violência teriam de responder por ele próprio.
Suspirou com um grande sorriso na cara, olhando para o bichano com um amor incondicional.
Ele ia pôr o gato a falar, era? Ou ia “fazê-lo falar”? Eh, eh, eh...
Baixou-se na sua altura espantosa de um metro e setenta e oito, com os seus olhos azuis um pouco falsos e demonstrando um pouco de desprezo pelo gato.
- Calma, calma, calma! – Exclamou ele entre dentes. – Acima de tudo, tenhamos calma com as nossas respostas, mein Herr Spiegel. Agora faça-me o favor de sair dessa cama antes que nos irritemos a sério!
Aí, o gato lá saiu lentamente do quarto, espreguiçando-se no chão e miando outro audível e estúpido bocejo.
Estava a ver que não, aquele maldito animal qualquer dia ainda vai tirar o pobre do coitado do Nälden do sério.
Tivemos que o levar numa caixa onde ele esperneou, arranhou, mas nem o pior dos gritos conseguiu salvar Sua Majestade de ser arrastada numa caixa negra sem protecção alguma na mala do “tanquezinho” do Nälden. Depois explico o que é essa máquina.
Pelo numa coisa este ignóbil bicho é útil: a fazer com que a nossa maldade sobressaia cada vez mais! Estou a brincar, não, o que eu queria dizer é que algumas vezes, nem nos apercebemos da sorte que temos por não termos vivido naquela altura em que a magia negra era mais forte. Sabes o porquê disso? Porque a luz consegue vencer o pesadelo que é esta guerra civil e este assunto da discriminação entre classes.


[1] Título em Alemão que se refere a ser tratado por “Meu senhor”, e que em Português é “Meu senhor” utilizado para se referir a um homem da nobreza ou a um lorde. Quem diria que até um gato teria sangue azul...?
[2] Tio em Alemão

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Sonhos Estilizados e Formosos (Parte II)

Convencido que poderia confiar em mim, acalmou-se, respirou bem fundo, sentou-se resignado com o seu característico sorriso de volta para mim, agarrando a minha mão com os olhos brilhando de meiguice.
É um homem sincero, este Nälden! Não consegue esconder os seus verdadeiros sentimentos a ninguém, e se há coisa que detesta é a mentira, mas perdoa tão facilmente, que poderiam muito bem chamá-lo de anjo.
Com o seu ar jovial, começou a sua história num tom alegre:
- A menina imagine: estava eu a tocar maravilhosamente no meu piano, o lugar a floresta de cristal e flores tão formosas quanto os meus queridos flamingos, quando de repente, ela apareceu!
- Ela quem? – Interrompi num sorriso cúmplice.
Nälden sorriu encantado, e respondeu meio aluado e suspirando num tom apaixonado:
- Uma doce e frágil menina de cabelos pretos soltos, uma pequena jóiazinha, passeando livre, com uma voz tão bela quanto a dum rouxinol e olhos mais claros do que o mar límpido, rodeada por uma aura divina, tão terna e pura....! Qualquer homem ou criatura se enamoraria por ela. Porém....
De súbito, o sorriso desapareceu, e este retornou para o seu estado perturbador.
- Uma sombra ameaçava pôr um fim a esta alegria! – Exclamou sombrio. – No meu coração senti que um monstro irrompia, de olhos ardentes e penetrantes, alto como o mais altivo dos pinheiros da Floresta Negra e nariz de falcão com retumbante grilheta negra aproximou-se da pobre princesa, ansiando apanhá-la com as garras!
As suas mãos começaram a ficar trémulas, e a sua voz começou a ficar cada vez mais perturbada, e desta vez ficou mais pálido do que a cal:
- Foi aí que,soltei uma terrível gargalhada diabólica, gritando “Minha Princesinha, vem comigo! Minha Princesinha, vem comigo! Vem comigo para o meu castelo onde os nossos corpos se juntarão num só!
O seu rosto agora expressava pânico por todo o lado e agarrou-me a mão com uma força que até deixou marca.
- Imagine só! O monstro era um reflexo meu! Mas a linda fada desvaneceu-se como uma miragem nas brumas da lua ainda no céu, para nunca mais voltar...! – Exclamou a morrer de medo. – Que significa isto, menina? Estarei a perder o juízo?!
Cada palavra era dita com um terror e exagero tais, e os seus olhos ardiam de uma paixão louca que até pensei que ele teria mesmo perdido a cabeça de todo, mas não.
Havia uma força para além da aparente demência do rapaz muito alarmado, uma espécie de intuição em proteger a menina dos seus sonhos. Aquele sonho mau, aquele pesadelo seria um aviso de Deus para Nälden ou todos os de bom coração para defender com as suas vidas a Princesa Arco-íris...?
Sim, talvez, mas era melhor para ele não pensar mais naquilo. Valha-me Deus! Fantasmas, monstros malvados!? Era melhor esquecer aquelas histórias de almas penadas á procura de salvação dos justos.
Como ele muito bem disse, não há lugar aqui para fantasmas do passado. Essas lendas da Princesa Arco-íris; Assassino do Amor e fantasmas de meninas perdidas a seduzir homens incautos na floresta é tudo uma chachada!
Felizmente que eu sei como animar alguém que pensa em morte e reencarnação ou outros disparates inventados pelos Cyborgs ou por algum velho bruxo sinistro a meio da noite para meter medo.
Ajudei-o a levantar, e desatei a rir às gargalhadas, fingindo-me divertida e galhofando alegremente com a ingenuidade dele.
- Nälden! Acreditas mesmo nessas balelas contadas por velhos mas inspirados pelos hipócritas dos Bruxos Nazis há mais de cinquenta anos?! – Ri-me, dando um encontrão ao pobre alemão. – Já agora até poderiam haver mulheres com pescoços de girafa, não?
Dito isto, arrastei-o sem medo de nada, até ao corredor, pulando e dançando, cheia de vivacidade. Queria brincar com aquilo, por isso, tornei os meus olhos o mais aterradores e fixei-os para o assustadiço tenente.
- Vamos, o pequeno almoço já deve estar pronto. – Disse eu rapidamente. – Ou queres ficar aí a pensar em bruxos maléficos que devoram meninas incautas e em fantasmas que deambulam pela floresta ao meio da noite?
A minha brincadeira resultou, e ele, com um calafrio na espinha, engoliu em seco e apressou-se a acompanhar-me, cagarrando-me pelo braço direito.
- Nem pensar, menina! – Respondeu numa voz fininha.
Lá fomos nós os dois, esquecendo as aventuras da noite.........! Obviamente que, tal como qualquer dia, Sua Majestade, o Spiegel gostaria de dormir até tarde, mas esse sonho fantástico nunca poderá se realizar, pois são ordens do Excelentíssimo, Eminentíssimo, Tremendíssimo General Couto Wilhem Couto vo Tifon que o seu pobre animalzinho inale o perfume do raiar do dia. «....Coitadinho do pobre gatinho, ele nunca sai do Château, Frau Jessica....» Comenta Nälden com um sorriso amarelo ao dirigirmo-nos para o quarto do arrogante e presunçoso bicho. Quem me dera poder livrar daquele saco de pelo nojento e horroroso.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

28-10-2005 Sonhos estilizados e formosos




Estou tão ocupada a escrever o meu diário que nem reparo em ti. Pois é, deves sentir-te um pouco ansiosa – ou ansioso – em saber quem será o meu padrasto. E eu, a ignorar-te, contando as minhas intermináveis aventuras. É isso que o Pedro me está sempre a dizer. Que sou um pouco egoísta e que deveria pensar mais nos outros do que em mim própria. Mas que se há-de fazer...? Ainda não sei quem é ele, e enquanto não souber como é que ele (o meu padrasto) é, contentár-me-ei a pôr a escrita em dia.
Sou incrivelmente tagarela, não tenho culpa, e toda a gente à minha volta, quer seja conhecido ou não, reconhece-me pela minha língua leve. E o Sr. Pedro Dardo é-o ainda mais, mas esse, prefere falar mal acerca dos outros, é impossível aturá-lo com mais uma das suas crises de fanfarronice de manhã quando vamos tomar a meia-maçã (costume de cá da Atlântida, que às dez em ponto, comemos uma peça de fruta para continuarmos bem o resto do dia)! Faz tempestades em copos-de-água por tudo e por nada, e não me deixa em paz quando estamos nas aulas. Qualquer dia aquele cyborg vai dar comigo em doida se continua assim! No entanto, é tão atencioso e sabe sempre dar um ombro onde confessar todos os meus problemas e feridas do coração. Tão meiguinho que parece um lindo ursinho de peluche. Achas que estou apaixonada? Não seria a primeira vez, mas que estou eu a dizer? Será melhor contar-te como a minha irmã Tsuna anda.
Reparou que eu ando à procura do meu padrasto, pôs na cabeça a ideia maluca que se calhar eu, ela e a Sol não somos realmente irmãs! Não é de admirar, somos muito diferentes uma das outras. Mas aquelas nunca têm nada para contar, portanto, acho que seria bom contar algo engraçado. Por exemplo, o Nälden está como eu, ansioso por viver o seu 1º amor. Podes acreditar que o ridículo em pessoa ainda não se apaixonou depois de 25 anos de vida?! Pronto, eu também não tive um amor a sério realmente, e tenho dezoito, mas ainda posso ser perdoada, não? Sim, eu creio que sim. As nossas lágrimas podem ser perdoadas. Além disso, agora estamos a rir-nos muito disso.
Foi assim: esta manhã, como de costume, eu estava com insónias, pensando em mim mesma e nas minhas horríveis manias de perseguição, sarcasmo, e vaidade que me caracteriza, quando algo me sobressaltou, um barulho vindo do quarto do Nälden no primeiro andar, um gemido e um suspiro infeliz. Parece que não era só eu que estava com crises existenciais, aquele pobre lamuriava canções alemãs de amor enquanto tocava no seu piano, lamentando-se por não ter sorte nenhuma com as mulheres, apesar de ser um homem bem parecido, alegre, sensível – algumas vezes até demais – e musculoso. Só ele é que não sabe que tem o que é preciso para atrair lindas mulheres.
Auto-estima a menos e tristeza a mais, é a doença contagiosa que invadiu este Château!
Decidi averiguar se o coitadinho não precisava de algum conselho, afinal, para além de ser prima do seu patrão, considero-me como sua amiga, porque ele também me ajuda quando estou com a moral em baixo.
Levantei-me cautelosamente da cama, habituada aos sermões do Primo Coutinho acerca de levantar a boas horas e que oito horas da manhã não era altura para uma pessoa se acordar no sábado, andei de bicos de pés até o meu espelho onde vesti o meu robe chinês azul-celeste com um dragão nas costas e calçei os meus chinelos, para poder andar descansada pelas escadas – estão sempre tão geladas que nem me atrevo a pôr os meus pezinhos nus nelas sem calçar qualquer coisa.
Ao chegar ao corredor do primeiro andar, reparei que a porta estava entreaberta, mas ainda se ouvia o piano.
Não quereria perturbá-lo mais, as minhas mãos tremiam como varas verdes, e embora sentisse um pouco corajosa, tinha um friozinho no estômago. Seria bom incomodá-lo aquelas horas da manhã?
Deveria sentir-me obrigada a ajudar um amigo...?
Sabia que era uma questão de ética, mas o meu alegre coraçãozinho travava uma luta com o meu desenvolvido cérebro e a sua chata lógica.
Estava tão indecisa, que nem reparei que umas melgas(sabes, aqueles mosquitos horríveis que, para mim e para o Primo Coutinho são uma praga!) me andavam a zumbir na minha orelha, e ao ver que aquelas pequenas pestes irritantes estavam a tentar picar com aquelas vozinhas agudas, senti-me forçada a entrar porta adentro rapidamente e fechei-a apressada!
Apanhei o Nälden muito pálido, a suar terrivelmente e a pousar a tampa do seu piano de cauda cor-de-vinho polido num tal estado de choque, que nem dava para ver se estava atónito, ou se estava com imenso medo. Algo tinha-lhe aterrorizado, e quando alguma coisa assusta o tenente daquela forma, essa coisa que ele vira não é para ser levada de ânimo leve.
Curiosa e olhando-o com um olhar espantada e sentei-me na cama de dossel acolchoada de um manto com desenhos de felizes flamingos cor-de-rosa e perguntei num tom positivo e simpátivo:
- Que se passa, Nälden? O gato comeu-te a língua?
Ele apenas abanou a cabeça em sinal de “não”, com os olhos arregalados, sem conseguindo proferir uma única palavra, hesitante.
Era óbvio que ele estava “naquele estado”. E eu conheço aquele estado.
É o estado que um bruxo normal e bom fica quando acabou de visualizar uma visão demasiado terrível para ser mencionada no dia.
Não disse nem uma única palavra durante cinco minutos, qual pessoa que tivesse visto um fantasma irado, mas, felizmente, o silêncio foi quebrado pelos sua imediata resposta.
Virou-se para mim finalmente, e olhando-me surpreso, levantou-se de súbito, resoluto a não dormir nem tocar uma única nota, com os olhos abertos e com o queixo caído.
- Nada disso, Frau Jessica! – Disse desesperado. – Onde está ela? Desde que ouvi tal som divino, desde que vislumbrei aqueles olhinhos adoráveis, o meu coração se incendiou e partiu com aquela donzela sobrenatural dos meus sonhos....
Suspirei e sorri, resignada, compreendo o mal que atormentava o pobre tenente, ou estava louco, ou estava apaixonado por alguma fada.
Não há remédio que cure esta enfermidade denominada por 1º amor, não há ninguém que consiga resisti-lo. Dizem os sábios que é contagioso, os antigos acreditavam que era a cura para todas as desgraças do Mundo.
Agarrou-me de rompante com os seus braços, fixando-me com um olhar tão preocupado que até parecia ser outra coisa, aí, senti a sua água-de-colónia forte e ouvi a sua pulsação a bater cada vez mais com mais velocidade.
- Que significará isto?! – Exclamou numa voz muito aguda, com horror. – Sinto que um vulcão irrompe do meu corpo, as minhas mãos tornam-se molhadas e desejosas de apanhar aquela ninfa do meu bizarro sonho esta noite! Ajude-me, minha senhora! Que bruxaria será esta!?
Estava a exagerar, era apenas amor! Revirei os olhos e uma vez mais suspirei a rir-me, libertando-me dos braços viris do fiel tenente.
Homens que sentem o amor chamar, não lhes falta um coração bondoso, e o nosso querido tenente alemão preferido era um desses sortudos.
Olhei-o divertida, tentando conter o riso de tal cena cómica, e estendi a minha mão, sorrindo simpaticamente.
- Isso é erecção, meu palerma! Mas conta-me lá esse sonho, talvez possa ajudar-te a intrepertá-lo – Disse gentilmente.
Na minha cabeça, o que queria dizer era o seguinte «....Apesar de seres um idiota chapado, talvez vá precisar dos teus préstimos mais tarde....»
Sou mesmo cínica, não é? Que é que queres? Estava curiosa, e quando eu estou curiosa, nada nem ninguém me detém!

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

As Fantasmas das Amantes do Tetra-bisavô "Herni"


Sim, pode parecer estranho eu usar esta imagem numa carta, mas era mesmo assim que eu as vi, as assustadoras fantasmas das amantes furiosas do meu tetrabisavô, o Duque Hermann von Tifon!
Desde que ele as assassinou egoistamente para ficar com mais outras duas "adequadas", que assombram a praça que dá para a estra secundária que dá para a nossa casa, desde as quatro até às sete horas da manhã. Ninguém quer encontrar-se com elas, pois sabe muito bem que se for um bruxo, estas irão descarregar a sua fúria sobre ele e arrastá-lo até à fonte, onde será o seu túmulo e é morada das três almas atormentadas. No entanto, têm um sentido de humou incrível e conseguem inventar piadas de qualquer nazi ou bruxo conhecido aqui pela Atlântida.
Enquanto isso, três fantasmas japonesas, vestidas com robes brancos qual três arrepiantes corujas das torres, quase não se vendo os seus pés, cabelos molhados pretos caídos para a frente, com olhares lúgubres e pálidas, ao observarem quietas como pedras a comovente cena de amor entre o bruxo mais implacável da Atlântida a seguir ao Assassino do Amor e ao Rei dos Bruxos e a bruxa mais malvada de toda a Atlântida; começaram a dançar graciosamente à volta da fonte, sorridentes qual três pombas loucas, desatando às gargalhadas, cantando assim nestas ladainhas em vozes fantasmagóricas que ecoavam por toda a praça:





Ô, ô, ô!
Nem vão acreditar...!
Onde já se viu coisa assim?
Ah, ah, ah!

Olhem de cima para baixo, irmãs náiades;
E regozijem em alegria, queridas irmãs,
O Duque Nazi dirigiu-se para a sua sinistra morada,
Ô, ô, ô,
A velha Bruxa de Fogo acompanhou-o, a pobre apaixonada!

Ô, ô, ô!
Quem conheceu o amor da sua vida esta noite?
Mal a terrível luz do Sol subiu no horizonte,
Reparámos num estranho encanto,
Digno de ser honrado pelo nosso pranto,
Que aqui mesmo aconteceu nesta fonte!
Ah, ah, ah!
Onde já se viu coisa assim?!
Ah, ah, ah!


A seguir, ouviu-se as dramáticas e finas sete badaladas do dia, anunciando às fantasmas, para se retirarem imediatamente até às águas da fonte, senão seriam reduzidas a cinzas pelos fortes raios do Sol. Lá foram elas, mergulhando por entre as estranhas bolhas da fonte a brilhar com o crepúsculo, galhofando qual desagradáveis gralhas, rindo às gargalhadas arrepiantes nas suas vozes lamuriosas por terem visto a cena de amor mais ridicula de toda as suas mortes!
Normalmente, quando o primo chega mais tarde sem ninguém para o acompanhar, elas começam a fazer parede contra ele, a assombrá-lo, dizendo serem as fantasmas das amantes do tetra-bisavô Herni a cantar descaradamente:


Duque Nazi, heia, hei,
Tenta apanhar-nos!
Ô, ô, ô!
Duque Nazi, heia, hei,
Tenta apanhar-nos!





A que apanhares, homezinho,
Dar-te-á um beijinho!
Mas tua esposa de Fogo, ah, ah, ah,
Dar-te-á um puxão de orelhas!
Ah, ah, ah, ah
Dar-te-á um puxão de orelhas!
Heia, hei!
Tenta apanhar-nos



Mas parece que hoje, ao verem aquela dama metropolitana tão importante num deserto negro cheio de florestas à direita e areia ccinzenta qual finos grãos de cimento, acharam que é aquilo era areia demais para a sua camioneta, portanto, decidiram que era melhor fazer explodir o pérfido rumour que há um caso entre a Serpente de Fogo e o meu querido priminho Coutinho!

sábado, 25 de agosto de 2007

O Amor de Velhos - Até ao fim dos tempos...?





Como podes ver, eu estou muito romântica hoje, e como já cheguei da minha relaxante viagem, tenho estado a pensar «...Porque não continuar a minha história...?»



Foi assim que irei contar um pouco da história de amor mais improvável e fantástica de toda a Atlântida!


Mas, continuando com a minha história – que é para isso que estás a ler, não é verdade, para me ouvir!
Subitamente, a atrevida mulher teve o atrevimento de se enrolar nas botas do meu primo, colando-se a ele como uma teimosa lapa.
- Please.......! – Choramingou ela. – Senão, o meu ex. vai matar-me!
Por fim, o meu primo olhou-a de alto a baixo qual abutre nojento, sorriu de uma forma muito esquisita, e riu-se.
Havia qualquer coisa naquele olhar, e eu conheçia aquele olhar. Não, não era enjoo, qualquer coisa impossível entre dois velhos bruxos, a única coisa que o Rei dos Bruxos, não compreende nem consegue vencer. Talvez fosse compaixão....Bondade súbita; pena; sentido de dever para com uma dama; chama o que quiseres, mas eu cá achava que era outra coisa.
Uma coisa que supera tudo, e, que para além de Deus, vence o Mal de uma forma quase milagrosa, algo que transforma qualquer coisa murcha em lindo! O Amor, é isso, mesmo! Ele estava apaixonado por aquela bruxa...? Quem diria!
As rugas do velho alemão enrrugaram-se mais de sinceridade e prazer.
- O que se passou contigo? Estás....Diferente. – Exclamou ele ternamente, pegando na mão dela como se fosse um jovem rapaz de dezoito anos. – Pareces mais nova desde a última vez que te vi em 1945 .....
Ela riu-se igualmente, suspirou longamente na sua voz aguda de mulher fatal, retorcendo de uma forma sinistra os seus lábios cor marrom, e, voltando vaidosamente as costas, e largou a sua “oportunidade” de reconsiliar-se com o antigo colega de faculdade de bruxos.
No entanto, as suas pestanas longas e bem penteadas com maybelline diziam outra coisa para além de ódio e desprezo. Aquela queria amor para toda a manhã. No sentido mais perverso, se é que me entendes!
- Este bruxo dá cabo de mim! – Exclamou sadicamente. – Primeiro não quer saber de mim para nada, depois ainda diz que eu estou.......
O ambiente estava a passar de gelado como o Ártico para escaldante qual uma bela praia nos trópicos!
Lançou-lhe um ar de mázinha e convencida, com uma unha vermelha longa nos lábios, sorrindo de forma matreira.
- A sério que estou mais bonita!? Oh, My God! – Indagou, fingindo-se de humilde, rindo-se falsamente. – Bebé, tu não dizias coisas dessas desde o Verão de 1925!
À medida que começavam a acalmar-se os dois bruxos amansaram mais os seus instintos negros, e o meu primo foi o primeiro a sentar-se com fraternal cuidado numa cadeira, indicando-lhe um lugar à sua “amiga”, sorrindo sincero e muito calmo.
Eles iriam revelar os seus verdadeiros sentimentos um ao outro, pis reparei que a Serpente de Fogo estava quase a derramar verdadeiras lágrimas.
Na altura eu não sabia, mas parecia que eles iam entrar na fase de reconsiliação dos “oh, meu adorado Couti” e dos “Oh, minha querida Prrincesinha” . É por isso que eu nunca vou ter um bruxo como namorado! Por Amor de Deus, aquilo iria ficar tão melado!
Seria uma estupidez, aliás, o Amor algumas vezez é um bocado estúpido.
Ela aceitou o amável convite, olhando de soslaio para todas as florestas, a tremer um pouco, olhando com vários remorsos o seu anel de jade. Havia algo de mau no passado daqueles dois. Ambos estavam tão tensos....
Ao pôr lentamente o braço no ombro demasiado queimado da mulher – por causa dos solários que a bruxa frequentava para os seus olhos cor de azul-claro fossem semelhantes a duas pérolas num deserto latino – este olhou-a com carinho e muito afecto, enfrentando-a de forma franca.
- Então? Tu nunca escrreveste parra mim quando estava no Limbo dos Espelhos desde o Inverno de 1946 até 1986....Quarenta anos sem os teus lábios já são uma torrturra parra um homem que te ama ardentemente...........!
Ela pôs delicadamente a sua cabeça no ombro forte direito dele, ficando desta forma, completamente presa pelo bruxo que lhe declarava uma paixão flamejante.
- Tinha medo, lembras-te que os Nazis juraram vingança ao nosso amor proíbido e toda a minha Atlântida e meu povo eles quase exterminaram! – Respondeu rapidamente ela a tremer. – Se os restantes soubessem que o seu coronel do departamento de magia das SS desertor andasse ou estivesse a namorar com a rainha da Atlântida; só o terrível Tsesustan sabe dos horrores que nos fariam passar....!
Beijou a modos trémulos o pescoço do seu “prometido” qual uma terna vampira, e os seus olhos encheram-se lágrimas.
Será que a velha o amava realmente...?! Soluçou violentamente, qual vítima de uma terrível guerra passada, enquanto sussurrava em atlante palavrões contra nazis famosos nos ouvidos do primo. Teria passado um mau bocado; ela...? Teria coração....?
Para estar assim tão desesperada, com a cara vermelha de corar, fungava com o seu lenço preto de seda o nariz como um trombone por cima do seu “amigo”, com certeza que os Nazis lhe fizeram a vida negra!
Se é uma coisa que ela não faz todos os dias a toda a gente, é, mas mesmo uma bruxa de mais de cem anos tem direitos de mulher, sim tem!
- Não sabes, Bebé, o quanto sofri sem um homem para me amparar e falar-me carinhosamente depois da queda dos Nazis; nos anos 70, comecei a fumar axixe para te esquecer, a ti, e aos Bruxos. – Continuou tristemente. – Mas apenas consegui a minha e do meu país, a súbita descida para o mais escuro dos abismos! Via nos meus delírios enquanto estava no efeito da droga, via milhares de soldados nazis a me pisarem com as suas botas pesadas. Os meus amantes tornavam-se em perigosos monstros que me perseguiam noite e dia, ai, ai..........
Aí, a choradeira elevou-se a um volume tão alto que até parecia mentira que a Serpente de Fogo em pessoa estaria a fazer uma cena daquelas, debruçada nas pernas do primo com uma mão na testa, a chorar e gritar copiosamente por tudo e por nada!
- AI A MINHA DESGRAÇA! QUEM É QUE ME MANDOU SER CORAJOSA E INSTIGAR-TE PARA TE METERES COM OS NAZIS? AI! A MINHA VIDA! AI QUE EU SOU UMA DESGRAÇADA! AI…MEU DEUS, QUE EU JÁ NEM AGUENTO MAIS! OHHHHHHHHHH..........
O meu primo é que já não aguentou tanta gritaria, pondo as mãos gorduchas na cara magra da sua linda bruxa, e beijou-a cautelosamente, como um pai na testa da velha mulher com aspecto jovem.
Ele queria acalmá-la, jamais gostaria que ela enlouquecesse. Afinal, via-se logo que parecia que fora ontem que dois jovens e tímidos bruxos passeavam nas claras noites estreladas de Verão de mão dada; e não se beijavam ou faziam amor, apenas conversavam animadamente, abraçados um ao outro. Ele no seu avião vermelho de sangue, ela na sua ordinária e feia vassoura, enquanto viam a maravilhosa Atlântida do ar. A pacifíca Atlântida, quando a guerra de Poriavostin estava a milhas de anos atrás!
Assim, acariciou qual terno namorado a trança preta da bruxa, e os seus dedos brutos tocaram nas unhas longas da mulher.
- Oh, minha rainha! - Exclamou ele. - Tive boas razões para me alistar nas SS, tal como tu tiveste boas razões para te enamorares do haxixe. Mas agora tudo será diferente. Promete-me que vais deixar de fumarr drrogas, e eu te darei todas as cerrtezas que estarrás segurra!


Ele ainda se lembrava dessas mágicas noites, e então ela......?
Com os braços bem firmes no corpo sensual da Serpente de Fogo, o meu primo perguntou seriamente:
- Eu ainda te amo! Depois de oitenta anos eu ainda te amo, e tu, amas-me?
Depois daquele coração feroz e cruel ter-nos quase tirado tudo, tu amas-me?
A forma como ele lhe perguntou isto deixou a mulher tão atónita, que apenas pode responder misteriosamente, beijando suavemente nos lábios, como num transe, escondendo alguma coisa.
- Acho que sim....Sim, ainda te amo, meu adorado Couti! – Murmurou trémula e muito assustada na orelha do seu amor. – Mas tenho tanto medo....Ai, Meu Deus!
Assim, convencidos que ainda se amavam um ao outro, foram para o Château juntos, de mão dada, recordando a doce juventude ambos, sorrindo um para o outro, como dois colegas de faculdade. A sério que eu quase rebentei a rir quando os acompanhava com a minha sombra como minha companhia!