Há umas cartas atrás, disseste que a minha família era muito eclética, ou seja diferente, e que talvez pudessem haver podres na família.
Sim, realmente, tens razão, mas, cá em casa, toda a gente se compreende, e como não podemos viver nesta casa que, se não, não íamos caber, vou-te dizer que somos muito unidos espiritualmente. A maldade que nasce em cada um de nós e segue-nos durante toda a vida não impede que nos amemos como pessoas do mesmo sangue e descêndencia.
O humor e a diversão são constantes nas reuniões de família, é cá uma festa entre os "Tufões" quando a família se junta!...
Para falarmos na minha Mamã, tenho de falar no meu Tio-Avô Demetrius e do seu irmão gémeo mais velho, o Duque Von Tifon e meu avô Adrian Friedrich Von Tifon e a irmã mais nova, Nefrufi. Os irmãos do meu avô eram seis ao todo, porque já vês o quão grande a família é. O nosso avô – o filho barão mais velho do Bisavô Ignaz Hyeronimus, que por seu lado, é o irmão mais novo de nove filhos do honrado e já há muito falecido Trisavô Randolf Moritz – deu três filhos: Katharina, Charlotte e o pai do meu primo, o Tio Ludwig Johann Von Tifon.
A sua esposa era a muito estimada bruxa atlante, a lindíssima Alice Dalila Di Kilzart, pela qual o avô materno se apaixonou loucamente.
Foi uma linda história de amor, que perdurou durante muito tempo; a Vovó Alice era uma mulher trabalhadora, branda e serena. Uma mãe dedicada e preocupada com os seus três filhos, e dava-se muito bem com o ciumento cunhado que teve uma mulher ainda mais bela, mas estéril, era sempre ela quem propunha a toda a família os piqueniques de Verão.
Por outro lado, o avô era um homemmuito sério e austero (como a maior parte dos Von Tifon). Era o perfeito bruxo de família por excelência, nas suas próprias palavras, um herói das grandes batalhas franco-prussianas, sempre com as ideias fixas em mente. Detestava crianças e brinquedos, odiava música e ruídos, não gostava do Sol ou de dias bonitos – muitos anos a suportar chuva e lama é o que dá, resmungava o primo contra o avô. Era, igualmente, um homem muito solitário e amargo, as únicas coisas que o punham mais simpático do que um cordeiro era o gato persa da família, o Spiegel, e a mulher, a nossa Avó Alice. De resto, era um grande amigo de cães, até há opiniões na família que ele gostava mais dos bichos do que as pessoas. Teve, em tempos, três cães: um pastor alemão, um lavrador preto, e um salsicha muito engraçado. O quadro de família, mesmo por cima da comprida escadaria bifurcada, mostram-no em primeiro plano com o Olaf (o pastor alemão), o Rolf (o lavrador) e o Siegui (o baixote) ao seu lado esquerdo do trono, de cauda a rabiar de alegria junto do dono. À direita, com um dos braços fortes sobre o ombro, está a avó, e, mais atrás, estão os restantes seis irmãos Von Tifon, com excepção do outro gémeo, que está à esquerda dos cães, a segurar no Spiegel A Tia Charlotte e o Tio Ludwig estão mesmo no meio do retracto, ao pé dos cães. A mamã ainda não tinha nascido nessa altura. Porém a única personagem no retracto que não se esforça para esboçar um leve sorriso é o chefe da família, o Avô Adrian ou o “Herr Von Tifon”, como gostava de ser tratado.
Com o rosto magro de bigode branco bávaro bem cortado, pálido, o monóculo azul cristalino a pender no olho esquerdo deformado e o nariz adunco e afincado, grande, juntamente com aquele olhar penetrante e severo, o avô dá um ar muito intimidante e dominador. Deveria ser um bruxo dos seus duzentos e cinquenta anos, mas se estava bem conservado…Ao olhar para ele, diríamos que teria uns cinquenta anos de idade humana.
Morreu em 1938, no estalar da segunda grande guerra, mas, apesar de ser misógino e de não gostar de crianças, o avô simplesmente apaixonou-se pela avó e pelos frutos que ela lhe deu: três saudáveis filhos. Ele falava muito alto – coisa rara para um alemão – e a sua voz estranha e particularmente arrepiante ecoava pelos corredores quando se irritava muito, e não era preciso fazer muito para o incomodar. A Tia Charlotte contou uma vez ao primo que ele era parecidíssimo com o meu Padrasto, até na voz. Acho que não. Uma coisa que me espantou imenso é que ele casou-se com uma bruxa de cor preta, e mais ainda, que não era da sua nacionalidade. Para além disso, há que sublinhar que, quando se casaram, no Dia das Bruxas em 1866, a avó tinha vinte anos e ele quarenta! A avó Alice morreu em 1980, deixando um diário oculto algures na biblioteca, intitulado “Casada com Um Von Tifon”, que relata, segundo diz a lenda, todas as memórias, sofrimentos, e aventuras que passou junto com o marido. Uma vez que a Avó desenhava muito bem, fez um esboço dela própria, muito junto ao avô, que está com as mãos juntas aos ombros lindos dela. A avó era morenaça, tipo Beyonce, ou indiana, com os cabelos encaracolados negros, e uns olhos negros amendoados. Era pequenina, comparada com o avô – A Avó Alice tinha um metro e quarenta e nove, enquanto que o avô deveria ter um metro e setenta e nove. Apesar das suas impressionantes diferenças, davam-se muito bem, e aplaudo o facto da avó ter aguentado setenta e dois anos um homem velho, feio e prepotente. Desta união digna dum musical muito semelhante àquele lindo do Fantasma da Ópera ou à Bela e o Monstro, nasceu Ludwig, Charlotte e Katharina.
Contos, historias, textos pessoais... Short-stories, poems, personal texts....
Princesa Shamanarta
A reencarnação de uma antiga deusa Bellante da Sabeodria, sou eu... ;) LoL ...estou a brincar
The reencarnation of a ancient bellanian wisdom goddess....it's me...! ;) LoL I'm Jokking..
Many stories to tell! Now In bilingue....
________________
c.catigirl@gmail.com
sábado, 5 de abril de 2008
domingo, 30 de março de 2008
Indicação de blogs - "Diz que até não é um mau blog"

Olá a todos os “comentadores” e sejam, mais uma vez, bem vindos a Histórias Com Nome Próprio.
Eu, Tifongirl, fui indicada pelo blogueiro arthurius maximus para o prémio “Diz que até não é um mau blog”.
As coisas que funcionam neste prémio são assim: Ao receber a indicação, o contemplado deve escrever um post sobre a mesma e mencionar o blog indicado e, por sua vez, fazer mais cinco novas indicações.
Por mim e pela minha experiência em navegar na blogoesfera, descobri blogs muito interessantes e criativos.
Os donos desses mesmos blogs devem orgulhar-se de terem layouts incríveis e posts apelativos e cheios de imaginação!
Aqui estão eles:
Contos Ancestrais
Zaragata
Algumas Bobagens
Trocentas Coisas
Xeques-mates
Espero que gostem destas maravilhas da Internet. Eu gostei… LoL xD
Estes concursos servem para ver se os nossos blogs são mesmo bons, e, pessoalmente, gostei imenso da ideia.
Uma salva de palmas para o inventor deste prémio e um grande abraço para todos…
Tifongirl
Eu, Tifongirl, fui indicada pelo blogueiro arthurius maximus para o prémio “Diz que até não é um mau blog”.
As coisas que funcionam neste prémio são assim: Ao receber a indicação, o contemplado deve escrever um post sobre a mesma e mencionar o blog indicado e, por sua vez, fazer mais cinco novas indicações.
Por mim e pela minha experiência em navegar na blogoesfera, descobri blogs muito interessantes e criativos.
Os donos desses mesmos blogs devem orgulhar-se de terem layouts incríveis e posts apelativos e cheios de imaginação!
Aqui estão eles:
Contos Ancestrais
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Algumas Bobagens
Trocentas Coisas
Xeques-mates
Espero que gostem destas maravilhas da Internet. Eu gostei… LoL xD
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Uma salva de palmas para o inventor deste prémio e um grande abraço para todos…
Tifongirl
domingo, 23 de março de 2008
Katharina - Pensamentos e Biografia da minha mãe...(parte I)

Mulher: a mais nua das carnes vivas e aquela cujo brilho é o mais suave
De Tifongirl
De Tifongirl
Começo o meu post antes de ir para Londres com esta citação de Antoine de Saint-Exupéry em honra à minha falecida mãe, que morreu em 1997, e a ela o dedico, com muito amor e carinho da sua filhinha mais nova, a querida bruxinha que, ainda hoje, espera por não ser ameaçada pelo terrível "bruxo maligno" que pode assumir várias formas, e que, até hoje matou tanta gente: o cancer ou cancro...!
Mamã, obrigado por tudo o que me deixaste... Um beijinho.
O olhar tão moderado e soberbo da Katharina fazia-me fantasiar de cenas realmente passadas na vida dela, e como verdadeira bruxa que era, com aquelas mãos tão prestigiosas e que fariam o próprio Hitler tremer de cima abaixo da braguilha.
Era natural que, durante o curto período da sua vida – a mãe foi morta aos setenta e oito anos – como feiticeira negra e alemã, muitos homens da sua época e país natal estivessem aos seus pés. Katharina, em público, raramente usava maquilhagem ou calças, pelo que constituía o estereótipo nazi essencial, sendo virgem, mas, contudo, gostava de namorar muitos e beijar poucos. Por outro lado, os Bruxos também sentiam-se atraídos por ela, uma vez que era muitíssimo semelhante a Eris, o ideal da bruxa no seu todo; inteligente e submissa, culta e elegante, eloquente e bem parecida, a minha mãe punha os olhos de qualquer bruxo fora de órbita. Era uma daquelas senhoras influentes e ricaças que não se deixava enganar por qualquer marmanjo que lhe aparecesse à frente, é por isso que gosto também dela. Era uma mistura de Marlene Dietrich com a Rainha Melnjar, entendes? O meu primo contou-me durante a nossa conversa que, apesar de querer ganhar dinheiro a qualquer custa e preço, a minha mãe não era desonesta e cobarde. Para usar uma palavra alemã no vocabulário germânico do primo, Doch, que significa pelo contrário. Ela era a matrona exemplar dos Von Tifon.
Uma vez que era dois anos mais velho que a própria tia, se podia esperar uma atitude bastante dominadora por parte de Ihre Exzellenz – Sua Excelência, o Duque Willhem Albert Siegfried Couto Von Tifon, herói da Frente Russa, condecorado com a Cruz de Ferro de 1ª Classe pelo próprio Adolf Hitler – quanto à tia. Não senhor, minha querida.
Ele era o predilecto da Tia Kathy, e gostavam muito um do outro como irmãos.
Descobri perspicazmente que, se não tocasse nos pontos negativos da vida da minha mãe durante a conversa, poderia descobrir imensas coisas acerca dela e do meu pai, “o ignorante, tarado e desleixado” do Tomás ou Thomas Alexander McCares, escocês de nascença, um pobre rapaz do campo, com uns parafusos a menos, herdeiro duma grande riqueza e de vastas terras.
A história de Thomas McCares e Katharina Von Tifon é, segundo o meu primo, uma comédia e uma tragédia.
Nasceu no ano de 1904, e já aos dez anos era muito temperamental e extrovertida. Acho que herdei a tendência dela para meter-se em sarilhos e para ser sempre do contra, e também acerca de ter a cabeça quente é verdade.
Era uma mulher muito brincalhona e cheia de surpresas, que, umas vezes estava muito bem-disposta, ora a gritar furiosamente pelos cantos por causa de alguma coisa que tinha corrido mal. Adorava se caricaturar como uma fria, dura e bruxa má loura, mas ela não era nada disso. Em privado, gostava de tocar guitarra e era tão doce e gentil com as crianças como o pó-de-arroz e batom rosa que lhes deixava no rosto.
Imaginei a minha mãe a brincar com a sua própria figura e a fazer vozes para as crianças, enquanto os homens da família e as mulheres destravam às gargalhadas.
Também me ri, tentando aguentar-me de pé, com lágrimas de felicidade a rolarem pela minha cara com a figura ridícula que o primo fazia ao contar aquilo, de pé, na cadeira a imitar numa voz grossa a minha mãe:
- “Vá lá, Coutinho! Não sejas tão mauzinho para a Tia Kathy! Meninos, vamos lá! Andor, andor! Está na hora do chichi cama.”
- Ò Primo Coutinho! – Ri-me, com a barriga a fazer cócegas. – A sério que a Mamã era tão bem-disposta?
- Sim, ias dar-te tão bem com ela… – Suspirou ele. – Vocês as duas poderiam conversar durante horas que se entendiam perfeitamente. Seria ela, provavelmente que dominaria a conversa, porque ela era uma fala-barato. Nasceu uma tagarela, morreu como uma tagarela…
O Primo Coutinho sorriu, também com lágrimas, mas de tristeza…O que é que se passava com ele…?
A Mãe teria alguma coisa escondida dentro das saias?
Com o copo de aguardente segurada pela mão, reparei que esta tremia à medida que engolia a bebida forçosamente.
Com um ar sério, lançou-me um olhar sombrio:
- Enfim: ela era ambiciosa, talvez demasiado para um país controlado por homens, e morreu como uma Cleópatra, suicidou-se!
O meu queixo caiu nesse momento! Como?! E porquê? Realmente, os Bruxos são trágicos por natureza, é sempre a mesma coisa. Sempre que têm tudo na vida, acham-se no direito e privilégio de morrerem duma forma heróica, só porque não tiveram uma vida que não corresponderá ao aceitavelmente ético e honesto. Ainda bem que a Mamã era honesta e não acreditava no Nazismo.
- O quê?! – Exclamei, sarcasticamente. – Como poderia isso ser?
- É o que te estou a dizer, a tua querrida Mamma foi encontrada morta nos arredores de Berlin, com uma pistola prateada encostada à sua orelha a jorrar de sangue, deitada, nua, completamente pálida, mas com um sorriso no rosto. – Declarou num tom sinistro.
Queria chorar, mas a minha natureza insensível preveniu-me de entrar em pânico, servi-me dum copo de aguardente, sem que o primo se importasse com isso, e, num só gole, afundei as minhas mágoas no álcool. Tenho de me habituar às bebidas fortes, afinal, um bruxo não é bruxo se não ser para as bebidas. Soltei um guincho agudo vindo do meu próprio estômago a arder. Está bem, estava um pouco transtornada por aquela notícia, mas o primo, como já devia ter visto o cadáver da minha mãe, apenas acrescentou, bebendo refinadamente a aguardente aos poucos:
- Muito bem, Jessica. Não chores, apenas engole essa tristeza e pena que tens dentro de ti.
Um sorriso cínico bailou-lhe no rosto mal pousou o copo e levantou-se, calmo, como se não fosse nada.
De repente, senti as suas mãos e braços a envolverem-me carinhosamente, qual pai que consola a filha.
Num único instante, senti os seus lábios perto dos meus, e, por uns segundos, pensei que fosse ele o assassino. Sim, porque eu não acreditei muito naquela história de depressão e remorsos. A minha mãe jamais seria tão cobarde ao ponto de se matar com a menos dolorosa e silenciosa arma letal para matar um bruxo adulto.
Senti as suas mãos suadas a penetrarem bem dentro do meu roupão azul-claro, e, naqueles minutos, as mãos, corpo e cara do meu primo mudaram para alguém diferente, um homem maduro, de aspecto nórdico que me puxava egoistamente para perto de si.
Contudo, a voz era a mesma, num sussurrar quase assustador:
- Estou livre, querida Jessica, e tu, também estás, minha prima?
- O que é que está a fazer, primo? – Indaguei, curiosa, ao ver que ele brincava ternamente com os meus caracóis e me levava para o sofá. – Está doido ou quê, passou-se de vez, é?!
O meu primo já não era sim o meu primo, mas sim um bruxo com um amor obscuro e misterioso, quase como se tivesse medo que me perdesse.
Os seus lábios firmes e velhos de homem de quarenta anos fizeram-se sentir, desta vez nas maçãs delicadas do meu rosto, e, enquanto me abraçava provocadoramente, ouvia a sua distante voz:
- Entschuldigung, Jessica. É o meu instinto, tu comprrendes. Quando a morrte surge na mente dum bruxo, seja de que idade for, as suas hormonas ficam mais abertas e logo se dá a transformação amorosa.
- Eu perdoo-o, afinal, o primo deve sentir tanta falta da minha mãe que nem sequer consegue tirá-la da cabeça. – Comentei ironicamente. – Deixe-me em paz!
Se não fosse a Serpente de Fogo a chegar, já se teria dado muita coisa!
Gritou histericamente contra o primo para ele se levantar imediatamente senão era ela quem ficava selvagem. Não queiras saber como é que foi a discussão, as cenas entre a namorada do meu primo e o primo são patéticas.
Adiante, falemos doutras coisas.
Era natural que, durante o curto período da sua vida – a mãe foi morta aos setenta e oito anos – como feiticeira negra e alemã, muitos homens da sua época e país natal estivessem aos seus pés. Katharina, em público, raramente usava maquilhagem ou calças, pelo que constituía o estereótipo nazi essencial, sendo virgem, mas, contudo, gostava de namorar muitos e beijar poucos. Por outro lado, os Bruxos também sentiam-se atraídos por ela, uma vez que era muitíssimo semelhante a Eris, o ideal da bruxa no seu todo; inteligente e submissa, culta e elegante, eloquente e bem parecida, a minha mãe punha os olhos de qualquer bruxo fora de órbita. Era uma daquelas senhoras influentes e ricaças que não se deixava enganar por qualquer marmanjo que lhe aparecesse à frente, é por isso que gosto também dela. Era uma mistura de Marlene Dietrich com a Rainha Melnjar, entendes? O meu primo contou-me durante a nossa conversa que, apesar de querer ganhar dinheiro a qualquer custa e preço, a minha mãe não era desonesta e cobarde. Para usar uma palavra alemã no vocabulário germânico do primo, Doch, que significa pelo contrário. Ela era a matrona exemplar dos Von Tifon.
Uma vez que era dois anos mais velho que a própria tia, se podia esperar uma atitude bastante dominadora por parte de Ihre Exzellenz – Sua Excelência, o Duque Willhem Albert Siegfried Couto Von Tifon, herói da Frente Russa, condecorado com a Cruz de Ferro de 1ª Classe pelo próprio Adolf Hitler – quanto à tia. Não senhor, minha querida.
Ele era o predilecto da Tia Kathy, e gostavam muito um do outro como irmãos.
Descobri perspicazmente que, se não tocasse nos pontos negativos da vida da minha mãe durante a conversa, poderia descobrir imensas coisas acerca dela e do meu pai, “o ignorante, tarado e desleixado” do Tomás ou Thomas Alexander McCares, escocês de nascença, um pobre rapaz do campo, com uns parafusos a menos, herdeiro duma grande riqueza e de vastas terras.
A história de Thomas McCares e Katharina Von Tifon é, segundo o meu primo, uma comédia e uma tragédia.
Nasceu no ano de 1904, e já aos dez anos era muito temperamental e extrovertida. Acho que herdei a tendência dela para meter-se em sarilhos e para ser sempre do contra, e também acerca de ter a cabeça quente é verdade.
Era uma mulher muito brincalhona e cheia de surpresas, que, umas vezes estava muito bem-disposta, ora a gritar furiosamente pelos cantos por causa de alguma coisa que tinha corrido mal. Adorava se caricaturar como uma fria, dura e bruxa má loura, mas ela não era nada disso. Em privado, gostava de tocar guitarra e era tão doce e gentil com as crianças como o pó-de-arroz e batom rosa que lhes deixava no rosto.
Imaginei a minha mãe a brincar com a sua própria figura e a fazer vozes para as crianças, enquanto os homens da família e as mulheres destravam às gargalhadas.
Também me ri, tentando aguentar-me de pé, com lágrimas de felicidade a rolarem pela minha cara com a figura ridícula que o primo fazia ao contar aquilo, de pé, na cadeira a imitar numa voz grossa a minha mãe:
- “Vá lá, Coutinho! Não sejas tão mauzinho para a Tia Kathy! Meninos, vamos lá! Andor, andor! Está na hora do chichi cama.”
- Ò Primo Coutinho! – Ri-me, com a barriga a fazer cócegas. – A sério que a Mamã era tão bem-disposta?
- Sim, ias dar-te tão bem com ela… – Suspirou ele. – Vocês as duas poderiam conversar durante horas que se entendiam perfeitamente. Seria ela, provavelmente que dominaria a conversa, porque ela era uma fala-barato. Nasceu uma tagarela, morreu como uma tagarela…
O Primo Coutinho sorriu, também com lágrimas, mas de tristeza…O que é que se passava com ele…?
A Mãe teria alguma coisa escondida dentro das saias?
Com o copo de aguardente segurada pela mão, reparei que esta tremia à medida que engolia a bebida forçosamente.
Com um ar sério, lançou-me um olhar sombrio:
- Enfim: ela era ambiciosa, talvez demasiado para um país controlado por homens, e morreu como uma Cleópatra, suicidou-se!
O meu queixo caiu nesse momento! Como?! E porquê? Realmente, os Bruxos são trágicos por natureza, é sempre a mesma coisa. Sempre que têm tudo na vida, acham-se no direito e privilégio de morrerem duma forma heróica, só porque não tiveram uma vida que não corresponderá ao aceitavelmente ético e honesto. Ainda bem que a Mamã era honesta e não acreditava no Nazismo.
- O quê?! – Exclamei, sarcasticamente. – Como poderia isso ser?
- É o que te estou a dizer, a tua querrida Mamma foi encontrada morta nos arredores de Berlin, com uma pistola prateada encostada à sua orelha a jorrar de sangue, deitada, nua, completamente pálida, mas com um sorriso no rosto. – Declarou num tom sinistro.
Queria chorar, mas a minha natureza insensível preveniu-me de entrar em pânico, servi-me dum copo de aguardente, sem que o primo se importasse com isso, e, num só gole, afundei as minhas mágoas no álcool. Tenho de me habituar às bebidas fortes, afinal, um bruxo não é bruxo se não ser para as bebidas. Soltei um guincho agudo vindo do meu próprio estômago a arder. Está bem, estava um pouco transtornada por aquela notícia, mas o primo, como já devia ter visto o cadáver da minha mãe, apenas acrescentou, bebendo refinadamente a aguardente aos poucos:
- Muito bem, Jessica. Não chores, apenas engole essa tristeza e pena que tens dentro de ti.
Um sorriso cínico bailou-lhe no rosto mal pousou o copo e levantou-se, calmo, como se não fosse nada.
De repente, senti as suas mãos e braços a envolverem-me carinhosamente, qual pai que consola a filha.
Num único instante, senti os seus lábios perto dos meus, e, por uns segundos, pensei que fosse ele o assassino. Sim, porque eu não acreditei muito naquela história de depressão e remorsos. A minha mãe jamais seria tão cobarde ao ponto de se matar com a menos dolorosa e silenciosa arma letal para matar um bruxo adulto.
Senti as suas mãos suadas a penetrarem bem dentro do meu roupão azul-claro, e, naqueles minutos, as mãos, corpo e cara do meu primo mudaram para alguém diferente, um homem maduro, de aspecto nórdico que me puxava egoistamente para perto de si.
Contudo, a voz era a mesma, num sussurrar quase assustador:
- Estou livre, querida Jessica, e tu, também estás, minha prima?
- O que é que está a fazer, primo? – Indaguei, curiosa, ao ver que ele brincava ternamente com os meus caracóis e me levava para o sofá. – Está doido ou quê, passou-se de vez, é?!
O meu primo já não era sim o meu primo, mas sim um bruxo com um amor obscuro e misterioso, quase como se tivesse medo que me perdesse.
Os seus lábios firmes e velhos de homem de quarenta anos fizeram-se sentir, desta vez nas maçãs delicadas do meu rosto, e, enquanto me abraçava provocadoramente, ouvia a sua distante voz:
- Entschuldigung, Jessica. É o meu instinto, tu comprrendes. Quando a morrte surge na mente dum bruxo, seja de que idade for, as suas hormonas ficam mais abertas e logo se dá a transformação amorosa.
- Eu perdoo-o, afinal, o primo deve sentir tanta falta da minha mãe que nem sequer consegue tirá-la da cabeça. – Comentei ironicamente. – Deixe-me em paz!
Se não fosse a Serpente de Fogo a chegar, já se teria dado muita coisa!
Gritou histericamente contra o primo para ele se levantar imediatamente senão era ela quem ficava selvagem. Não queiras saber como é que foi a discussão, as cenas entre a namorada do meu primo e o primo são patéticas.
Adiante, falemos doutras coisas.
sábado, 15 de março de 2008
Katharina - "a Pétala amarela da flor do Medo"
* Escrito no Dia da Magia Negra, 31 de Outubro de 2005 - Então estamos prontos para uma festa de arromba? é claro que estamos! Hoje não é dia para melancolias!
Por falar em dramas e tragédias, acabei por observar atentamente à minha direita o retracto da minha mãe, a bela Catarina Von Tifon – a Pura Bruxinha, como alcunha de tudo e de todos – mesmo diante do cadeirão no canto direito inferior do átrio onde o primo costuma sentar-se para beber um licor, e lá estava o Duque, com o olhar fixo na tela do quadro, completamente cativado e comovido pela formosura da mulher.
A divisão do átrio já era muito iluminada, mas agora, com aquela mulher, com aquelas suas pérolas azuis, lindamente pintadas a óleo, que complementavam uma cor bege natural, mesmo linda, aquela sala parecia ser o centro do mundo! Fechei, curiosa, o livro, por que é que o meu primo se sentia tão pensativo e nostálgico?...
O respeitado duque alemão suspirava de cinco em cinco minutos, sempre que cruzava o olhar com a falecida tia e, com o copo vermelho na mão direita grande, murmurava palavras em Alemão entre soluços disfarçados pelos goles intensos da bebida.
Eu sabia que ele não gosta de falar na minha mãe, mas…Será que haverá outra causa para além da misteriosa morte de Catarina Elisabeth Von Tifon, a falecida Duquesa e herdeira da fortuna dos Von Tifon, a lindíssima e tentadora proprietária e gerente da Clínica Bel B, uma há muito falida clínica de psicologia de Bruxos…?
Quase que não sei nada acerca da minha “mamã”, mas se ela tinha miolos, tinha.
Sei também que ela e a bruxa da Serpente de Fogo eram grandes amigas, mas esse facto é muito duvidoso…Como é que a Mamã pode ter gostado duma pessoa como a corrupta princesa do mal!? Mais; como é que ela pode se ter apaixonado uma única vez que seja pelo meu Padrasto?!...
Enfim, nos tempos como aqueles – os Anos 30 e 40 – deviam estar-se mesmo desesperados para arranjarem “amigos” e “amigas”, se é que estás a seguir o meu raciocínio.
Ouvi dizer que, nesses tempos, a crueldade e volúpia dos Humanos e dos Bruxos na nata das natas na Atlântida era equivalente, portanto, era muito fácil imaginar a minha mãe a fazer poucas-vergonhas!
Estava curiosa, pronto! Levantei-me silenciosamente, com receio que o primo me ouvisse, e tentei ver por mim própria o que é que aquele retrato tinha de tanto especial para o meu primo estar ali, exactamente duas horas, especado a vê-lo.
Fiquei espantada ao ver a beldade que a minha própria mãe biológica era: o cabelo amarelo de trigo encarrapitado num lindo penteado mesmo à alemã, a envergar um elegante casaco de mulher Chanel castanho, com umas botas de salto alto bege muito resistentes. Tinha umas luvas de seda brancas que a encaixavam na perfeição nos dedos de bruxa, magros e com unhas pontiagudas. Catarina – ou Katharina em Alemão – era uma mulher muito alta, provavelmente com um metro e setenta e cinco, e um sorriso brilhante duma verdadeira estrela de cinema.
Pela cara, teria os seus trinta e dois anos quando fora pintado aquele quadro, mas estava tão bonita que nem se via um sinal de rugas ou velhice. Aquela cara dava-me uma sensação de conforto: parecia um anjo...No entanto, pelo cigarro pousado atrevidamente - Na Alemanha dos tempos de Hitler, era de mau tom uma mulher fumar em público, pensavam logo que era uma prostituta, ou uma empregada dum bordel ou dum clube nocturno - na mão direita, se pensaria que ela era uma mulher muito influente.
Recostada num chaise longue de pele de chita super moderno, confortavelmente instalada num amplo escritório com paredes de pedra polida branca e cinzenta que adivinhei ser o dela, a minha mãe parecia mais uma actriz de cinema alemã do que uma psicóloga de renome, principalmente naqueles tempos.
A minha mãe parecia tão feliz, tão senhora, tão maravilhosa…!
Não me admirava que o meu primo estivesse ali a admirá-la, aquela deusa nórdica com lábios mais carnudos e o peito mais avantajado que ele alguma vez vira!
Pelos vistos, ela ainda não usava anel de noivado nessa altura, o que poderia muito bem ser tratada como Herrin Herzogin Von Tifon, Fräulein Katharina Von Tifon, Fräulein Von Tifon ou até mesmo Frau Doktor Von Tifon. Isto aqui era várias formas como se poderia tratar a minha mãe. A informal…Essa é que eu não sei.
Soltei propositadamente uma tosse leve, quase como se estivesse a rir-me da figura de parvo que o meu primo estava a fazer.
Toquei-lhe suavemente nas costas, duma forma muito maternal e chamei o seu nome docemente, quase num sussurro na orelha:
- Coutinho, o que estás a fazer aí?
Escutou-se um estalar de vidro no chão, consequência óbvia do meu primo se sobressaltar sobre a cadeira e o copo ter-lhe escorregado facilmente das mãos gordurosas.
Virou-se para mim com um ar temeroso, como se quisesse pedir desculpa, com imenso medo, e, nuns minutos patéticos, ouvi o vozeirão num tom nervoso e preocupado:
- Nada, querrida tia! Nada, eu…
Ao cair finalmente na realidade, como se estivesse caído estatelado dum precipício, olhou com um ar autoritário e confuso para mim.
- Ai...Jessica! – Exclamou, aliviado. – És tu, por esses olhos cor de safira, até podia jurar que era a tua mãe.
Soltei uma risada atrevida, sentando-me lentamente ao lado do primo numa cadeira e, lançando-lhe um olhar confiante, perguntei:
- A Mãe era assim tão bondosa e bonita?
- Se estás a referir que a clínica dela era uma fantochada qualquer para arrancar confissões de inocentes cidadãos alemães, judeus ou outro turista a fim de entregar as suas fichas e trabalho recolhido aos porcos da Gestapo, então sim, era um trabalho bem pago e que lhe dava a oportunidade de exercitar os seus conhecimentos acerca de psicologia aprendida em Oxford. – Respondeu de imediato, com vários sinais de arrependimento. – Ela gostava muito de Inglaterra, era como uma segunda pátria para ela, a guerra mudou a sua perspectiva radicalmente em relação a tudo. A guerra e o teu odiado Padrasto. Aquele…Aquele Schwein lavou-lhe completamente o cérebro!
Dizendo isto, engoliu furiosamente o licor, à medida que as suas mãos, escoadas em sangue por causa de ter estilhaçado abruptamente o outro copo, se retorciam, num sinal claro de ódio e raiva.
- A Katharina costumava dizer a brincar que ela era mais inglesa que alemã, antes de ter conhecido o teu Padrasto, com as ideias nazis dele! – Recordou tristemente. – Mas também dizia que amava tanto a Alemanha como de Inglaterra, de França ou da Atlântida. Tinha uma voz firme, mas linda e ondulada, com um sotaque londrino. Tinha vivido tanto tempo na Inglaterra, mas vestia-se tão bem quanto uma francesa, tinha uma eficiência e austeridade quanto uma alemã, mas sentia uma paixão ardente pela vida quanto uma mediterrânica…
- Quando é que ela conheceu o meu pai biológico? – Interrompi, cada vez mais ansiosa por saber mais.
O primo soltou uma gargalhada amarga, enquanto limpava com asseio as mãos encharcadas de sangue de bruxo.
Estavam tão sujas que nem sequer as conseguiria distinguir da carpete vermelha, e, metaforicamente falando, ele se sentia muito imundo por falar acerca do passado da minha leviana mãe.
Mas o que é que ela tinha feito de mal?...
De repente, a sua voz tornou-se um pouco mais nervosa e, num misto de surpresa e raiva, apontou o seu olhar inquisidor para mim.
Já com as mãos limpas, mas retorcidas em punhos fechados, quase como se quisesse dar um murro a alguém, perguntou de pé:
- Para que é que tu queres saber tanto acerca duma mulher que nunca gostou realmente do teu pai?! – A sua voz tornou-se má e furiosa. – A Katharina, que nem sequer se preocupava se o teu pai era dez anos mais novo que ela, se conseguisse escapar do possessivo do teu padrasto, era o que interessava!
Com os olhos muito arregalados, ele indicou um espelho pintado no quadro horizontal, e, no qual via-se um homenzinho (não teria mais que vinte, vinte e dois anos) de cabelos ruivos a espreitar por detrás do chapéu de feltro que tinha umas pedras preciosas verdes familiares: os olhos dele eram muito parecidos com os do meu avô adoptivo.
A minha cabeça estava mais confusa do que uma omeleta mal passada, a minha mãe seria ou um anjo, ou um diabo!...
Contudo, era-me impossível imaginar um triângulo mais estranho do que este; uma senhora da alta sociedade bem inteligente e astuta, um nazi provavelmente da mesma idade que ela, e um rapazinho de vinte e dois anos ruivos um rosto triangular, cabelos ruivos encaracolados e olhos verdes fascinantes!
Se calhar Katharina preferia homens mais novos, como uma vampira gosta de humanos inexperientes…Ena! Que penso eu da minha própria mãe!
A divisão do átrio já era muito iluminada, mas agora, com aquela mulher, com aquelas suas pérolas azuis, lindamente pintadas a óleo, que complementavam uma cor bege natural, mesmo linda, aquela sala parecia ser o centro do mundo! Fechei, curiosa, o livro, por que é que o meu primo se sentia tão pensativo e nostálgico?...
O respeitado duque alemão suspirava de cinco em cinco minutos, sempre que cruzava o olhar com a falecida tia e, com o copo vermelho na mão direita grande, murmurava palavras em Alemão entre soluços disfarçados pelos goles intensos da bebida.
Eu sabia que ele não gosta de falar na minha mãe, mas…Será que haverá outra causa para além da misteriosa morte de Catarina Elisabeth Von Tifon, a falecida Duquesa e herdeira da fortuna dos Von Tifon, a lindíssima e tentadora proprietária e gerente da Clínica Bel B, uma há muito falida clínica de psicologia de Bruxos…?
Quase que não sei nada acerca da minha “mamã”, mas se ela tinha miolos, tinha.
Sei também que ela e a bruxa da Serpente de Fogo eram grandes amigas, mas esse facto é muito duvidoso…Como é que a Mamã pode ter gostado duma pessoa como a corrupta princesa do mal!? Mais; como é que ela pode se ter apaixonado uma única vez que seja pelo meu Padrasto?!...
Enfim, nos tempos como aqueles – os Anos 30 e 40 – deviam estar-se mesmo desesperados para arranjarem “amigos” e “amigas”, se é que estás a seguir o meu raciocínio.
Ouvi dizer que, nesses tempos, a crueldade e volúpia dos Humanos e dos Bruxos na nata das natas na Atlântida era equivalente, portanto, era muito fácil imaginar a minha mãe a fazer poucas-vergonhas!
Estava curiosa, pronto! Levantei-me silenciosamente, com receio que o primo me ouvisse, e tentei ver por mim própria o que é que aquele retrato tinha de tanto especial para o meu primo estar ali, exactamente duas horas, especado a vê-lo.
Fiquei espantada ao ver a beldade que a minha própria mãe biológica era: o cabelo amarelo de trigo encarrapitado num lindo penteado mesmo à alemã, a envergar um elegante casaco de mulher Chanel castanho, com umas botas de salto alto bege muito resistentes. Tinha umas luvas de seda brancas que a encaixavam na perfeição nos dedos de bruxa, magros e com unhas pontiagudas. Catarina – ou Katharina em Alemão – era uma mulher muito alta, provavelmente com um metro e setenta e cinco, e um sorriso brilhante duma verdadeira estrela de cinema.
Pela cara, teria os seus trinta e dois anos quando fora pintado aquele quadro, mas estava tão bonita que nem se via um sinal de rugas ou velhice. Aquela cara dava-me uma sensação de conforto: parecia um anjo...No entanto, pelo cigarro pousado atrevidamente - Na Alemanha dos tempos de Hitler, era de mau tom uma mulher fumar em público, pensavam logo que era uma prostituta, ou uma empregada dum bordel ou dum clube nocturno - na mão direita, se pensaria que ela era uma mulher muito influente.
Recostada num chaise longue de pele de chita super moderno, confortavelmente instalada num amplo escritório com paredes de pedra polida branca e cinzenta que adivinhei ser o dela, a minha mãe parecia mais uma actriz de cinema alemã do que uma psicóloga de renome, principalmente naqueles tempos.
A minha mãe parecia tão feliz, tão senhora, tão maravilhosa…!
Não me admirava que o meu primo estivesse ali a admirá-la, aquela deusa nórdica com lábios mais carnudos e o peito mais avantajado que ele alguma vez vira!
Pelos vistos, ela ainda não usava anel de noivado nessa altura, o que poderia muito bem ser tratada como Herrin Herzogin Von Tifon, Fräulein Katharina Von Tifon, Fräulein Von Tifon ou até mesmo Frau Doktor Von Tifon. Isto aqui era várias formas como se poderia tratar a minha mãe. A informal…Essa é que eu não sei.
Soltei propositadamente uma tosse leve, quase como se estivesse a rir-me da figura de parvo que o meu primo estava a fazer.
Toquei-lhe suavemente nas costas, duma forma muito maternal e chamei o seu nome docemente, quase num sussurro na orelha:
- Coutinho, o que estás a fazer aí?
Escutou-se um estalar de vidro no chão, consequência óbvia do meu primo se sobressaltar sobre a cadeira e o copo ter-lhe escorregado facilmente das mãos gordurosas.
Virou-se para mim com um ar temeroso, como se quisesse pedir desculpa, com imenso medo, e, nuns minutos patéticos, ouvi o vozeirão num tom nervoso e preocupado:
- Nada, querrida tia! Nada, eu…
Ao cair finalmente na realidade, como se estivesse caído estatelado dum precipício, olhou com um ar autoritário e confuso para mim.
- Ai...Jessica! – Exclamou, aliviado. – És tu, por esses olhos cor de safira, até podia jurar que era a tua mãe.
Soltei uma risada atrevida, sentando-me lentamente ao lado do primo numa cadeira e, lançando-lhe um olhar confiante, perguntei:
- A Mãe era assim tão bondosa e bonita?
- Se estás a referir que a clínica dela era uma fantochada qualquer para arrancar confissões de inocentes cidadãos alemães, judeus ou outro turista a fim de entregar as suas fichas e trabalho recolhido aos porcos da Gestapo, então sim, era um trabalho bem pago e que lhe dava a oportunidade de exercitar os seus conhecimentos acerca de psicologia aprendida em Oxford. – Respondeu de imediato, com vários sinais de arrependimento. – Ela gostava muito de Inglaterra, era como uma segunda pátria para ela, a guerra mudou a sua perspectiva radicalmente em relação a tudo. A guerra e o teu odiado Padrasto. Aquele…Aquele Schwein lavou-lhe completamente o cérebro!
Dizendo isto, engoliu furiosamente o licor, à medida que as suas mãos, escoadas em sangue por causa de ter estilhaçado abruptamente o outro copo, se retorciam, num sinal claro de ódio e raiva.
- A Katharina costumava dizer a brincar que ela era mais inglesa que alemã, antes de ter conhecido o teu Padrasto, com as ideias nazis dele! – Recordou tristemente. – Mas também dizia que amava tanto a Alemanha como de Inglaterra, de França ou da Atlântida. Tinha uma voz firme, mas linda e ondulada, com um sotaque londrino. Tinha vivido tanto tempo na Inglaterra, mas vestia-se tão bem quanto uma francesa, tinha uma eficiência e austeridade quanto uma alemã, mas sentia uma paixão ardente pela vida quanto uma mediterrânica…
- Quando é que ela conheceu o meu pai biológico? – Interrompi, cada vez mais ansiosa por saber mais.
O primo soltou uma gargalhada amarga, enquanto limpava com asseio as mãos encharcadas de sangue de bruxo.
Estavam tão sujas que nem sequer as conseguiria distinguir da carpete vermelha, e, metaforicamente falando, ele se sentia muito imundo por falar acerca do passado da minha leviana mãe.
Mas o que é que ela tinha feito de mal?...
De repente, a sua voz tornou-se um pouco mais nervosa e, num misto de surpresa e raiva, apontou o seu olhar inquisidor para mim.
Já com as mãos limpas, mas retorcidas em punhos fechados, quase como se quisesse dar um murro a alguém, perguntou de pé:
- Para que é que tu queres saber tanto acerca duma mulher que nunca gostou realmente do teu pai?! – A sua voz tornou-se má e furiosa. – A Katharina, que nem sequer se preocupava se o teu pai era dez anos mais novo que ela, se conseguisse escapar do possessivo do teu padrasto, era o que interessava!
Com os olhos muito arregalados, ele indicou um espelho pintado no quadro horizontal, e, no qual via-se um homenzinho (não teria mais que vinte, vinte e dois anos) de cabelos ruivos a espreitar por detrás do chapéu de feltro que tinha umas pedras preciosas verdes familiares: os olhos dele eram muito parecidos com os do meu avô adoptivo.
A minha cabeça estava mais confusa do que uma omeleta mal passada, a minha mãe seria ou um anjo, ou um diabo!...
Contudo, era-me impossível imaginar um triângulo mais estranho do que este; uma senhora da alta sociedade bem inteligente e astuta, um nazi provavelmente da mesma idade que ela, e um rapazinho de vinte e dois anos ruivos um rosto triangular, cabelos ruivos encaracolados e olhos verdes fascinantes!
Se calhar Katharina preferia homens mais novos, como uma vampira gosta de humanos inexperientes…Ena! Que penso eu da minha própria mãe!
segunda-feira, 3 de março de 2008
O Dia da Magia Negra...!

31-09-2005
Só reparei que ainda estava a usar aquele anel esquisito e estava a dormir tão bem como nunca. Geralmente, eu costumo dormir muito mal, mas naquele dia, estava certamente bem-disposta e sem sequer pestanejar.
Ora! Que fariam duas horas a mais ou a menos? Bocejei satisfeita, e levantei-me qual rainha dum castelo d’oiro.
O Dia das Magias Negras é feriado nacional, por isso a escola está fechada.
Desliguei o despertador. Um novo dia começara...Estava na altura de descobrir que relação havia com o anel e os indicadores do relógio de pêndulo do átrio.
Às seis da manhã, soaram por toda a Atlântida uma salva de espingardas para acordar toda a gente e convidar todos os Bruxos e Bruxas, Demónios, Cyborgs e Fadas para verem a reconstrução da luxuriosa e espirituosa Cyborg Town de noite e chamar o verdadeiro Mestre da cidade nocturna – a percentagem da população antes da Guerra de Poriavostin era constituída principalmente por estas quatro classes – o Príncipe dos Bruxos, já que o Assassino do Amor está morto, para ser o anfitreão da maior festa a seguir ao igualmente loucos santos populares em Portugal.
É claro que uma vez por ano, nesta noite, não se fala de guerra, nem de diferença de classes, pois estas quatro classes são as mais festivas e alegres de toda a Dimensão Mágica. «...Deve ser espectacular!» Pensei eu ao levantar-me vivamente da cama de uma só vez. « Mal posso esperar por ver a Gueixa Lacrimosa, a mulher demónio que consegue esticar o seu pescoço até a um comprimento indefinido que foi atropelada por um comboio; o temível e terror de Cyborg Town, o Conde Dark Sword, chefe dos Cyborgs; e, principalmente, o Rei dos Bruxos, o governante do Vale da Morte; a maravilhosa Rainha das Fadas, Veridiana II; a Carcereira do Limbo dos Espelhos.........Meu Deus, vai ser mesmo espectacular!»
A gente hoje não está em casa, nem pensar, é, como aqui se diz nos vários provérbios como “ficar em casa é ganhar bolor” , era para “trazer o filho, a filha, a sogra e o cão”, bom ....O Dia das Magias Negras é simplesmente universal, porque “nem nazis, nem bruxos, nem fadas, nem bruxas, nem Cyborgs, nem judeus, nem portugueses, nem negros, nem demónios e nem fantasmas por este mundo perdem esta festança!”
Este dia não se estuda, não se luta, nem se trabuca, apenas se amaluca!
Bom, como podes ver, para mim aquela noite foi de arromba, a melhor festa que já alguma vez fui! E também houve um pouco de aventura, sim, as emoções foram a pique naquela noite. Ouvi falar muito também de que os bruxos gozam com os Cyborgs e as bruxas com as fadas. O mesmo acontece com as fadas e com os Cyborgs. Só se ouve pelas ruas de Cyborg Town o burlesco e música de discoteca nos interiores.
Às sete, toda o Château já estava acordado: ao sair do quarto vi o Nälden a compor e a trautear músicas típicas do Dia das Magias Negras alegremente acompanhado por uma rapariga muito pálida com roube branco e pele transparente de nariz aquilino a cantar desafinadamente muito contente e a pôr o seu cabelo mais desgrenhado e em cima da cara. Era uma dos fantasmas das amantes do tetrabisavô, por sinal, a mais nova de duzentos e noventa e nove anos.
Ele abanava a cabeça à medida que a ouvia atentamente, um pouco desapontado por ela estar habituada a um compasso mais rápido.
- Nein, nein, nein! Fräulein Aiuki, é em Dó maior e não é menor! – Exclamou ele indignado. – Quando chega ao “Ò meu Rei dos Bruxos, levai esta cartinha para o meu rico namoradinho que eu não sou capaz”, não me consegue acompanhar no piano.
A fantasmagórica mulher girou a cabeça várias vezes e chorou copiosamente.
- É porque eu não sei aonde é que vais com as escalas, bruxo duma figa! – Replicou ela.
Fiquei um pouco confusa com aquela cena, aquela alma penada irritante ainda não estava na fonte a dormir?!
Num dia vulgar, teria dado uma enorme descompostura não só a Nälden, como também à minha “tertrabisavó” Aiuki, afinal, sou ou não sou a bruxa mais velha?
Quer dizer, até o primo arranjar uma noiva, sou a mais velha, mas até lá, sou eu que manda aqui no Château, e num dia vulgar, nunca teria permitido que aqueles dois estivessem juntos. Mas este não era um dia vulgar, era um dia em que se ouvia o rufo dos tambores das procissões da SPV à uma da tarde para anunciar a passagem dos espelhos contra a luz do Sol para que os Bruxos presos no Limbo dos Espelhos ouvissem e conseguissem participar no enorme e meio louco carnaval que iria durar até às tantas.
E hoje era um dia em que se conseguia ouvir o Primo Coutinho a ensaiar as suas suites e solos de trombone – pelo que ouvi dizer do Nälden, o Duque Von Tifon estriou com o uniforme na marcha de triunfo das SS quando Hitler tomou conta de toda a Alemanha e ao chegarem debaixo da varanda onde o seu “Führer” saudou-os, em vez de gritar o “Sieg Heil” com os seus camaradas e levantar bem o braço direito, atirou o trombone bem alto e para lá na cabeça da negra procissão de tochas e estandartes com águias e suásticas, gritou “scheisse!” enquanto se queixava do pé porque o trombone lhe tinha acertado no pé, estendendo vigorosamente o braço. Felizmente que ninguém notou a diferença do seu grito famoso, a não ser o meu padrasto, que depois da marcha perguntou se ele estava bem. Que grande barraca. Contudo, ele sente-se ainda orgulhoso por ter dito aquele palavrão em frente do próprio Hitler. Sabes que o Nälden foi nos Anos 20 um aluno brilhante em música de cabaret e em teatro, por isso consegue fazer as músicas mais disparatadas e satíricas que alguma vez eu ouvi! Se fosse menos tímido, poderia substituir o Rei dos Bruxos!
Além disso, ele é ou não é bonito? Não iria perder os seus serviços por causa duma asiática velha qualquer! Sim, estava com ciúmes, e quando uma bruxa ou bruxo está com ciúme, não há nada que o pare!
Pôs os braços cruzados com um olhar cínico e frio que nem o próprio Mestre Samiel Di Euncätzio superaria, fixando com os meus olhos gelados o lindo casal.
- Estou a interromper alguma coisa? – Perguntei num tom sarcástico. – Ou tu não tens mais nada que fazer, Aiuki?
A rapariga desapareceu num fumo branco e voltou para o seu lugar, baixando a cabecinha muito triste. Estava infeliz porque o Nälden poderia quebrar a maldição e eu impedi-o. Enfim, é a vida, ou talvez a morte! Como sempre, tomei o pequeno-almoço sozinha – não sou lá muito para companhias. Estava uma delícia, e ao ouvir as cantigas disparatadas que se ouvia lá fora vinda dos oficiais da SPV a celebrar o Dia das Bruxas. Pareciam bastante bêbados.
Abanei a cabeça e continuei a comer os meus cereais com leite e cevada. Na mesa, havia uma laranja, mais um pãozinho. Optei pela laranja, e tentei pensar em outra coisa que não o meu Padrasto. Liguei, resignada, com um teclar do botão do comando, a televisão do sistema avançado de cinema. Só estava a dar porcarias nas notícias acerca de como o Capitão-Mor Goldtheeth estava super pomposo por entrar na gala do Dia da Magia Negra que se ia dar no Anel da Serpente. Batiam uma menos um quarto da tarde. Dentro de breves horas, conheceria o General B e os seus planos, uma vez que Sua Malvadez está mesmo decidido a dar o cargo a alguém mais competente do que um velho russo exausto qualquer.
Estou a referir-me, claro ao Kzenah Malagheti, o actual Rei dos Bruxos, que acha justo pormos à mercê daquele sinistro general-não-sei-das-quantas.
A justiça neste país é uma coisa muito bonita, não achas?
Bom, adiante: estava eu sentada a ler um policial, sentada num dos muitos confortáveis cadeirões do átrio, quando um estranho som perturbou a minha repousada leitura:
«click!»
Por instantes, pensei que tinha sido o palerma do meu primo Hans a pregar uma partida idiota e disparatada...Como estava enganada.
Que fiz eu? Simplesmente, ignorei aquele ruído vindo do nada, com esperanças que, se eu não ligasse, aquele burro pararia de me aborrecer com os seus jogos infantis.
Infelizmente, o maldito som ecou mais uma vez pela luxuosa sala após cinco minutos de silêncio e tranquilidade.
A minha leitura era sobre a bruxa feminina e a sua relação com o bruxo masculino, era o tema principal deste fantástico romance era acerca dum assassino que enlouquece pelas suas vítimas masculinas serem seus amantes.
Muito trágico. Detesto dramas, mas não há nada que me intrigue e abra o apetite do que um bom mistério por resolver.
Só reparei que ainda estava a usar aquele anel esquisito e estava a dormir tão bem como nunca. Geralmente, eu costumo dormir muito mal, mas naquele dia, estava certamente bem-disposta e sem sequer pestanejar.
Ora! Que fariam duas horas a mais ou a menos? Bocejei satisfeita, e levantei-me qual rainha dum castelo d’oiro.
O Dia das Magias Negras é feriado nacional, por isso a escola está fechada.
Desliguei o despertador. Um novo dia começara...Estava na altura de descobrir que relação havia com o anel e os indicadores do relógio de pêndulo do átrio.
Às seis da manhã, soaram por toda a Atlântida uma salva de espingardas para acordar toda a gente e convidar todos os Bruxos e Bruxas, Demónios, Cyborgs e Fadas para verem a reconstrução da luxuriosa e espirituosa Cyborg Town de noite e chamar o verdadeiro Mestre da cidade nocturna – a percentagem da população antes da Guerra de Poriavostin era constituída principalmente por estas quatro classes – o Príncipe dos Bruxos, já que o Assassino do Amor está morto, para ser o anfitreão da maior festa a seguir ao igualmente loucos santos populares em Portugal.
É claro que uma vez por ano, nesta noite, não se fala de guerra, nem de diferença de classes, pois estas quatro classes são as mais festivas e alegres de toda a Dimensão Mágica. «...Deve ser espectacular!» Pensei eu ao levantar-me vivamente da cama de uma só vez. « Mal posso esperar por ver a Gueixa Lacrimosa, a mulher demónio que consegue esticar o seu pescoço até a um comprimento indefinido que foi atropelada por um comboio; o temível e terror de Cyborg Town, o Conde Dark Sword, chefe dos Cyborgs; e, principalmente, o Rei dos Bruxos, o governante do Vale da Morte; a maravilhosa Rainha das Fadas, Veridiana II; a Carcereira do Limbo dos Espelhos.........Meu Deus, vai ser mesmo espectacular!»
A gente hoje não está em casa, nem pensar, é, como aqui se diz nos vários provérbios como “ficar em casa é ganhar bolor” , era para “trazer o filho, a filha, a sogra e o cão”, bom ....O Dia das Magias Negras é simplesmente universal, porque “nem nazis, nem bruxos, nem fadas, nem bruxas, nem Cyborgs, nem judeus, nem portugueses, nem negros, nem demónios e nem fantasmas por este mundo perdem esta festança!”
Este dia não se estuda, não se luta, nem se trabuca, apenas se amaluca!
Bom, como podes ver, para mim aquela noite foi de arromba, a melhor festa que já alguma vez fui! E também houve um pouco de aventura, sim, as emoções foram a pique naquela noite. Ouvi falar muito também de que os bruxos gozam com os Cyborgs e as bruxas com as fadas. O mesmo acontece com as fadas e com os Cyborgs. Só se ouve pelas ruas de Cyborg Town o burlesco e música de discoteca nos interiores.
Às sete, toda o Château já estava acordado: ao sair do quarto vi o Nälden a compor e a trautear músicas típicas do Dia das Magias Negras alegremente acompanhado por uma rapariga muito pálida com roube branco e pele transparente de nariz aquilino a cantar desafinadamente muito contente e a pôr o seu cabelo mais desgrenhado e em cima da cara. Era uma dos fantasmas das amantes do tetrabisavô, por sinal, a mais nova de duzentos e noventa e nove anos.
Ele abanava a cabeça à medida que a ouvia atentamente, um pouco desapontado por ela estar habituada a um compasso mais rápido.
- Nein, nein, nein! Fräulein Aiuki, é em Dó maior e não é menor! – Exclamou ele indignado. – Quando chega ao “Ò meu Rei dos Bruxos, levai esta cartinha para o meu rico namoradinho que eu não sou capaz”, não me consegue acompanhar no piano.
A fantasmagórica mulher girou a cabeça várias vezes e chorou copiosamente.
- É porque eu não sei aonde é que vais com as escalas, bruxo duma figa! – Replicou ela.
Fiquei um pouco confusa com aquela cena, aquela alma penada irritante ainda não estava na fonte a dormir?!
Num dia vulgar, teria dado uma enorme descompostura não só a Nälden, como também à minha “tertrabisavó” Aiuki, afinal, sou ou não sou a bruxa mais velha?
Quer dizer, até o primo arranjar uma noiva, sou a mais velha, mas até lá, sou eu que manda aqui no Château, e num dia vulgar, nunca teria permitido que aqueles dois estivessem juntos. Mas este não era um dia vulgar, era um dia em que se ouvia o rufo dos tambores das procissões da SPV à uma da tarde para anunciar a passagem dos espelhos contra a luz do Sol para que os Bruxos presos no Limbo dos Espelhos ouvissem e conseguissem participar no enorme e meio louco carnaval que iria durar até às tantas.
E hoje era um dia em que se conseguia ouvir o Primo Coutinho a ensaiar as suas suites e solos de trombone – pelo que ouvi dizer do Nälden, o Duque Von Tifon estriou com o uniforme na marcha de triunfo das SS quando Hitler tomou conta de toda a Alemanha e ao chegarem debaixo da varanda onde o seu “Führer” saudou-os, em vez de gritar o “Sieg Heil” com os seus camaradas e levantar bem o braço direito, atirou o trombone bem alto e para lá na cabeça da negra procissão de tochas e estandartes com águias e suásticas, gritou “scheisse!” enquanto se queixava do pé porque o trombone lhe tinha acertado no pé, estendendo vigorosamente o braço. Felizmente que ninguém notou a diferença do seu grito famoso, a não ser o meu padrasto, que depois da marcha perguntou se ele estava bem. Que grande barraca. Contudo, ele sente-se ainda orgulhoso por ter dito aquele palavrão em frente do próprio Hitler. Sabes que o Nälden foi nos Anos 20 um aluno brilhante em música de cabaret e em teatro, por isso consegue fazer as músicas mais disparatadas e satíricas que alguma vez eu ouvi! Se fosse menos tímido, poderia substituir o Rei dos Bruxos!
Além disso, ele é ou não é bonito? Não iria perder os seus serviços por causa duma asiática velha qualquer! Sim, estava com ciúmes, e quando uma bruxa ou bruxo está com ciúme, não há nada que o pare!
Pôs os braços cruzados com um olhar cínico e frio que nem o próprio Mestre Samiel Di Euncätzio superaria, fixando com os meus olhos gelados o lindo casal.
- Estou a interromper alguma coisa? – Perguntei num tom sarcástico. – Ou tu não tens mais nada que fazer, Aiuki?
A rapariga desapareceu num fumo branco e voltou para o seu lugar, baixando a cabecinha muito triste. Estava infeliz porque o Nälden poderia quebrar a maldição e eu impedi-o. Enfim, é a vida, ou talvez a morte! Como sempre, tomei o pequeno-almoço sozinha – não sou lá muito para companhias. Estava uma delícia, e ao ouvir as cantigas disparatadas que se ouvia lá fora vinda dos oficiais da SPV a celebrar o Dia das Bruxas. Pareciam bastante bêbados.
Abanei a cabeça e continuei a comer os meus cereais com leite e cevada. Na mesa, havia uma laranja, mais um pãozinho. Optei pela laranja, e tentei pensar em outra coisa que não o meu Padrasto. Liguei, resignada, com um teclar do botão do comando, a televisão do sistema avançado de cinema. Só estava a dar porcarias nas notícias acerca de como o Capitão-Mor Goldtheeth estava super pomposo por entrar na gala do Dia da Magia Negra que se ia dar no Anel da Serpente. Batiam uma menos um quarto da tarde. Dentro de breves horas, conheceria o General B e os seus planos, uma vez que Sua Malvadez está mesmo decidido a dar o cargo a alguém mais competente do que um velho russo exausto qualquer.
Estou a referir-me, claro ao Kzenah Malagheti, o actual Rei dos Bruxos, que acha justo pormos à mercê daquele sinistro general-não-sei-das-quantas.
A justiça neste país é uma coisa muito bonita, não achas?
Bom, adiante: estava eu sentada a ler um policial, sentada num dos muitos confortáveis cadeirões do átrio, quando um estranho som perturbou a minha repousada leitura:
«click!»
Por instantes, pensei que tinha sido o palerma do meu primo Hans a pregar uma partida idiota e disparatada...Como estava enganada.
Que fiz eu? Simplesmente, ignorei aquele ruído vindo do nada, com esperanças que, se eu não ligasse, aquele burro pararia de me aborrecer com os seus jogos infantis.
Infelizmente, o maldito som ecou mais uma vez pela luxuosa sala após cinco minutos de silêncio e tranquilidade.
A minha leitura era sobre a bruxa feminina e a sua relação com o bruxo masculino, era o tema principal deste fantástico romance era acerca dum assassino que enlouquece pelas suas vítimas masculinas serem seus amantes.
Muito trágico. Detesto dramas, mas não há nada que me intrigue e abra o apetite do que um bom mistério por resolver.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
Os "Guarda Costas" (Parte Final)
Lá em baixo, é tudo construído em pedra fria, incluindo os pilares que seguram as galerias de oito metros de altura.
Toda a gente pensa que, se seguirmos sem sabermos o caminho, iremos ter às ditas passagens secretas. É claro que, como eu ia escoltada pelo Fritz e o Skánvasse, dois polícias da SPV contratados pelo primo para serem os seus guarda-costas.
Aqueles dois não são polícias, são mas é dois criminosos gigantes acéfalos de uniforme, foram eles quem tinham me acordado e dado um banho de água fria com um balde que tinham achado pelo caminho do meu quarto na enorme sala de arrecadação. O primo mantém estes assassinos ao seu serviço, uma vez que são tão burros, que nem duas portas diante da outra. As ruas deste labirinto são como o interior dum enigma incapaz de se resolver: curvas, contracurvas, galerias, estalactites e estalagmites por debaixo e por cima de tectos e pisos quase macabros, com restos mortais de prisioneiros dos nossos tirânicos antepassados! Foi aí que me apercebi dos rumores de que o Château Von Tifon tinha sido construído sob uma incrível quantidade de cavernas e labirínticas grutas subterrâneas era verdade. Apenas o primo conhece 50% de todas as passagens secretas escondidas no interior do Château que dão acesso a estes escuros túneis com cem metros de profundidade, e é quase impossível vê-las a todas na sua totalidade numa só semana.
E eu que pensava que os bruxos eram espertos, mas afinal, há excepções. Podia muito bem escapar, mas o que se seguiria depois da minha captura não recompensava aquela atitude ousada.
Debaixo do disfarce de simples ex. Combatente alemão e grande diplomata no Palácio das Reuniões entre Cyborgs e Bruxos, o Primo Coutinho – como tão carinhosamente a família o trata – faz uns negócios sujos aqui e ali com os Demónios. É claro que o primo jamais seria um corrupto. Mas ele precisa desse tipo de “diplomacia” para assegurar que a Serpente de Fogo e os da SPV não suspeitem de nada acerca do verdadeiro propósito misterioso que os Von Tifon construíram esta mansão.
O palácio luxuoso e as masmorras são a verdadeira prova da dupla personalidade dele, umas vezes simpático, outras extremamente severo!
O caminho era iluminado várias vezes por tochas, mas nem isso evitava as minhas mãos de congelarem. O andar das conversas é um autêntico frigorífico. Ao descer as podres escadas em caracol cheias de bolor, tentava contemplar a enorme maravilha arquitectónica que eram as galerias debaixo do Château.
Ao chegarmos à porta, as duas bestas empurraram-me lá para o escuro escritório do primo.
Dum aspecto quase tétrico e demasiado clássico para o meu gosto, o escritório do primo era uma sala pequena e sem janelas.
Dois candeeiros pousados na mesa de carvalho iluminavam com facilidade duas aves empalhadas, uma águia que segurava nas garras uma caneta, enquanto uma coruja fazia de bibelot para uns quantos livros.
Sob a cabeça redonda do primo, estava um retracto sinistro do primeiro Von Tifon, enquanto que vigiava uma estante de alabastro. À direita, numa pequena mesa de café esculpida com três patas de leão, havia um telefone fixo moderno.
E, sentado num enorme cadeirão vertical, estava o próprio primo com o seu bigode bávaro e olhar altivo de cristal.
Não que o primo tenha um aspecto intimidante, não senhor! Antes de o conhecermos, até parece ser uma boa pessoa.
Mas, pelos vistos, hoje não estava de bom humor.
Ao seu lado, com as mãos envernizadas e unhas compridas a massajar carinhosamente as costas, estava a Serpente de Fogo em pessoa, debruçada sobre o corpo másculo do duque, com uns brincos de pérola a cair sobre as orelhas redondas e entre o cabelo longo preto, esboçava um sorriso escarninho e quase para o trocista.
Vestia um top de seda lilás, e, nas pernas sedosas e escorregadias, pousadas no colo dos calções azuis do primo de dormir, vestia umas corsárias curtas, prova que iria também dormir aqui em casa.
Enquanto o primo, apenas duma camisola branca interior e daqueles calções desportivos, com uns chinelos pretos calçados e o roupão escarlate desleixado de linho e empoeirado, ostentava nas faces um ar descontente.
- Senta-te, Jessica! – Ordenou num tom autoritário. – Querria falarr um pouco contigo.
De forma alguma recusei, e sentei-me no pequeno banco de plástico, mesmo em frente do primo, que nem parecia o mesmo. Ò Diabo...Quando ele fica assim, significa que vai haver sermão dos grandes.
O número infinito de palavras rudes incluíam vocabulário alemão e outras coisas feias como “cyborg inferior” e “uma jovenzinha não tem o dirreito de ir nesse aparrato com um...um...imundo qualquer, nascido sabe Deus onde!” ou ainda “impuro”.
Parecia um daqueles discursos idiotas de que os Bruxos são superiores aos Cyborgs na pirâmide de classes.
O problema é que a maior parte dos Bruxos levam isso tão à letra como se fosse a doutrina nazi contra os Judeus.
É por isso que não gosto nada do primo com as suas manias das “raízes germânicas”, “tradições saxónicas”, “superioridade da magia negra”, “elite bruxal” e outras tretas preconceituosas.
Ainda tentei balbuciar algo como “foi só desta vez” e “ele não tem culpa nenhuma do primo andar assim tão maldisposto”, mas foi logo interrompido por mais uma série de palavras incompreensíveis e demasiado caras como “inadmissível” ou “estamos numa casa séria, minha menina!” ou até mesmo “aquele boémio está a desencaminhar-te”.
As palavras iam-se desenrolando, uma a outra, até chegar à síntese das sínteses, algo como “eu só quero o teu bem, priminha” e ainda mais “nada de poucas verrgonhas, estamos entendidos?”.
O meu primo também tem a mania das grandezas e parecia que estava a utlizar demasiado vocabulário para uma só saída.
Enfim, terminou a longa serenata com apenas duas frases.
- Já terminei! Tens alguma coisa a dizer em tua defesa, minha menina?
- Sim, querido primo! – Respondi suavemente e com a voz distante. – Sinto muito...Tschüss.
Dito isto, virei a ele e à Serpente de Fogo – que, a partir de agora, vive connosco – costas e comecei a cantarolar, pela escadas do Château acima, a rir-me de coisa nenhuma como se fosse uma criancinha de cinco anos.
Quando as minhas pernas graciosas nem se viam, a Serpente abanou a cabeça, com um ar muito vazio e chocado.
- Bebé, a Jessicazinha está doente...
Ele acenou afirmativamente com a cabeça, igualmente preocupado.
- Mas que bicho lhe mordeu? – Exclamou curioso.
A Tsuna, mais romântica do que eu, interpelou-se(??) entre aqueles dois e sorriu com um ar sábio e, pondo a cabeça nos ombros, os seus olhos brilharam de ternura e compreensão.
- Não é óbvio, Priminho? A Jessica está apaixonada por alguém...!
Toda a gente pensa que, se seguirmos sem sabermos o caminho, iremos ter às ditas passagens secretas. É claro que, como eu ia escoltada pelo Fritz e o Skánvasse, dois polícias da SPV contratados pelo primo para serem os seus guarda-costas.
Aqueles dois não são polícias, são mas é dois criminosos gigantes acéfalos de uniforme, foram eles quem tinham me acordado e dado um banho de água fria com um balde que tinham achado pelo caminho do meu quarto na enorme sala de arrecadação. O primo mantém estes assassinos ao seu serviço, uma vez que são tão burros, que nem duas portas diante da outra. As ruas deste labirinto são como o interior dum enigma incapaz de se resolver: curvas, contracurvas, galerias, estalactites e estalagmites por debaixo e por cima de tectos e pisos quase macabros, com restos mortais de prisioneiros dos nossos tirânicos antepassados! Foi aí que me apercebi dos rumores de que o Château Von Tifon tinha sido construído sob uma incrível quantidade de cavernas e labirínticas grutas subterrâneas era verdade. Apenas o primo conhece 50% de todas as passagens secretas escondidas no interior do Château que dão acesso a estes escuros túneis com cem metros de profundidade, e é quase impossível vê-las a todas na sua totalidade numa só semana.
E eu que pensava que os bruxos eram espertos, mas afinal, há excepções. Podia muito bem escapar, mas o que se seguiria depois da minha captura não recompensava aquela atitude ousada.
Debaixo do disfarce de simples ex. Combatente alemão e grande diplomata no Palácio das Reuniões entre Cyborgs e Bruxos, o Primo Coutinho – como tão carinhosamente a família o trata – faz uns negócios sujos aqui e ali com os Demónios. É claro que o primo jamais seria um corrupto. Mas ele precisa desse tipo de “diplomacia” para assegurar que a Serpente de Fogo e os da SPV não suspeitem de nada acerca do verdadeiro propósito misterioso que os Von Tifon construíram esta mansão.
O palácio luxuoso e as masmorras são a verdadeira prova da dupla personalidade dele, umas vezes simpático, outras extremamente severo!
O caminho era iluminado várias vezes por tochas, mas nem isso evitava as minhas mãos de congelarem. O andar das conversas é um autêntico frigorífico. Ao descer as podres escadas em caracol cheias de bolor, tentava contemplar a enorme maravilha arquitectónica que eram as galerias debaixo do Château.
Ao chegarmos à porta, as duas bestas empurraram-me lá para o escuro escritório do primo.
Dum aspecto quase tétrico e demasiado clássico para o meu gosto, o escritório do primo era uma sala pequena e sem janelas.
Dois candeeiros pousados na mesa de carvalho iluminavam com facilidade duas aves empalhadas, uma águia que segurava nas garras uma caneta, enquanto uma coruja fazia de bibelot para uns quantos livros.
Sob a cabeça redonda do primo, estava um retracto sinistro do primeiro Von Tifon, enquanto que vigiava uma estante de alabastro. À direita, numa pequena mesa de café esculpida com três patas de leão, havia um telefone fixo moderno.
E, sentado num enorme cadeirão vertical, estava o próprio primo com o seu bigode bávaro e olhar altivo de cristal.
Não que o primo tenha um aspecto intimidante, não senhor! Antes de o conhecermos, até parece ser uma boa pessoa.
Mas, pelos vistos, hoje não estava de bom humor.
Ao seu lado, com as mãos envernizadas e unhas compridas a massajar carinhosamente as costas, estava a Serpente de Fogo em pessoa, debruçada sobre o corpo másculo do duque, com uns brincos de pérola a cair sobre as orelhas redondas e entre o cabelo longo preto, esboçava um sorriso escarninho e quase para o trocista.
Vestia um top de seda lilás, e, nas pernas sedosas e escorregadias, pousadas no colo dos calções azuis do primo de dormir, vestia umas corsárias curtas, prova que iria também dormir aqui em casa.
Enquanto o primo, apenas duma camisola branca interior e daqueles calções desportivos, com uns chinelos pretos calçados e o roupão escarlate desleixado de linho e empoeirado, ostentava nas faces um ar descontente.
- Senta-te, Jessica! – Ordenou num tom autoritário. – Querria falarr um pouco contigo.
De forma alguma recusei, e sentei-me no pequeno banco de plástico, mesmo em frente do primo, que nem parecia o mesmo. Ò Diabo...Quando ele fica assim, significa que vai haver sermão dos grandes.
O número infinito de palavras rudes incluíam vocabulário alemão e outras coisas feias como “cyborg inferior” e “uma jovenzinha não tem o dirreito de ir nesse aparrato com um...um...imundo qualquer, nascido sabe Deus onde!” ou ainda “impuro”.
Parecia um daqueles discursos idiotas de que os Bruxos são superiores aos Cyborgs na pirâmide de classes.
O problema é que a maior parte dos Bruxos levam isso tão à letra como se fosse a doutrina nazi contra os Judeus.
É por isso que não gosto nada do primo com as suas manias das “raízes germânicas”, “tradições saxónicas”, “superioridade da magia negra”, “elite bruxal” e outras tretas preconceituosas.
Ainda tentei balbuciar algo como “foi só desta vez” e “ele não tem culpa nenhuma do primo andar assim tão maldisposto”, mas foi logo interrompido por mais uma série de palavras incompreensíveis e demasiado caras como “inadmissível” ou “estamos numa casa séria, minha menina!” ou até mesmo “aquele boémio está a desencaminhar-te”.
As palavras iam-se desenrolando, uma a outra, até chegar à síntese das sínteses, algo como “eu só quero o teu bem, priminha” e ainda mais “nada de poucas verrgonhas, estamos entendidos?”.
O meu primo também tem a mania das grandezas e parecia que estava a utlizar demasiado vocabulário para uma só saída.
Enfim, terminou a longa serenata com apenas duas frases.
- Já terminei! Tens alguma coisa a dizer em tua defesa, minha menina?
- Sim, querido primo! – Respondi suavemente e com a voz distante. – Sinto muito...Tschüss.
Dito isto, virei a ele e à Serpente de Fogo – que, a partir de agora, vive connosco – costas e comecei a cantarolar, pela escadas do Château acima, a rir-me de coisa nenhuma como se fosse uma criancinha de cinco anos.
Quando as minhas pernas graciosas nem se viam, a Serpente abanou a cabeça, com um ar muito vazio e chocado.
- Bebé, a Jessicazinha está doente...
Ele acenou afirmativamente com a cabeça, igualmente preocupado.
- Mas que bicho lhe mordeu? – Exclamou curioso.
A Tsuna, mais romântica do que eu, interpelou-se(??) entre aqueles dois e sorriu com um ar sábio e, pondo a cabeça nos ombros, os seus olhos brilharam de ternura e compreensão.
- Não é óbvio, Priminho? A Jessica está apaixonada por alguém...!
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
Os dois "guarda-costas"...
Quanto ao anel.... Estava eu a ver o relógiozito na minha confortável caminha. Afundei-me mais na cama, sorrindo satisfeita sobre a minha almofada lilás. Ainda eram quatro e quarenta, faltavam mais duas horas para eu acordar.
De repente, aquele anel precioso cujo tinha sido dado pelo Pedrocas no dia anterior brilhou intensamente primeiro dum tom alaranjado, decorando o meu quarto dum bizarro cor-de-rosa melado. De seguida, ouvi gritos de duas vozes estridentes em Alemão:
- SCHNELL! Sai imediatamente da cama antes que te parrtamos essa carrantona, Jessica!
- Hã? – Resmunguei, completamente ainda a dormir. – Quem é?
Mal tive tempo de vestir um roupão transparente – eu prefiro dormir nua, só com umas cuequinhas e um soutien nocturno discreto – quando quatro mãos fortes e cheias de cicatrizes pegaram em mim como se eu fosse um saco de batatas e arrastaram-me à bruta para fora da cama.
Depois, em cinco minutos, enquanto que duas mãos gordurosas seguravam firmemente com uns braços nada saudáveis e pálidos, quase em tom amarelo; levei um “duche” de água gelada que percorreu as minhas formas esguias e elegantes de rapariga adolescente enquanto o que me segurava se ria cruelmente.
Nesta altura, o anel no meu anelar esquerdo estava a vibrar dolorosamente em tonalidades de fogo escaldante. Um vapor terrível atingiu repentinamente em resposta à água nos olhos dos meus opositores, que quase ficavam cegos pela magia branca e cintilante, duma luz equivalente à do sol, a magia protectora do anel. Aquilo resultava. Graças a Deus que os tais adversários alemães identificaram-se mesmo a tempo de não ficarem com uma cegueira e serem ofuscados pela luz do anel.
Largaram-me no chão e puseram defensivamente as suas mãos a cobrir os seus rostos magros e rosados, vermelhos, quase como se tivessem apanhado um escaldão.
- Jessica, desliga lá a porra dessa porcaria e vem connosco até ao andar das conversas, sim? – Disse o mais escanzelado e num tom de desespero.
O anafado, que estava com o outro, entregou-me gentilmente um roupão e uns chinelos, sem olharem para a beleza incandescente do meu corpo de deusa.
- Veste-te, tens um encontrro. – Disse ele friamente.
Primeiro, chamaram-me ao gabinete dele no “andar das conversas”. Um eufemismo estúpido que o Sr. Duque Willhem Couto Von Tifon utiliza para designar as masmorras do Château. Primeiro, descemos uma série de escadas de mármore, rodeados por corrimões de ferro da enorme escadaria que dá acesso a todos os andares do Château. A seguir, passámos pelas cozinhas no rés-do-chão. A esta hora, ninguém estava a pés nos refinados pisos de azulejos brancos, e não se via vivalma por aquelas zonas da casa.
A cozinha, situada por detrás da escadaria, é uma sala rectangular com novecentos metros de comprimento, seis de altura e vinte de largura, com apenas uma entrada, e vários utensílios de gastronomia em várias prateleiras à direita (panelas; tachos; especiarias, etc.) e mais outras prateleiras com talheres; pratos; travessas…Enfim, o mais variado e rico serviço de porcelana Von Tifon estava ali. No meio em frente e detrás, havia vários fogões, frigoríficos, máquinas de lavar a loiça, bancas...Nesta sala não haviam janelas, pelo que era um pouco abafado. O escanzelado de uniforme preto da SPV (tal como o seu anafado companheiro) pôs de propósito no máximo com as suas mãos de ladrão profissional de jóias a roda principal que dava calor e gás ao segundo fogão a contar da esquerda. Depois, dependendo dos súbitos cliques e barulhos que se ouviam de tempos em tempos por debaixo dos nossos pés, girava com cautela as rodelas do gás, sem se notar uma única labareda azul natural. Lentamente, os outros fogões que rodeavam o segundo eram engolidos pela terra com mecanismos quase enfeitiçados, activados através de antigas palavras e encantamentos alemães que o gordo pronunciava em voz baixa e quase murmurada. Dentro de trinta minutos, onde estava o fogão do meio, apareceu duas tochas onde ardiam luzidiamente dois fogos-fátuos, e, quanto aos restantes fogões desaparecidos, havia dois caminhos que terminavam em escadas em caracol. O magro agarrou-me, com a tocha na mão direita e a esquerda a segurar o meu braço. Enquanto que o cabeçudo gordo tomou o caminho da direita, enquanto o magricela e eu o da esquerda.
De repente, aquele anel precioso cujo tinha sido dado pelo Pedrocas no dia anterior brilhou intensamente primeiro dum tom alaranjado, decorando o meu quarto dum bizarro cor-de-rosa melado. De seguida, ouvi gritos de duas vozes estridentes em Alemão:
- SCHNELL! Sai imediatamente da cama antes que te parrtamos essa carrantona, Jessica!
- Hã? – Resmunguei, completamente ainda a dormir. – Quem é?
Mal tive tempo de vestir um roupão transparente – eu prefiro dormir nua, só com umas cuequinhas e um soutien nocturno discreto – quando quatro mãos fortes e cheias de cicatrizes pegaram em mim como se eu fosse um saco de batatas e arrastaram-me à bruta para fora da cama.
Depois, em cinco minutos, enquanto que duas mãos gordurosas seguravam firmemente com uns braços nada saudáveis e pálidos, quase em tom amarelo; levei um “duche” de água gelada que percorreu as minhas formas esguias e elegantes de rapariga adolescente enquanto o que me segurava se ria cruelmente.
Nesta altura, o anel no meu anelar esquerdo estava a vibrar dolorosamente em tonalidades de fogo escaldante. Um vapor terrível atingiu repentinamente em resposta à água nos olhos dos meus opositores, que quase ficavam cegos pela magia branca e cintilante, duma luz equivalente à do sol, a magia protectora do anel. Aquilo resultava. Graças a Deus que os tais adversários alemães identificaram-se mesmo a tempo de não ficarem com uma cegueira e serem ofuscados pela luz do anel.
Largaram-me no chão e puseram defensivamente as suas mãos a cobrir os seus rostos magros e rosados, vermelhos, quase como se tivessem apanhado um escaldão.
- Jessica, desliga lá a porra dessa porcaria e vem connosco até ao andar das conversas, sim? – Disse o mais escanzelado e num tom de desespero.
O anafado, que estava com o outro, entregou-me gentilmente um roupão e uns chinelos, sem olharem para a beleza incandescente do meu corpo de deusa.
- Veste-te, tens um encontrro. – Disse ele friamente.
Primeiro, chamaram-me ao gabinete dele no “andar das conversas”. Um eufemismo estúpido que o Sr. Duque Willhem Couto Von Tifon utiliza para designar as masmorras do Château. Primeiro, descemos uma série de escadas de mármore, rodeados por corrimões de ferro da enorme escadaria que dá acesso a todos os andares do Château. A seguir, passámos pelas cozinhas no rés-do-chão. A esta hora, ninguém estava a pés nos refinados pisos de azulejos brancos, e não se via vivalma por aquelas zonas da casa.
A cozinha, situada por detrás da escadaria, é uma sala rectangular com novecentos metros de comprimento, seis de altura e vinte de largura, com apenas uma entrada, e vários utensílios de gastronomia em várias prateleiras à direita (panelas; tachos; especiarias, etc.) e mais outras prateleiras com talheres; pratos; travessas…Enfim, o mais variado e rico serviço de porcelana Von Tifon estava ali. No meio em frente e detrás, havia vários fogões, frigoríficos, máquinas de lavar a loiça, bancas...Nesta sala não haviam janelas, pelo que era um pouco abafado. O escanzelado de uniforme preto da SPV (tal como o seu anafado companheiro) pôs de propósito no máximo com as suas mãos de ladrão profissional de jóias a roda principal que dava calor e gás ao segundo fogão a contar da esquerda. Depois, dependendo dos súbitos cliques e barulhos que se ouviam de tempos em tempos por debaixo dos nossos pés, girava com cautela as rodelas do gás, sem se notar uma única labareda azul natural. Lentamente, os outros fogões que rodeavam o segundo eram engolidos pela terra com mecanismos quase enfeitiçados, activados através de antigas palavras e encantamentos alemães que o gordo pronunciava em voz baixa e quase murmurada. Dentro de trinta minutos, onde estava o fogão do meio, apareceu duas tochas onde ardiam luzidiamente dois fogos-fátuos, e, quanto aos restantes fogões desaparecidos, havia dois caminhos que terminavam em escadas em caracol. O magro agarrou-me, com a tocha na mão direita e a esquerda a segurar o meu braço. Enquanto que o cabeçudo gordo tomou o caminho da direita, enquanto o magricela e eu o da esquerda.
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