quarta-feira, 6 de maio de 2009

O homem da Espada Negra (Parte II)


Mal viu que o seu novo escravo da mente já ia longe de vista, o anti herói preferido de toda a Atlântida esfregou as mãos de contente, com os seus olhos esmeralda a brilhar de satisfação, os seus lábios rasgados pintados de vermelho expressavam bem como agora estava calmo e como tinha prevenido que pelo menos alguém de quem ele tinha uma certa afeição se magoasse.
«Mais um triunfo para os Cyborgs! Uma morte para evitar muitas outras, isso é que é o verdadeiro objectivo da guerra.» Pensou enquanto punha as luvas no queixo bem comportado. Porém, o seu sorriso matreiro logo desapareceu e bateu com a mão na testa, um pouco preocupado. «Ora que esta! Quase que me esquecia completamente. Há horas que eu devia ter ido deitar o meu sobrinho!
Ele tinha desferido um golpe fantástico sobre a SPV, mas agora faltava apenas uma coisinha que ele tinha em mente.
Algo de especial que ele planeava dar a uma pessoa especial há muito tempo....E notava-se nos seus olhos frios que estava a tramar alguma coisa, mas o quê?
Aqueles olhos vazios eram como uma barreira que não deixava passar nada nem um único sentimento. Seria o ódio o seu único sentimento...?
Sim, havia ódio no seu velho coração, ódio por tantas coisas, principalmente pelo seu eterno rival, o meu Padrasto. «Aquele diabo espera para quê? Ainda gostava de saber porque razão só aquela víbora se atreve a aparecer! Mas é típico daquele vilão. Agora....»
Juntou rapidamente os lábios com os dedos, assobiou fortemente, e num ápice, chegou qual cavalo veloz e no espesso nevoeiro, surgiu uma enorme limusina Rolls Royce preta mesmo à sua frente, pronta para seguir viagem para qualquer lugar.
A porta direita de trás abriu-se subitamente e, com uma habilidade para ser discreto, o conde entrou na viatura com muita rapidez e ordenou de rompante:
- Bobino! Leva-me imediatamente para o meu esconderijo.
- Com certeza, Sr. DS. – Acenou o motorista.
Lá desapareceu na bruma da noite aquele “herói”, sem que as minhas loucas visões conseguissem descobrir quem realmente o tal James Dark Sword era. Afinal, todos os heróis têm de ter um alter-ego........
Ao sentar-se, o homem de olhos, meio verdes, meio azuis, reparou numa exótica e bela mulher com uns óculos-de-sol vermelho vivos, vestida apenas com uma mini-saia de cabedal preta e umas invulgares meias de seda roxas que realçavam a cor morena da sua pele lisa e sedosa. Com uns sapatos de salto-alto vermelhos, ficava ainda mais alta do que realmente era e por cima daquela blusa rosa-choque curtíssima, que dava até ao umbigo, e desabotoada até se ver uma grande parte do peito voluptuoso. Sob o cabelo preto e longo e solto como uma cascata de petróleo, escondiam-se dois olhos cor-de-carvão provocadores com sombra escarlate e uns lábios que lhe davam um ar tanto mimado e desesperado.
Sob os ombros relativamente largos e pálidos, pendia num dos lados uma carteirinha de pele de crocodilo amarelo escuro com a qual as unhas vermelhas longas como garras de uma hárpia brincavam impacientemente.
O homem moreno e de forte constituição, igualmente de aspecto latino, explicou-se um bocadinho atrapalhado:
- Ainda tentei avisá-la que o senhor não estava disponível, mas a senhora continuou a insistir que vinha.
Dark Sword anuiu meditativamente com a cabeça, enquanto observava com desdenho a linda prenda que o ajudante lhe fora arranjar.
- Claro... – Disse ele com desprezo. – Se eu precisava de uma cobra cuspideira, pedia-te que fosses ao ZOO da Estação Manuelina.
A Serpente de Fogo pôs deliberadamente a sua mão delicada de unhas de bruxa nas calças de jeans pretas do cyborg com um sorriso sedutor.
- Oh, James...! – Suspirou ela sensualmente. – Não sejas tão modesto! Tu até que és bem giro, sabias?
- Poupe-me, Vossa Senhoria. – Dark Sword tremeu ligeiramente. – O que é que a senhora e o palerma do seu noivo andam a tramar?
Ela, fingiu-se indignada, com a mão magra na boca deliciosa de mulher de espanto.
- James! – Soluçou ela. – Não me digas que depois de tanto tempo ainda continuas o mesmo desconfiado e bonzinho de sempre...Aqueles homenzinhos estavam apenas a levar os meus brincos de diamantes.
O conde continuava a segurar discretamente na sua pistola, com receio que a bruxa tentasse alguma coisa, e olhava de relance para a femme fatale de vez em quando, um pouco incomodado.
Sim, o arqui-inimigo do James Dark Sword é uma mulher, e, pelos vistos, uma mulher muito perigosa e rica.
Nada se parece com uma prostituta do que uma bruxa rica. Ela fixou-o nos olhos e mirou depois o resto do corpo bem feito do Sr. Conde. Era um daqueles olhares que só podiam vir de mulheres demónio ou de estrelas de cinema fenomenalmente ricas e bonitas e que se destinava a fazer o pobre chefe da Resistência a trepar para cima dela como uma trepadeira numa latada.
Ainda por cima, ela trata o Dark Sword nas raras vezes que se encontram pelo primeiro nome e por “tu”.
Ele tem mais medo dela do que do qualquer outro homem.
- Diamantes esses que a senhora comprou do dinheiro roubado ao povo atlante! Eu vi o conteúdo da mala, e não era nenhuma bijutaria da loja dos trezentos! – Ripostou ele repugnado. – Também sei que a senhora tem uns certos negócios para comprar metade da Floresta de Cristal.
- Ai, que espertinho, bebé! – Riu-se ela, descaradamente. – Ai...! Sim, realmente as jóias são o meu único verdadeiro amor, para além do meu pozinho de cheirar...Eh, eh, eh...
Ao realçar vaidosamente os lábios cor-de-vinho com o seu batom, com um sorriso malicioso a bailar-lhe no rosto, acrescentou num tom trocista:
- Agora, meu amorzinho, o problema aqui, é que eu tenho uma data de meninos prontos para te dar cabo de ti. E...Se houver mais um ataque selvático como aqueles aos meus meninos da SPV, podes crer que basta estalar-me os dedos para te ver a esticar o pernil! Oh, oh...Coitadinho do meu querido James....Era uma vez um Condezinho!
Ao dizer estas últimas palavras, ela viu a sua garganta ameaçada por uma afiada adaga de dois gumes, empunhada pelo astuto e rápido James Dark Sword.
- Quem é que está numa posição grave agora, minha senhora? – Perguntou ele sarcasticamente. – Não vai livrar-se tão facilmente de mim! Eu vou descobrir o que é a senhora anda a tentar fazer com o dinheiro dessas jóias, e não vou deixar-me ludibriar assim tão fácil como os outros foram!
De repente, os intentos sensuais da Serpente de Fogo tornaram-se em certeza quando ela, com as mãos ainda livres, pegou suavemente na cabeça do seu raptor, e, com a boca perto dele, sorriu.
- Ai não? – Exclamou. – Sabes duma coisa, James? Eu sempre quis beijar esses lábios de vencedor!
Dito isto, pregou arrogantemente um grande linguado na boca do seu adversário, e, mal tocou os lábios firmes de metal do cyborg, despertou-lhe um desejo, há muito oculto na mente de software e miolos: o desejo carnal.
Os motores e sensores interiores do andróide começaram a trabalhar, e, em segundos, estavam entrelaçados um ao outro como duas aves do paraíso!

domingo, 19 de abril de 2009

O homem da Espada Negra (parte I)


A Lua resplandecia vitoriosa pelo menos na Estação Manuelina, e os candeeiros brilhavam a bonita calçada de pedra por onde dois homens de idades compreendidas entre os vinte e os vinte e cinco anos faziam a sua ronda nocturna, com ares de superioridade, o mais velho andava com uma pistola branca empunhada na luva de cetim da mesma cor, enquanto que o mais novo tinha um chicote negro embainhado no cinto de prata que mostrava duas ondas douradas na fivela, demonstrando – segundo as minhas perspectivas – que era um sargento. As suas passadas largas eram como trovões atordoares aos ouvidos de qualquer um que os ouvisse, e, se por acaso algum demónio, fada ou cyborg decidisse por brincadeira barrar-lhes o caminho, receberia como calorosa saudação duas chicotadas nas costas.
Estavam à procura de uma nova vítima, e os seus olhares confiantes esperavam encontrar desesperadamente alguém para ser deportado para a Fronteira, ou talvez uma boa batalha contra algum cyborg obstinado. Sim, aqueles arrogantes julgavam-se o terror da noite, e estavam definitivamente convencidos que iriam receber uma medalha mesmo antes do fim do mês. Afinal, eles tinham a missão de encontrar um certo “impuro” em particular, e de o levar imediatamente à presença do próprio Rei dos Bruxos em pessoa, pelo menos fora isso que tinham ouvido da boca do seu grande manda-chuva, o indiscreto e vaidoso capitão-mor italiano Edward Goldtheeth, o “grande” líder da SPV.
Mal eles sabiam que iriam ter a batalha das suas vidas, não contra um cyborg, mas com o cyborg dos Cyborgs!
Um vulto sobrenatural escondia-se perante as sombras das ruas estreitas, deslizando suavemente entre as esquinas e ruas que aqueles incompetentes percorriam, e, de súbito, uma pedra rebolou em frente dos dois bruxos incautos.
O do chicote estremeceu um pouco, sacando cuidadosamente da sua arma.
- Terá sido um fantasma, tenente? – Disse ele assustado.
O suposto tenente virou-se para o sargento e olhou-o com diversão, sorrindo.
- Claro que não, os fantasmas não são assim tão estúpidos. – Respondeu a rir-se.
Mas não achou tanta piada quando uma voz eloquente com um leve sotaque inglês soltou uma gargalhada diabólica:
- Sabes, caro rapaz, creio que o teu camarada está certo.
Os agentes sacaram rapidamente das suas armas, e puseram-se em posição de ataque, como que esperando um terrível furacão, apontando furiosamente o seu ameaçador arsenal contra os candeeiros amarelos.
Mas não havia ninguém, teria sido apenas uma mera partida pregada pelos demónios....?
O sargento deitou o chicote ao chão, um pouco frustrado, depois de ter olhado durante dois minutos para um simples nada, enquanto que o tenente estava com a mão bem firme na pistola, quase para premir o gatilho nervosamente, qual animal selvagem com um instinto que lhe dizia que talvez poderiam estar em apuros.
- Só espero que não seja mais um dos teus truques de magia negra que querias mostrar a Sua Excelência! – Rugiu o tenente na sua voz grossa com sotaque árabe. – Caso contrário, terás de te haver comigo, Sargento Govas.
Govas olhou o outro bruxo com os seus olhos castanhos a brilharem num vazio estúpido e ingénuo.
- Juro que não tenho nada a ver com esta....Este feitiço dos infernos! – Respondeu num tom confuso.
Mal o sargento acabou de falar, a terceira voz interrompeu a conversa dum modo trocista: Para tua
- Devias tratar melhor o Sargento Govas, Almenir. É esse o teu verdadeiro nome, ou se calhar enganei-me quando li a tua Ficha Azul?
O queixo fraco do bruxo português caiu de tal forma que tentou logo apanhar o chicote, virando-se para o seu companheiro árabe, muito atónito, com as mãos a suar, agarrando-se a Almenir como se fosse uma menina.
- Ele tem as nossas Fichas Azuis! – Exclamou cobardemente. – O que fazemos agora?
Por outro lado, o tenente soltou uma risada sarcástica, soltando-se valentemente do seu amigo, e olhando para todos os lados de nariz empinado, fingindo ser uma mulher muito convencida, brincando comicamente com a pistola como se ela fosse um estojo de maquilhagem. Ele nunca seria enganado por uma mera ilusão que a sua cansada mente lhe provocava. Talvez fosse apenas o vento, e, afinal, ele tinha sido condecorado com a honrosa Túlipa Rubi de segunda classe por coragem sobre fogo. Não seria um diabrete qualquer que o iria amedrontar.
Riu-se que nem um perdido, e depois, brincou animadamente com o seu novo e pequeno troféu na sua gabardina.
- Claro, e eu sou a Serpente de Fogo! – Disse, rindo numa voz fininha. – Por Ali, António Govas! É impossível ele (seja quem for) ter os nossos documentos, relatórios e fracassos relatados nos ficheiros mais secretos e bem guardados da SPV!
Passados uns dois minutos depois de ele ter proferido aquelas mesmas palavras, uma faca venenosa vinda do nada, qual grande e rápida flecha, passou de raspão pela gravata preta do tenente, vindo acertar no chicote de Govas, provocando um enorme corte na mão do bruxo menor, que, chocado pela faca ter cortado o cabedal, olhava com desgosto para o anelar separado dos outros dedos, a esguichar sangue pelo granito todo da calçada.
Quem quer que fosse, aquela pessoa não estava com meias medidas para acabar com a tirania da SPV sobre os mais fracos!
A voz soltou uma suave risada sádica que arrepiou os dois agentes.
- Tem sorte por não ter sido a sua cabeça, meu caro Sr. Yillem. – Avisou perversamente a voz invisível. – Mais uns centímetros e a sua carreira como supervisor das deportações dos impuros neste bairro acabava literalmente.
O português debruçou-se às botas do seu superior, tremendo como varas verdes e tentando em vão juntar o seu anelar com o resto da mão direita, com os olhos vermelhos com o sangue humano.
- Acho que ele não está a brincar, Tenente Yillem. – Choramingou Govas.
O bruxo árabe, não satisfeito com o que tinha visto, atirou contra o céu estrelado de Outono, e, cepticamente, olhou para o seu subordinado durante cinco minutos.
Passados mais dois minutos, contemplou silenciosamente o céu com um brilho positivo nos seus olhos escuros, viu o seu relógio de pulso e soltou um audível “Ah!”.
- Vês, António? – Exclamou confiante. – Não há qualquer cyborg ou criatura imunda que me consiga assustar. Quem é que se está a rir agora?
Subitamente, ouviu-se uma gargalhada suave e elegante de um homem que gelou os dois corações de ambos, e, numa rajada de Inverno, surgiu diante dos pobres coitados, trazendo escondido no fumo um homem vestido como um bruxo: enormes garras de sangue; chapéu bicudo púrpura, cobrindo por total os olhos esmeralda por debaixo da máscara de porcelana; alto e esbelto como um acrobata experiente; e capa preta de pele de urso com interior forrado de veludo vermelho, com um cinto negro que prendia um florete embainhado em cristais afiadíssimos e a brincar com três adagas nas mãos habilidosas, com um sorriso escarninho e sem expressão na máscara de porcelana.
Os dois abraçaram-se um ao outro, aterrorizado e paralisados como estátuas para o assassino que lhes tinha caído na rifa.
Passados alguns minutos, gritaram, muito assustados, com todos os pulmões:
- O CONDE JAMES DARK SWORD, O TERROR QUE VIGIA CYBORG TOWN!
E desataram a correrem como se tivessem sete pés, tão pálidos quanto duas larvas de bichos-da-seda, utilizando a energia do vento para tentarem voar daquele sítio o mais rápido que pudessem com os seus tridentes. Mas, infelizmente para aqueles dois, a pontaria de Dark Sword com as suas adagas era suficientemente boa.
Ele sorriu, segurando com destreza a capa de forma que tapasse o rosto e só se visse os seus dois olhos a brilhar de tão convencido que era.
- Parece que a minha reputação persegue-me. – Comentou a voz. – Tal e qual como as adagas da justiça que serão cravadas nos peitos da corrupção e da tirania!
Não podia falhar, os seus olhos esmeralda penetrantes concentraram-se mecanicamente no seu alvo com o barulhinho dos seus bits de disco rígido a funcionarem em conjunto com o seu cérebro, um terço de minuto para calcular a direcção, outro terço para a distância, e outro para ser lançado.
O complexo processamento fez o seu frio trabalho, ordenando à mão de metal esquerda para atirar a adaga para acertar exactamente em cheio no calcanhar direito do tenente quebrando um osso vital do pé! Isto deixou-o letalmente ferido e sentindo um ardor como nunca tinha sentido antes, tropeçou numa pedra demasiado rígida para as suas botas aguentarem e caiu estatelado no chão qual um velho cavalo com uma perna partida. Enquanto isso, o seu companheiro já estava a voar no seu tridente, muitos km’s de distância daquele lugar horrível.
O misterioso justiceiro ao chegar ao pé do miserável, observando que o último se esperneava e contorcia de agonia do seu pé direito, soltou uma risada sádica, beijando docemente a sua adaga.
- O pé direito entrou em acção, não foi, meu caro Almenir? – Exclamou num tom sarcástico.
Mas logo mudou para um tom ameaçador e frio quando, ao estalar os dedos, a garganta do coitado começou a fechar-se, como se estivessem a esganá-lo fortemente, pondo-o entre a vida e a morte! O implacável conde levitou-o com a força da sua mente, e sorriu de forma trocista, olhando com aqueles olhos arrepiantes verdes.
- Promete que nunca mais, mas nunca mais, voltas a procurar o “eleito leitor”! – Disse ele em voz alta e de homem. – A partir desta noite, nada de SPV; vais esquecer-te que trabalhas para eles...!
Estranhamente, o oficial da polícia secreta acenou com a cabeça lentamente, muito fraco e indefeso, como um cachorro obediente. Os seus olhos castanhos tomaram uma coloração meio esverdeada, e a sua boca aberta qual um peixe morto, deitava um pouco de baba no chão, a flutuar, parecia que estava no meio dum...transe. Que espécie de nova magia seria aquela...?
- Sim...Nunca mais vou trabalhar para eles... – Respondeu, meio sonolento.
O meio bruxo, meio cyborg repetiu o gesto, desta vez com o dedo direito, e, ao fazê-lo, o agente caiu redondo no chão, sem uma única cicatriz, como se não tivesse acontecido absolutamente nada naquela estranha noite. Já tinha ouvido falar do hipnotismo, pois estava a estudá-lo nessa altura para o liceu no PR, mas nunca pensei que houvessem feiticeiros que conseguissem executar um feitiço de hipnose e manipulação completamente sem a ajuda de um objecto ou arma que contenha energia mágica.
O perverso conde pôs, com a ajuda das suas mãos e da sua magia negra, o SPV hipnotizado a andar, rindo-se com a mão direita a indicar para a Estação Manuelina, sorrindo de uma forma trocista como conseguira livrar-se facilmente daqueles dois empecilhos.
- Lindo menino, agora....Vai comprar imediatamente um bilhete para o próximo avião que sair da Atlântida para o Iraque. – Continuou o conde na sua voz fria. – Quando ouvires a palavra “guerra”, já estarás muito longe da tua querida víbora, e será demasiado tarde para escapares à morte certa no teu país natal!
Almenir obedeceu cegamente às ordens que Dark Sword lhe tinha dado, e, num segundo, já tinha pegado no seu tridente, pregado a fundo no primeiro bico do seu utensílio gigante de cozinha qual uma vassoura, e indo a voar até à Estação Manuelina.

quarta-feira, 4 de março de 2009

encontro com o caminho de dois sentidos...

Ao sair do arranha-céus, reparei que uma figura alta estava pontualmente à minha espera. Oh, como me tinha divertido! Já deviam ser uma da noite. Decerto que o preocupado e coitado do Nälden perguntava-se a si mesmo como raio eu não tinha ido embora com o Primo Coutinho e porque é que ele estava ali, àquelas horas.
Realmente, o Dia das Bruxas tinha sido celebrado com uma grande festa de arromba.
Ainda se viam umas pequenas luzes nos poucos bares que estavam abertos ao redor da enorme e comprida avenida principal.
As luzes das lâmpadas, ténues e enfraquecidas pelo nevoeiro, pousadas de dez em dez metros seguidamente no jardim que separava o caminho do metro do dos carros, plantado com bonitas árvores de cerejeira, iluminavam a bifurcação e o grande palácio do Cavalheiro e da estação de metro, mesmo atrás do Anel da Serpente, que era o edifício por onde eu tinha saído.
De resto, só restava como companhia a escuridão das esquinas e travessas labirínticas e apertadas pelos grandes edifícios negros da velha cidade cosmopolita, com alguns datados do século dezoito, que, certamente, faziam contraste com o gigante moderno governado pela SPV. No canto direito do ringue, havia também o Quartel-General da nova rival da centenária Serpentis Politza Vigitz: os SOS, ou, os Serviços Obscuros de Segurança, como são chamados ironicamente, fundados em ’95 pelo General B. Cá para mim, apreciar a diferença entre a antiga Faculdade de Letras atlante e o Hotel Anel é como distinguir um shot moranguito de aguardente: têm os seus nomes próprios, mas o sabor e a sensação duma enorme ressaca e prováveis vómitos é semelhante.
No entanto, é fácil perceber que, ao conseguir este palácio barroco – a velha faculdade que servia anteriormente para ensinar humanidades, línguas e letras – o General B ficou muito bem servido. Talvez até bem mais servido que o seu novo patrão, o Goldtheeth, que ocupava agora os sete andares abaixo do chão do Anel da Serpente. Não havia dúvidas que o hotel centenário, agora intitulado pelo povinho como Casa SPV, era maior que o Palácio Eleonora (eles aqui têm uma estranha mania de adorar a realeza, não achas?); porém, à semelhança das pizas, o gosto é raramente uma questão de tamanho ou melhor massa.
Lá ao fundo, no caminho à esquerda depois do imponente Teatro Parisiense, havia uma antiga auto-estrada que se dirigia para Sudoeste, para a Cidade dos Deuses. Enquanto que, à direita, se estendem, por vezes, alguns bruxos a caírem de bêbados, a meio da noite.
Essa estrada, sinuosa e rodeada de árvores frondosas – tão altas quanto o próprio arranha-céus que se destacava na avenida pelos seus 600 metros de altura – tem um desvio que dá para o sinistro Vale da Morte, e também para o Castelo Negro.
Aqueles pinheiros bravos emanavam já de si uma certa aura infernal, quanto mais o próprio terreno acidentado a dois quilómetros de distância ao olho nu dum bruxo.
Apenas a Lua Cheia alumiava o céu escuro, coberto por ameaçadoras e tristes nuvens azuis-escuras.
Nälden, com um ar meio receoso, e num estalar de dedos, acendeu às pressas um cigarro para se acalmar. Com a cara pálida e quase fantasmagórica na penumbra, ele fumou o tabaco com uma exaltação paranóica nos gestos.
- Não precisas de ficar assim tão assustado. – Comentei com indiferença, alisando provocatoriamente os caracóis com os meus dedos.
Ele apenas encolheu modestamente os ombros, resignado, mas, por aqueles olhinhos castanhos-claros e, por aqueles maneirismos seus, não deixei de notar um pavor presente nos seus pensamentos.
A simples ideia de irmos ao Castelo Negro deixava-o aterrorizado, e, em toda a sua vida de bruxo, nunca pensara em fazer tal loucura.
Contudo, eu já lhe tinha dito um ror de vezes que, um dia, iria ao Castelo Negro para certificar-me se aquela história do meu Padrasto estar vivo é a dura e cruel realidade, ou se é pura ficção científica.
Uma vez que o seu emprego depende do meu estado de saúde, não teve outra escolha senão esperar por mim ao frio.
E devo-te dizer que, para além disso, Nälden é um grande amigo meu e já passou por outras coisas, e, com um grande amor à vida, é natural que – no seu dia de folga – seja o único bruxo a estar só, na mesma mesa, à mesma hora, no Cavalheiro, a apreciar lentamente o mesmo prato de sempre, com a mesma bebida: arroz de marisco com vinho do Porto misturado com néctar de limão destilado. Tal como já te contei, o Cavalheiro é uma mistura dum restaurante, com um clube nocturno francês e um salão de dança de aproximadamente cinco andares, localizado no número 88 da Avenida Principal. Fundado em 1928 pelo bruxo parisiense Alfredo Chévrier (um indivíduo deveras bizarro, diga-se de passagem, foi preso pela Gestapo por suspeitas de ser homossexual, apesar de ser casado), inicialmente como um salão de baile com jantares e almoços, o Cavalheiro teve um sucesso estrondoso por volta dos inícios dos Anos 30.
Por volta dos anos obscuros da ocupação nazi na Atlântida, o conhecido local nocturno de entretenimento faliu, devido à séria acusação de Chévrier. Actualmente, desde ‘79, este edifício é gerido por uma entidade anónima, que financia e dá carradas e carradas de dinheiro aos empregados, bailarinas e chefes de cozinha que trabalham lá. Embora já não seja o rei dos salões ou clubes ou restaurantes de Cyborg Town, continua a ter um seu toque de requinte e elegância pelos seus brilhantes pratos típicos atlantes, e por ter as mais belas dançarinas atlantes, com o estereótipo exótico moreno, mediterrânico, do qual o General B tanto gosta. Como se isso importasse de qualquer maneira, francamente! O turismo atlante é frequentemente alimentado pelo machismo que continua a imperar na nossa ilha, e o Cavalheiro é um hotspot para todos aqueles pimbalhões mulherengos que vem lá dos USA, da Rússia e dos países do Norte da Europa, que gostam das nossas pobres adolescentes que vêm dos bairros de lata ou do inocente campo da Floresta de Cristal. Sinceramente, sempre gostava de saber quem é o desavergonhado que gere aquele antro de…De…Bom! De uma pouca-vergonha, é o que aquilo é. Com aquelas lambisgóias todas, e o maricas do Nälden lá, toda a santa terça-feira. Mas enfim, o que quer que ele queira provar, dentro do seu minúsculozinho aparelho genital, o certo é que não tem nada a ver connosco, não achas?
Antigamente, a SPV era uma polícia honesta, criada em 1933, pela Princesa Swerdinada com o intuito de proteger não só Sua Alteza, a Rainha, mas como também todos os cidadãos atlantes, dum terrível mal, cujo foi ironicamente a base para a organização dos departamentos da nossa querida instituição de justiça policial: a Irmandade Tigre Azul, a pior organização mafiosa da Atlântida nesses tempos. Pouco se sabe acerca desta associação de assassinos, no entanto, segundo os registos da SPV, os seus objectivos, eram claros: obter riqueza e poder. Durante os Anos 30, a SPV, controlada pelo feiticeiro branco – foi a única e a última vez que um feiticeiro branco assumiu a liderança da polícia secreta – Capitão-Mor Manuel António Cabral, o “Irmãozinho”, e o temível e misterioso Grão-Mestre da Irmandade Tigre Azul, lutaram pela supremacia!
Após cinco anos de lutas sangrentas entre bruxos, cyborgs e feiticeiros brancos, o grão-mestre desapareceu enigmaticamente do tabuleiro de xadrez, e, foi aí que a diplomática princesa declarou paz entre todas as classes. Infelizmente, essa paz não durou durante o tempo que ela gostaria: a Segunda Grande Guerra rebentou no mundo, um mês depois do anúncio do fim da liderança de Irmãozinho para o início do reino do conhecido bruxo atlante, o Marquês Kantiano Di Zifirinathüm. Em Dezembro de 1940, a minha querida mamã deu permissão ao meu honrado padrasto e aos Nazis para que eles marchassem sobre a Avenida Principal. Uma vez duquesa, Katharina Von Tifon afiou as unhas para discutir com a Serpente de Fogo, mas foi em vão! Os Von Tifon estavam sob o domínio da paixão que a minha mãe detinha pelo meu Padrasto, que, à medida que os dias passavam, crescia cada vez mais! Por fim, em 1942, com a morte do “O Poderoso” e o assassinato de Manuel Irmãozinho, quatro corações se despedaçaram, com tanta força e sofrimento como as bombas americanas a caírem em Cyborg Town na quinta-feira de chamas, em 16 de Julho de 1942. Swerdinada e a Mamã partilharam, por esta vez, as lágrimas que choraram foram as mesmas, uma vez que ambas gostavam, não do meu Padrasto – a minha mãe não verteu nem uma gota por aquele paspalho. – Mas sim do nosso Capitão-Mor Irmãozinho. Por mais estranho que pareça, em 1950, a minha querida Mamã assumiu o controlo da SPV, uma vez que já tinha experiência nesse campo.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Interrogatório (Parte III)

No Carnaval, ninguém leva a mal, portanto, acho que vos devo, depois de tanta ausência, um post extra....Obrigado pela vossa colaboração...!



Aí, libertei-me suavemente das correntes como se fossem leves fios de teia de aranha e, num salto rápido, atirei-me a toda força qual víbora para a sua presa, e, num único momento fatal, os nossos lábios juntaram-se sem que aqueles idiotas pudessem reparar.
Beijei-o como um foguetão, levando-o lentamente à terra do prazer, e “hipnotizando-o” com os meus olhos mágicos, tirei-lhe facilmente a chave da porta mais um pequeno saco que tinha nos bolsos. Quase que o estrangulava com as minhas garras de verniz vermelhas, mas ele não se importava, pois estava a beijar uma bruxa “super podre de boa”. Agarrou-me firmemente pela cintura, sentindo-se excitado qual rato nervoso pegando no queijo antes de cair na ratoeira, a sua língua dum só caminho dividiu-se numa bifurcada e logo as nossas duas línguas estavam enroladas umas na outra!
Então aquilo é que era a primeira fase dum “beijo à bruxo”! Reparei que as pupilas dele se dilatavam e que se ganhavam a cor do sangue, não me admiraria nada que ele me pedisse para ir para a cama com Gerhard Nälden, o Cirurgião da Morte da SPV.
Por cinco minutos, o calor arrasou aquela sala gelada e, durante aqueles intermináveis cinco minutos, os meus lábios comandavam cada movimento do escanzelado tenente.
Digo-te que, de todos os rapagões que beijei, este tinha um hálito a tresandar a drogas e a tabaco, e que logo que o vi, sabia que convencê-lo a libertar-me seria uma tarefa dura. Mas consegui, não consegui?
Contudo, era um pouco largo de braços, e tirei todo o prazer em ser toda sua durante aqueles cinco minutos.
De repente, sorri sadicamente e arranquei os meus lábios e o meu corpo das suas mãos pegajosas.
Ele olhou-me aparvalhado, com o queixo caído e os olhos arregalados, completamente petrificado, sem saber o que dizer.
- Gostaste? – Perguntei aliviada com um brilho perverso nos olhos. – Se sim, é pena. Porque não vais ter mais disto!
Dizendo isto, deixei as minhas vítimas – sim, porque os outros ficaram para ali embasbacados com água na boca a imaginarem-se no papel do companheiro, espantados com a minha prática – completamente de rastos, fechando suavemente a porta à chave, mas ainda consegui ver um quarto homem, escondido nas sombras com um olhar frio e maléfico, nada espantado com o meu beijo.
Seria ele o misterioso General B...? Acho que exagerei ao contar os meus propósitos verdadeiros e do meu affair com o Pedro, não achas? Talvez usem isso contra mim....Como um grande mestre da espionagem e da magia negra uma vez disse “É mais fácil interrogar um homem na posição horizontal que na vertical” e eu, definitivamente, tinha dado, todas as informações que eles precisavam. Sou mesmo má!
Um “biquinho” seria suficiente para eles caírem redondos no chão! O que não o fizeram. Bem, nenhum homem provou ser merecedor de mais de trinta minutos da minha atenção, excepto o Pedrinho e o meu padrasto. É claro que nunca vou beijar o segundo, mas podes crer que o nosso amor entre o primeiro e eu é um completo incêndio...!
Eu explico-te porque é eu fiz um pouco de marmelada com aquele tenente de segunda, primeiro porque estava desesperada e quando eu fico desesperada, faço coisas mesmo muito estúpidas! Segundo porque tinha sido o sabor do álcool na garganta que me induziu a ver aquele palerma como um possível gato.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Interrogatório (Parte II)


Foi aí que o tenente não pôde aguentar tantos insultos numa só noite. Aproximou-se de mim e olhou-me de alto a baixo como se eu fosse uma tola cabra nua da revista semi-pornográfica do News Zone. Depois, pegou intencionalmente no frasco verde-esmeralda que eu trazia na minha coxa através de uma pulseira para as pernas, ficou com uma expressão de choque, pesou-a na mão, e, lançando-me um olhar de desprezo, atirou-a bruscamente contra a parede. Estilhaçou-se com o som de um jogo de talheres caindo por uma escada abaixo e o ar encheu-se subitamente de um odor feminino intenso e forte que deu a volta à cabeça dos dois ajudantes encapuçados.
Sorri maliciosamente e adivinhando as dúvidas dos três homens curiosos, respondi suavemente num tom provocador:
- A minha área é Magia Negra e Línguas, na qual o hipnotismo é essencial para um teste, aquela poção era o meu trabalho de casa e lamento imenso o facto de em breve se arrependerem disto. Também vão-me colher os ingredientes principais. Como já demonstrei, nem faço ideia do que se passa aqui, como também vocês estão a falhar em pontos cruciais, o meu sincero e tolo amiguinho não é perigoso.
O Tenente Gerhard endireitou a blusa de cabedal preta depois do esforço e limpou a cara, um pouco irritado. Inalando com um ar desconfiado a substância doce para os seus olhos, quase que adormecia ali, mas logo acordou com um pouco de medo, meio sobressaltado.
Estava com medo de mim, podia senti-lo nos seus olhos, e, embora fingisse, não poderia resistir aos meus lábios enganadores.
- Ouça lá, eu não me deixo hipnotizar facilmente. – Rosnou ele. – E tem razão numa coisa, o cyborg não é perigoso, mas você, Miss Jessica, é muito perigosa!
Aceitando isso como um elogio, ri-me dos quão estúpidos que aqueles três eram. Não os ia vencer pela força, mas sim com a minha inteligência.
E a diferença de sexos seria a sua perdição. Aliás, ao ter partido aquele aparentemente inócuo frasquinho, tinha assinado não só a sua, mas como também a sentença de morte dos outros.
Soprei um beijo sensual e altamente tóxico quanto à tentação para os três campangas da polícia secreta.
- Oh, sim, diz-me o quão perigosa eu sou! – Indaguei num suspiro erótico. – Ò tenentezinho, serás assim tão valente e sem coração como aparentas ou por dentro das vestes de bruxo implacável há uma florzinha de estufa mariquinhas pé-de-salsa como o teu irmão gémeo?
O estalo do chicote negro do segundo homem fez-se ouvir, interrompendo a minha tentativa de seduzir o tenente.
- Basta de disparates. – Disse ele aproximando-se de mim com o chicote ainda quente, preparado para me dar uma grande sova. – Diga-nos de uma vez por todas que colabora com a Resistência e poderá ir-se embora!
- Então? Não temos o dia todo, Frau Jessica! – Concluiu o outro pegando numa pena, pronto para me fazer cócegas. – É mentira ou não que estiveste com aquele cyborg à procura de sarilhos?
- Talvez seja mentira, talvez seja verdade. Porém, se quiseres, podes perguntar ao cadáver do cyborg, isto é se ainda não o tiveres matado. – Respondi num tom enigmático a rir-me. – E se me queres fazer rir, nem é preciso a pena, basta tu mais os teus amiguinhos da SPV.
Vendo que eu era (e sou!) uma bruxa que metia respeito, o Tenente Gerhard, sacou da sua pistola de fogo, apontando-a para mim, apenas para meter medo, mas não resultou.
Embora ele estivesse a apreciar o momento, lançou-me um olhar de zangado.
- Miss Magnetite é sem sombra de dúvida uma pessoa influente na mente de alguém, asseguro-lhe que em toda a minha vida nunca encontrei alguém assim tão corajoso e frio, a não ser o meu superior, o General B. – Disse ele admirado. – É tão cínica como o Otto contou-me por telemóvel…Porque será?
Vendo que podia confiar nele, comecei a contar-lhe mais à vontade pelo menos os pormenores que não interessavam. Falei-lhe que era de facto neta de Thomas Magnetite, e que ao morrer, deixou-me ao cuidado do gentil e piedoso Duque Von Tifon.
Quanto a Pedro, apenas lhe disse que era só um “amigo” que eu utilizava para ganhar informações acerca dos “imundos” e para encontrar o Testamento de Neptuno para conquistar a Paz e encontrar o meu Padrasto. Com o meu poder de persuasão, consigo tudo o que quero, e parecia que ele estava com um fraquinho por mim, lá tentei convencê-lo a libertar o meu amigo.
Quando se trata dos amigos, ainda por cima amigos interessantes, eu faço tudo, mas mesmo tudo, e não digas que eu não tenho escrúpulos, porque eu utilizo os meus poderes de sensualidade apenas para o Bem dos outros.
Numa voz de bebé, fazendo beicinho, com os olhos azuis mais queridos do mundo, perguntei suspirantemente:
- Eu faço tudo que esteja ao meu alcance para ganhar as minhas bem merecidas férias vitalícias com o meu amorzinho cyborg, e se não acreditas, tenentezinho, é porque não sabes com quem estás a lidar! Tudo!
O interrogador engoliu em seco, um pouco a medo de eu me libertar.
- Bela prima que o Sr Duque foi arranjar...! A língua bifurcada é de família, ou tu és apenas uma filha dum humano sem aquele poder? – Perguntou cheio de medo.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Interrogatório (parte I)


- Muito bem, Miss Magnetite: vamos dar umas respostas jeitosas e talvez ainda saia daqui viva. – Comentou ele pegando em luvas de cabedal. – Sua Excelência, o Rei, pede a sua presença para uma “festa de pijama” e não me posso atrasar com este interrogatório.
Eu ri-me dos termos usados pelo oficial alemão, apercebi-me que não ia ser enviada para a temida Fronteira , descontraí-me ligeiramente.
Mesmo que fosse, estou tão habituada a demónios, que já nem ligo aos quão assustadores ou ridículos eles possam ser.
- E foi preciso enviarem os vossos demónios e fantasmas para um metro onde ia só para me capturarem e dizerem isso? – Exclamei num tom divertido. – Francamente, vocês ficam cada vez mais incompetentes e idiotas a cada ano que passa.
Para grande espanto de dois dos três agentes, poderia, se quisesse, libertar-me facilmente das correntes com uma ajuda, e, qual grande acrobata escorregadia, dar um mortal na perfeição, levantada e sem quaisquer danos nos pés ou mãos.
Só não o fazia porque os homens eram cada um maior que o outro, armados até os dentes!
Machados, pistolas, metralhadoras, granadas, e armas eléctricas pregadas num moldura de onde outros demais instrumentos de tortura se encontravam, prontos para me fazer falar! Ali estava tudo o que era preciso para o mais duro e valente de todos os altos oficiais da Resistência se enchesse de medo e começasse gritar que nem uma menina perdida.
Apesar do aspecto feroz dos meus raptores, não me mostrei receosa, e esboçando um sorriso matreiro, tentei provocá-los.
- Por que razão estão todos como se estivéssemos no Carnaval? – Perguntei inocentemente mas com um toque sarcástico. – As caras daqueles dois são assim tão feias ou eu já os conheço?
- Quem faz aqui as perguntas somos nós, Miss! – Rugiu ele com a pistola a dançar por entre os seus dedos. – E se continua a armar-se em espertinha, irá desejar nunca ter gozado com a minha cara.
Os meus olhos reviraram-se e desatei a rir-me, não seria fácil eles me fazerem confessar, fosse lá o que fosse.
- És mais estúpido do que eu pensava. – Comentei calmamente. – Se me matares, então como é que poderei falar de todo?

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Sonho de Burlesco (parte II)

Não consegui ver absolutamente mais nada, pois algo de familiar e negro se escondia por detrás daquele espelho. Aquilo não era o próprio Tsesustan, disso tenho a certeza, mas, qualquer dia, desvendarei esse mistério, disso vos garanto!...
Quando acordei, deparei-me com um cenário mais arrepiante do que todos os que já tinha visto nesta noite maluca. Pensei que eram demónios que me tinham raptado, pois tinha os pulsos e pés atados com pesadas correntes de fogo a uma tábua de madeira, produto de uma rústica “reciclagem” por parte dos raptores, mas como consigo dominar o fogo facilmente com a minha magia, não magoava assim tanto.
O meu indefeso corpo, com as roupas rasgadas e descalça (o patrão daquela quadrilha estava a dever-me cinquenta euros pelo vestido) a mostrar um enorme decote no meu avantajado peito com as coxas da perna à mostra, eu estava à mercê de três bruxos, os primeiros a contar da direita tinham as cabeças cobertas por peúgas, cada peúga com quatro buracos para ambos respirarem. O terceiro parecia ser o irmão gémeo do incompetente pé-de-salça do Nälden, só com olhar penetrante e um canino de ouro, com a tatuagem da SPV no braço, uma serpente a atravessar as siglas em caracteres atlantes, e, da forma como se aproximava, este tinha um particular cheiro a talho.
Mais bem parecido, este apontou com o seu dedo para os meus olhos lacrimantes por causa das visões que eu tinha tido e riu-se sadicamente.
- A Bela Adormecida já acordou, foi? – Perguntou ele com um sorriso maldoso.
Não iria permitir aquela ofensa aos meus direitos como bruxa!
Com uns reflexos dignos de uma verdadeira bruxa adulta, concentrei-me num balde de azeite bem quente com os meus olhos a brilhar com um um reflexo qual safiras do mal, fazendo-o levitar lentamente até à altura da cabeça do chefe com o canino de ouro, sorrindo satisfeita.
- Sim, e posso saber o nome do príncipe encantado? – Respondi num tom calmo.
A qualquer momento eu poderia deitar aquele balde sobre a cabeça daquele parvo, portanto, tinha todo o tempo do mundo para ouvir as suas interessantes perguntas.
O Chefe do Canino de Ouro tirou o chapéu de feltro castanho-escuro e fez uma vénia profunda ironicamente, vendo que tinha encontrado uma rapariga difícil e mais fria do que um cubo de gelo.
No entanto, com um gesto rápido, passou o seu distintivo da SPV à frente dos meus olhos e reflectiu-o contra a forte luz dum candeeiro feito especialmente para as interrogações mostrou-me que não só era arrogante, como convencido.
- Nälden, Tenente Gerhard Schweinsteiger Nälden da SPV. – Apresentou-se ele numa forma elegante e militar. – E suponho que a menina seja a Jessica Ilsa Magnetite de Inglaterra, dezassete anos, matriculada no Secundário de Magia Branca do Palácio das Reuniões, de quem o comandante do check in do Aeroporto Atlante tanto me falou.
Proferiu a palavra “Inglaterra” com uma ênfase deliberadamente sarcástica. O típico ódio de os ingleses terem ganhado a guerra estava bem presente, e confesso que pessoalmente também não gosto lá muito de alemães. Mas nunca me descreveria como «Brilhante Estudante Inglesa», tal como não me descreveria como «Ajudante de Museu Anglicana» ou «Estudante Inglesa Anti-social» ou «Estudante Ex-namorada», apesar de ser, ou ter sido a certa altura, todas essas coisas (hoje em dia, não me apanham com muita frequência na igreja).
Com um olhar áspero e sem sentimentos, pegou no meu queixo com um sorriso matreiro, fazendo com que as suas mãos de médico pálidas qual ratazana acariciassem por breves momentos a minha sedosa e suave face.