terça-feira, 28 de julho de 2009

O Sonho, o Amor de uma Heroína (Parte III)

As lágrimas passavam-lhe futilmente pela cara, e, limpando-as inocentemente qual pomba branca sincera e tímida; escondeu a cabeça sobre o cabelo preto lindo, pois não queria que mais ninguém a visse, a ela e à sua desgraça.
Será que nunca mais ia ter um homem certo, um príncipe encantado…?!
Ela é boa demais para uma terra amaldiçoada e má como esta, não há nenhum homem que se possa comparar com ela. Nenhum, e era isso mesmo o que ela sentia.
Por vezes, até penso se ela não é um anjo que perdeu as asas ao caír por força do Diabo, invejoso da beleza pura da princesa da luz.
Seria aquela uma filha de Deus, vinda do Céu, para melhorar aquela terra.
Olha que não estou a cometer blasfémia, e a todos ela dá pena, se calhar só o Euncätzio, o Tsesustan e o meu Padrasto não têm pena dela. Só de pensar que aquela frágil flor-de-estufa está sozinha e perdida no mundo. Perdoa-me a expressão, mas é isso mesmo que ela é!
Ao leres este livro, reparaste logo que Sara é uma das personagens mais sentimentais da minha história real, e é verdade, o problema é que há poucas pessoas hoje em dia que ligam ao interior, mas sim ao exterior. É por isso que muitas vezes, ela é julgada pelo seu exterior, e não pelo interior. Arranja sarilhos só por ser bonita e muitas das fadas que ainda existem também apanham por isso. Ela estava farta de ser tratada como uma obra-prima, uma pintura fantástica perdida de um antigo mestre que todos os homens quisessem posssuir. Para ela, já bastava aquele sofrimento por que estava a passar, e passou durante longos minutos a chorar.
O seu espírito bom não aguentava mais, e não poderia viver com aquele peso sobre as costas, que a apertava cada vez mais. Apesar de já ter queixado, há mais de trinta anos - desde os tempos de 1948 em que o PR (o Palácio das Reuniões) declarou que a Princesa Swerdinada Arco-íris Di Neptunvs fora coroada com todos os louros e pomposidade como Imperatriz do Império Constituticional Divino do Arquipélago das Ilhas da Bellanária! Um título demasiado palavreado para a nossa querida "Serpente de Fogo". A Sara já estava cá muito antes da misteriosa morte do "Papá" da Serpente de Fogo (o rei Neptuno), no dia fastidioso de 13 de Abril de 1939, pouco antes da Itália invadir a Albânia. Durante e depois da guerra, o Palácio das Reuniões assumiu o cargo de todos os poderes das ilhas de Shunrasen, Jelnarar e da Bellanária "Livre" - chamada assim por causa da ocupação nazi de 1940, no inicio de Janeiro, da região norte, desde os Alpes das Sereias até à Cidade Perdida, com os Nazis a ocuparem quase dois terços da grande ilha da Bellanária, chamando essa parte de Protectorado Von Tifon (foram tão simpáticos que até deram o nome da minha família!) - que tinha as suas fronteiras bem desenhadas, um terço da ilha da Fronteira era usada para os campos de concentração nazis, a Floresta de Cristal estava dividida em duas, uma, próspera e bela, verde, e outra, fraca e devastada pelas bombas dos Aliados.
Ainda se lembravam, nessas alturas, como o Comandante e Senhor Tezcatlipoca e a Princesa Swerdinada mantinham uma relação neutral entre o Eixo e os Aliados. Enquanto que, em Londres, o deus azteca, na Segunda Grande Guerra, conversava intimamente com o Churchill para discutir estratégias de serviços secretos, a nossa querida Serpente de Fogo equilibrava a balança, tendo conversas muito privadas com o Führer e Companhia das SS.

Enquanto que a minha mãe trabalhava para a Gestapo nazi, a minha tia Charlotte escrevia para um pasquim comunista para entregar nos países ocupados. A minha avó "Alice Von Tifon" tinha sido nomeada por Joseph Goebbels como a sua representante na Bellanária ocupada. Digamos apenas que foram uns tempos muito conturbados para a Sara, com guerras para cá, guerras para lá, negociações para aqui, negociações para lá...Ela deve ter trabalhado muito, pois já não se lembra muito desses tempos. Depois dos atentados a vários funcionários do Palácio das Reuniões, em 1946, no pós-guerra, o PR começou a ficar assustado e decidiu nomear Tezcatlipoca ( o chefe dos Serviços Secretos da Bellanária nessa altura) e os seus alunos para governarem a antiga Bellanária "Von Tifon". Mas, em 1947, o grande Deus da Guerra e das Trevas e da Magia Negra, estava farto de aturar os partidos mais esquerdistas no Palácio das Reuniões, que tinham intenções claras de assassinar os "fascistas" (a minha família) como exemplo para as "vitimas bellantes que tinham levado uma lavagem ao cérebro pelos Nazis". Obviamente contrário ás opiniões dos comunistas, o deus azteca (de antigas crenças mexicanas) quis logo apresentar a sua demissão como deus representante do seu panteão mitológico com o seguinte discurso «... Se querem um país todo vermelho, não contem comigo! Adeus...até ao meu regresso!...»

sexta-feira, 24 de julho de 2009

O Sonho, o Amor de uma Heroína (parte II)


Uma vela faz


Um trio em fogo,


Apenas estou,


Aqui, só...




Sem qualquer


Companhia,


Nada resta,


Estou perdida,


Em cinzas,


o meu corpo,


Se desfaz...



Um sonho...


Algo vaga entre


As ondas espumosas


Que queimam o coração...


Enquanto penso,


Uma garrida explosão


Surge no horizonte,


Antigi a Iluminação,


Através da minha alma,


Paguei o preço


Para a salvação...!



"Purificação no Purgatório" de Yui Murakami Von Tifon de 1946 (a minha bisavó que casou com o pai do pai da minha mãe; nascida na ilha de Hokkaido, em 1584, casou-se, feliz, muito nova, com dezasseis anos, com o Duque Michael-Jörg Christoph Von Tifon de vinte e três anos, duque da cidade perdida, "um homem encantador e um guerreiro honrado", nas palavras da própria Senhora Murakami ), dedicada ao primeiro aniversário do desastre de Hiroshima e Nagasaki. Na época da guerra, a "Princesa Sara" adoptou muitos nomes. Talvez este poema, encontrado na secretária da pequena fada Sara e todo empoeirado, fosse uma forma de Sara honrar a alma de uma pessoa que lhe era muito querida. Felizmente, Murakami Yui Von Tifon morreu anos antes da guerra, no Inverno de 1937, justamente no dia do Ano Novo ocidental. Uma mulher honesta e muito patriótica (em relação ao país a acolheu nos braços, há trezentos anos atrás, ou seja, o Império das Ilhas Bellantes) sempre teve remorsos de que, um dia, viessem a manchar o nome da sua família e acusá-la de traidora. Mas nunca os Bellantes tiveram razões para a incriminar. Era uma das bruxas mais poderosas e austeras de toda a Bellanária, no entanto, educava os camponeses e todas as crianças com um carinho e amor maternal impressionantes. O Rei dos Bruxos russo, o Kzenah Ivanovitch Malagheti descreveu-a no funeral da senhora, como uma «...das mulheres mais deslumbrantes e maravilhosas que eu alguma vez conheci...tinha sempre um estilo muito próprio, original, combinando o estilo exótico e tradicional japonês do quimono com muitas roupas, desenhadas por ela mesma...gostava de ser aquilo que ela aparentava para os outros; uma mulher poderosa, severa, fria, distante, sonhadora....Mas calma, serena, simpática e muito, mas muito bonita, ao mesmo tempo...Senhora Murakami, deusa em ser humano com poderes mágicos encarnada, estareis para sempre nos corações do povo bellante ...!»




De entre todas as bruxas, a Murakami Yui Von Tifon ganhou o respeito e o amor dos bellantes, fosse de que classe fosse. A princípio, foi muito doloroso. Os bellantes puros, aqueles que tinham gerações e gerações de familía no século dezasseis, aceitaram muito bem a vinda de uma mulher japonesa para a comunidade bruxos nobres da Bellanária. Mas, estamos a esquecer, que, para ser aceite, era preciso enfrentar a Comunidade dos Bruxos da Bellanária. A maior parte desses bruxos eram europeus, e não viam com bons olhos a pequena "Yuichen", uma rapariguinha fraca e indefesa, timida, e sonhadora, a juntar-se no enleio das túnicas ritual com o grande Duque. Era simplesmente impossivel. Por isso, durante um século, "Die Samuraistochter" (a filha do samurai, um título desonroso que a lembrava do terrivel passado no Japão, a razão pela qual fora forçada a fugir do país; o pai, um samurai possuido por um maldoso demónio, desonrara a família e a colocara a filha numa situação dificil e complicada) sofreu várias conspirações maquiavélicos, intrigas e até atentados contra a sua pessoa. No entanto, conseguira tudo sozinha, inspirando misericórdia e compaixão nos corações do povo bellante, que via nesta pequena aprendiza de bruxa uma heroína, ao enfrentar a classe mais malvada de todas: os próprios Bruxos.


Ao "pagar o preço" pela salvação e pelo amor de Michael-Jörg, que, apesar de nunca estar sempre ao seu lado, ela conquistou todas as classes, mudando definitivamente, para uma dama misteriosa, severa, impiedosa, cruel, mas sedutora. No seu centésimo décimo sexto aniversário, recebeu o título honroso de "Shrilan". Shrilan, em Bellante Arcaico, significa, "Senhora Minha", um título que era só, até então, aplicado às deusas. Dois anos depois, conseguiu, por fim, ter a honra de "copular" e dormir na mesma cama que o seu senhor, um acto que ela descreveu no seu diário como "a mais recompensadora de todas as experiências e desafios que tive desde que Aqui cheguei..."


Passadas algumas décadas, a Senhora Murakami teve algumas contracções, e uma luta final começou a desenrolar-se, um desafio épico, que toda a mulher tem de enfrentar - a primeira gravidez! Desta vez, Sua Excelência, o Duque Michael-Jörg Christoph demonstrou-se disponível para ajudar a sua mulher. E, apesar de tentar fazer os possiveis para que a senhora ficasse confortável durante os nove meses, a luta não era com ele. Para Murakami, aquele não foi um parto feliz... «...Sinto que vou morrer...parece que estou a lutar contra mil demónios e espiritos maléficos ao mesmo tempo...Se for um rapaz, hei-de o chamar Oni Ma Flevshgan (Filho demoníaco saído do Inferno) Estou aqui a dizer palavras de rir, para me animar...A gargalhada e o sorriso são o melhor remédio para afastar o mau agoiro...Ou pelo menos foi o que a minha mãe e as minhas tias tinham dito há séculos atrás...»


Para o seu desagrado e desgosto, foi o pai Michael-Jörg que lhe deu o nome de Friedrich Adrian (uma combinação das linguas germânicas com o Latim, que ficou assim o menino com o nome benévolo de "Governante Pacifico de Hadria"). Engraçada ironia do destino como o querido "Governante Pacifico" ficou conhecido como um dos duques e bruxos mais loucos e malvados de toda a Dinastia von Tifon. Friedrich Adrian (o meu avô), Karl Adolf (valente guerreiro com coração de lobo, ou seja, o meu tio-avô, oficial das SS, que depois da guerra nunca mais se soube dele), Maximilian Onophrius, Lucília Jasmim, Lorelei Elsa, e Cäcilie Michiko foram as crianças da Senhora Murakami. A "Gloriosa Geração de Cerejinha", como a Senhora Murakami gostava de chamar. Infelizmente, foi do Duque Friedrich Adrian e da sua esposa, Sra. Dona Duquesa Abir, a filha do antigo rei persa, que saíram Charlotte (a minha tia), Katharina (a minha mãe), e, por fim o filho mais velho e varão, o Duque Ludwig Von Tifon, um aventureiro por natureza, que deixou dois filhos (Hans, e Willhem Couto, mais conhecido como "Primo Coutinho") e uma esposa para a dinastia Dinastia Von Tifon... De uma forma ou de outra, a Senhora Murakami sempre permanecerá para sempre como uma das personalidades mais misteriosas, ásperas, amargas e sensuais das Ilhas Imperiais da Bellanária!...

sexta-feira, 10 de julho de 2009

O Sonho, o Amor de uma Heroína (Parte I)


Entretanto, no calmo Palácio das Reuniões, reinava um silêncio divino apenas perturbado pelo som de uma harpa, a Sereia da Meia Noite assegurava-se com o seu mágico instrumento que todos, quer alunos, políticos, e professores, tivessem um sono descansado. Por cima do disco lunar prateado, no topo do largo edifício de três andares, estava empoleirada uma linda criatura com cauda de peixe verde-clara que brilhava juntamente com a lua clara e de aspecto relaxante. O seu cabelo louro solto esvoaçava e despenteava-se com facilidade, mas com a ajuda de um gentil e pequeno espírito do ar, um minúsculo serezinho de cinco centímetros de altura este logo se tornava brilhante e atraente. Aí, com os seus dedos delicados, dedilhava suavemente as cordas, esboçando um sorriso, demonstrando que ali apenas reinava o equilíbrio e a paz interior. Aquilo é um lugar de Magia Branca. Ódio, guerra e vingança são palavras que não se ouvem frequentemente por aquelas parades sagradas que cujos fortes alicerces tinham sido fundados há mais de trinta e cinco mil anos.
Todo o lindo palácio em forma de círculo, formado por cristais raros encontrados nas zonas mais remotas da Atlântida já estava a dormir desde as nove e meia, e nenhum dos seus melhores alunos tinha ido para a “bárbara celebração do Mal”, como lhe chamara o grande patrono do Palácio das Reuniões, o famoso e sábio homem que governa neste castelo dourado, se atrevera a ir para a festa.
Havia, porém uma menina que passava a noite a surfar na net através do seu computador, acomodada num amplo quarto, iluminado com a fraca luz de uma pequena lâmpada. O seu cabelo preto abundante e despenteado atrapalhava a sua missão de encontrar alguma coisa de útil na Internet. Enquanto isso, tentava manter-se acordada ao beber qual alma penada sem qualquer vida bebendo uma garrafa de Coca-Cola.
Os seus olhos azuis cansados mostravam muito bem quem era: quem mais senão a querida e distraída Sara a procurar o seu verdadeiro amor.
Pobrezinha, tinha descobrido que aquele bruxo mais jovem do grupo de rufias gigantes não tinha ido à festa e fora-se embora mais cedo.
Aquela pequena princesa dá dó. Com a minha visão, consegui ver mais ou menos o que estava ela a fazer.
Não haveria ninguém suficiente bom ou gentil para ela…? É óbvio, num país infestado de malvados, não é de se admirar, mas a coitadinha já sofrera demasiado. já estava habituado a tudo aquilo.
As lágrimas passavam-lhe futilmente pela cara, e, limpando-as inocentemente qual pomba branca sincera e tímida; escondeu a cabeça sobre o cabelo preto lindo, pois não queria que mais ninguém a visse, a ela e à sua desgraça.
Será que nunca mais ia ter um homem certo, um príncipe encantado…?!
Ela é boa demais para uma terra amaldiçoada e má como esta, não há nenhum homem que se possa comparar com ela. Nenhum, e era isso mesmo o que ela sentia.
Por vezes, até penso se ela não é um anjo que perdeu as asas ao caír por força do Diabo, invejoso da beleza pura da princesa da luz.
Seria aquela uma filha de Deus, vinda do Céu, para melhorar aquela terra.
Olha que não estou a cometer blasfémia, e a todos ela dá pena, se calhar só a Serpente de Fogo, o Tsesustan e o meu Padrasto não têm pena dela. Só de pensar que aquela frágil flor-de-estufa está sozinha e perdida no mundo. Perdoa-me a expressão, mas é isso mesmo que ela é!
Ao leres este livro, reparaste logo que Sara é uma das personagens mais sentimentais da minha história real, e é verdade, o problema é que há poucas pessoas hoje em dia que ligam ao interior, mas sim ao exterior. É por isso que muitas vezes, ela é julgada pelo seu exterior, e não pelo interior. Arranja sarilhos só por ser bonita e muitas das fadas que ainda existem também apanham por isso. Ela estava farta de ser tratada como uma obra-prima falsa, uma pintura fantástica perdida de um antigo mestre larápio e aldrabão que todos os homens quisessem posssuir. Para ela, já bastava aquele sofrimento por que estava a passar, e passou durante longos minutos a compor músicas extremamente belas para os Deuses.

Ela é uma Fada da Luz, uma Kinnary, uma fada com asas de cisne e pernas tão bonitas e frágeis quanto as de uma corça jovem e pequenita, cuja principal função é servir os Deuses. Elas e os Kinnara - os fadas masculinos - são os principais criados e servos dos Deuses e eram muito influentes em tempos idos, aquando a Serpente de Fogo ainda não estava no poder. Agora, por causa da sua beleza, as Kinnary e os Kinnara (tal como as outras espécies de Fadas) foram forçados a exilarem-se das cidades ou de outros locais mais populosos, para evitarem serem capturados pela SPV, a polícia secreta da Serpente de Fogo. Sabes como aquela víbora é quando outra mulher ainda mais bonita "ofusca a sua beleza". Fica logo invejosa. Mas a Sara também não gosta nada de viver fugida dos capangas daquela bruxa. O pior é que ela não pode fazer nada.
Actualmente, com um pouco de paz e de alegria espiritual, a antiga "amiga" dos Von Tifon e embaixadora diplomática dos Deuses no estrangeiro, apesar de já ter 82 anos, continuava tão bonita como se tivesse vinte aninhos. É uma fada pobre - com a maior parte dos seus bens, tanto monetários como títulos honrosos, foram consficados no "9 de Julho de 1978", quando as Fadas passaram a ser consideradas "impuras" e indignas de viver nos "mesmos espaços" que os superiores "bruxos e feiticeiros". No entanto (embora ela nunca quisesse e já tentara fugir dali para viver com o seu próprio esforço como cantora de cabaret ou de algum club duvidoso em Cyborg Town), o Palácio das Reuniões concedeu-lhe refúgio, comida e dormida, por ser, ainda considerada, por muitos deuses incorruptíveis, uma «...uma heroína que sempre fez o seu melhor pelo seu país...» Sim, ela enfrentou muitas vezes os Nazis, e teve de enfrentar, sozinha, algumas batalhas, completamente sozinha, mesmo depois da guerra...!

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Uma da manhã – Hora das Bruxas, Bruxos e Demónios

«...Coisas estranhas acontecem no reino mais escuro das cinco classes definidas por Sua Alteza, a Rainha de Fogo...!»

Citação do Capitão-Mor Eddward Goldtheeth

Nem a Lua nem as estrelas habitavam o Vale da Cabeça da Morte, apenas existia o céu negro envolto em relâmpagos que rasgavam de vez em quando a abóbada celeste e cá em baixo no topo de uma pedra podia-se vislumbrar os picos cobertos de neve dos Alpes das Sereias que ficavam exactamente a três mil metros de altitude.
O musgo fosforescente e as luzes trémulas dos pirilampos – exceptuando os trovões, ressoando ao longe – eram as únicas fontes de luz por aqueles lados, e por mais bizarro que parecesse, não se avistava árvore alguma nem a único raio de cinquenta km.
Arbustos rasteiros e silvas ameaçadoras qual grupo de venenosos escorpiões a rodear o lago era a única flora que existia naquele lugar tão sinistro e funesto. No topo de um grande rochedo em forma triangular, circundado pelo lago de trinta metros diâmetro, conseguia-se ver-se uma inscrição antiga, originária da civilização da , pelo menos de há dez mil anos atrás, uma suástica com lados em espiral, com uma frase em atlante-arcaico que dizia:
"....Àquele que bater no meu palácio, desejo felicidades e boa sorte, pois será com dificuldade que regressará com vida. Os vivos e os que não forem criminosos jamais deverão trespassar esta porta, portanto, respirai bem fundo, nobre e valente feiticeiro, estais prestes a entrar no Reino dos Demónios...!"
Aquelas palavras soaram constantemente nos meus assustados ouvidos até que compreendi por fim que aquela viagem não seria tomada de ânimo leve. Porém como já disse inúmeras vezes, a coragem é coisa que não me falta. Lembrei-me do significado da palavra suástica em sânscrito “felicidade”. Ou talvez “Mal Eterno”?
Bom, estava sozinha e a inventar trocadilhos?! Seria a atmosfera tão triste e fria daquele sítio que me despertava o meu cruel sentido de humor....?
Ri-me dos meus próprios pensamentos, pondo o vestido vermelho que Serpente de Fogo me dera especialmente para aquela ocasião, e respirei bem fundo – o mais fundo que é possível a dois mil metros acima do nível do mar – e esboçando um sorriso que não passou acima de cinco segundos pelos lábios pintados de prata que brilhavam naquela escuridão. Em tempos idos, aquela rocha no meio da água fora o primeiro degrau na entrada para o magnífico e luxuoso castelo do Rei dos Bruxos, o primeiro e verdadeiro Assassino do Amor, Rwebertan Samiel Di Euncätzio. Mas agora, este castelo dum número de quartos infinitos é usado como prisão eterna para todos aqueles que desrespeitassem as leis da magia, e é definido com terror no coração como a ilha da Fronteira, a morada de todos os demónios e criaturas diabólicas que, outrora, há milhares de anos, governavam a terra.
Nos anos do venerável Kzenah Malagheti, este lugar tem sempre sido usado como sua morada, e espanto-me porque este castelo tem uma arquitectura e aspecto muito semelhante com a do famoso e grandioso Castelo de Praga. Obviamente, há mais de cinco mil anos que fora demolido por Neptuno, e o próprio Assassino do Amor fora sepultado naquele grande lago. Acredita-se que é para lá que os bruxos malvados são levados quase no fim da sua vida ou quando estão quase a ser mortos por alguém. Já tinha estado em pensões e castelos escoceses menos deprimentes que aquilo. O Pedro já ouviu falar do próprio tio que o Castelo Negro é aonde mil pobres almas de Fadas foram chacinadas, e aonde os demónios preferem atormentar os mortais. Os habitantes da vila próxima de Losjafhden dizem que ainda se conseguem ouvir os passos melancólicos e sinistros do espectro do Assassino do Amor a subir as escadas do terrivel esconderijo! Superstições parvas, é claro...Que eu saiba, nunca acreditei em fantasmas....Quer dizer, não gosto deles!...
Lá estava eu, sentada naquela pedra, naquela insignificante pedra, observando a paisagem morta e seca, e, por uns meros minutos, pensei em desistir e voltar pelo caminho que aquela bruxa me tinha indicado. Engoli em seco, e senti que a minha língua bifurcada estava ressequida, precisava imediatamente de água com outro elemento. Definitivamente isto é um vale muito acolhedor e agradável, isto é para um nazi implacável, ou para o próprio Rei dos Bruxos, é claro. Não me admirava nada de ainda ver o Conde Drácula, ou talvez mesmo o Frankenstein lá nesse tal castelo.
Sabia que deveria manter a calma, senão, não chegaria a lado nenhum, e aquela demanda seria em vão. Não! Sete meses a ser atormentada em sonhos por um cruel padrasto não tinham sido inúteis. O dever e o meu coração diziam que devia encontrá-lo, onde quer que ele estivesse.
Iria avançar, fosse qual fosse o preço de ver o meu padrasto...! Sou uma mulher ou uma galinha? Pois, era uma bruxa, mas mesmo assim, tinha valentia.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

uma noite em Losjafhden (última parte)


O estafado Tezcatlipoca abriu as portas de vidro super fortes e impenetráveis qual guerreiro acabado de chegar de uma longa e dura batalha, com um sorriso na cara, resignado e guardando de uma forma desleixada o seu guarda-chuva perto do espanta-espíritos. Pensava que os problemas tinham acabado. Como estava enganado!
Primeiro, reparou que as luzes estavam acesas e o balcão estava uma lixeira; segundo, de súbito, uma grande bola de pêlo castanha e branca saltou-lhe em cima qual torpedo laranja, com a cauda a abanar e a ladrar vigorosamente.
O pobre cyborg ficou com a cara toda molhada daquele líquido viscoso, e tentou limpar-se sem êxito, ao ver que o cão estava determinado em deixá-lo em pior estado do que tinha quando entrou em casa.
Levantou-se de rompante, e deu algumas festas ao fiel animal de grande porte, com um sorriso de quem perdoa facilmente.
- Pronto, Bravo! Eu também estou feliz por te ver. – Comentou entre dentes. – Sabes onde está o Pedro?
O cómico S. Bernardo começou a correr, balançando-se e subindo as escadas de forma bastante ridícula, sempre a babar-se.
Pedro contou-me nas aulas que Bravo chegara às suas vidas desde que o meu amigo especial tinha dezasseis anos, e nessa altura, o cãozinho era um fofo e não pesava quase nada, mas agora, parecia-se mais com um verdadeiro bucha anafado, e às vezes é um pouco brincalhão. «Qualquer dia, temos de comprar um elevador para a pobre criatura, caso contrário, ainda vai cair nas escadas!» Comenta com os olhos revirados e de forma sarcástica o tio do Pedro.
Adiante, ele seguiu com dificuldade o seu animal doméstico preferido, até ao quarto da porta verde-clara, donde saía música hard-rock a altos berros.
Muito alarmado e com os olhos arregalados que nem dois tomates podres, foi com as sobrancelhas muito carregadas e com um olhar austero que o tio do meu amigo entrou muito irritado no seu quarto, precipitando-se como um canhão para leitor de CD’s.
Para o cansado Tezcatlipoca, já bastava os Bruxos com a nossa «...idiota...» e «...maluca...» mania do Dia das Magias Negras, agora ter de aguentar com as manias madrugadoras do seu único sobrinho.
Olhando para o Pedro, o velho cyborg muito zangado, carregou violentamente no botão para desligar a “música infernal”.
Acabando de fazer isto, baixou-se para o rapaz moreno, alto e de olhos castanhos pequenos que não parava de tocar a guitarra vermelha-escura com grande êxtase e retirou-a de uma forma bruta.
- Por favor! – Exclamou ele em voz alta, mas logo mudou para um tom mais baixo para que não perturbasse a vizinhança. – Enquanto viveres nesta casa, homenzinho, o silêncio à madrugada é de ouro!
Obviamente que o jovem cyborg objectou a opinião do seu encarregado da educação, nós, adolescentes, costumamos ter um espírito livre, e não gostamos quando os “cotas” da nossa família venham “melgar” para o nosso local favorito, ou seja o nosso quarto, é por isso que Pedro também ficou um pouco aborrecido pelo tio vier irromper pelo seu local e ter desligado a música sem ter pedido autorização.
Ele bateu com a mão na perna direita metálica, fazendo uma cara de amuado.
- Oh, mano! – Disse chateado. – Só estava a curtir umas músicas, tio....Também já não se pode ter uns minutos de descanso, é?
Mas o stôr Tezcatlipoca não quis saber nem dos “mano” nem dos “curtir”, e apontou com rigidez para o beliche vermelho desportivo da Ferrari.
- P’ra cama, homenzinho! – Mandou friamente. – Imediatamente. E não te esqueças de lavar os dentes…Queres ficar sem dentes?
Ao pegar na sua escova e no pijama, o rapaz olhou o seu tio um pouco envergonhado.
- Tio, eu já não sou nenhum puto de nove anos! – Respondeu submisso.
Com as mãos nas ancas, Tezcatlipoca arranjou facilmente argumento para aquele comentário insolente e disse:
- Estás com muita sorte por eu não ter-te tirado a guitarra até teres dezoito anos, homenzinho, porque era isso mesmo que eu queria fazer, se não estivesse afogado com tanto trabalho pelas orelhas!
Acabando de vestir o pijama, o insubordinado rapaz, ainda comentou, meio, deprimido, sem saber o que fazer senão obedecer às ordens do seu tio:
- O Dark Sword nunca me teria levado para a cama. Até aposto que o Euncätzio é mais porreiro que o tio.
Mal disse isto, fechou a porta na cara de Tezcatlipoca com desprezo e deitou a língua de fora, sem nenhuma consideração pelo velho e experiente cyborg!
Porém, o tio não ficou zangado, pelo contrário, suspirou com grandes remorsos a pesar-lhe na cabeça, e, olhou lentamente uma última vez para o poster, abanando a cabeça desapontado, nesse momento, houve qualquer coisa no seu olho que soltou-se.
- Se é isso que pensas de mim, meu rapaz, então é porque não conheces de todo a tua família! – Indagou secamente.
Assim triste, foi para o seu quarto trabalhar, sem saber que o seu sobrinho não tinha nenhum afecto pelo pobre coitado.
Na trágica verdade, o Pedro tem andado tão estranho, tal como a maior parte das pessoas simpáticas que se encontram neste mar de corrupção. Estava preocupado comigo, e mesmo que estivesse a usar o anel, o dele continuava a brilhar numa cor completamente vermelha de sangue! Assustado com as histórias que eu lhe contara acerca do meu Padrasto e sobre as minhas intenções de ir visitá-lo ao Castelo Negro, de potenciais perigos.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Uma Noite em Losjafhden (Parte I)

Fazer a marmelada com um cyborg é como dormir com uma bomba-relógio, mas Sua Senhoria também não é nenhuma santa. Afinal, ela foi a esposa do Assassino do Amor.
Que obsessão a nossa – as Bruxas – de nos apaixonarmos pelos maus: primeiro o Mestre Samiel; depois o Primo Coutinho; o Nälden e o Major Scüller (no meu caso, claro, nunca conheci ou teve uma relação a sério com o primo ou com aquele louco); e, por fim, o Capitão Goldtheeth pela Solaris.
Agora isto! E depois o primo admira-se que a vida está complicada na Atlântida....!
Bom, quanto ao affair da Madame Serpente de Fogo e do Conde James Dark Sword, o melhor é só imaginares, porque aquilo que eles estavam a fazer era mesmo quente, mais arrebatador e volátil que o próprio Inferno!
Afinal, podemos chamar desta noite, uma noite agridoce....Eh, eh, eh...!

A chuva pingava e deslizava qual enorme exército de formigas por entre os telhados humildes de tijolo do pequeno e perpendicular apartamento da mesma cor da tijoleira, de apenas um andar na bonita Inctaluatalidenistados Rue – ou Rua dos Intelectuais com rampa de aço à moderna para subir ao parque privativo nas traseiras, com vista para as varandas do Castelo das Infantas – caindo precisamente em algumas taças os pingos da bênção repetitiva de Deus, e produzindo energia para toda a casa através de uma engenhosa invenção, cuja chave e forma como funciona seria demasiado complicada para explicar num diário para adolescentes – principalmente para duas como nós! O Castelo das Infantas tinha sido construído nos arredores de Cyborg Town, nos anos 70, em honra do milésimo aniversário da ponte cultural da Bellanária com o oriente, e também no pretexto de remodelar as estreitas e sombrias ruas de Losjafhden, os arredores mais a norte de Cyborg Town.
Seja Verão, seja Inverno, aquele é um bairro muito alegre, pois todos se lembravam da colorida pastelaria do nº 7, lote C do Rés-do-Chão. Era a famosa “Nuvem Doce”, como um sinal facilmente identificável: uma tabuleta que tinha pintado um pirolito em forma de uma engraçada nuvem branca com uma cereja vermelhinha no topo. Primeira porta a contar da esquerda. De manhãzinha, no Verão, consegue-se ver o simpático e cómico Dr. Tezcatlipoca, limpando e preparando a pastelaria amarela para os clientes, andando de um lado para o outro, e assobiando de forma jovial enquanto varre o chão.
Em tempo de aulas, a pastelaria só abre às seis da tarde, abrigando os pequenos magos e fadas, estafados depois dum grande dia. Uma coisa muito boa neste sítio é que não há absolutamente demónios ou bruxos alguns. Antigamente, este era um bairro santuário para demónios e miseráveis e cyborgs, ninguém se podia aproximar, Losjafhden diziam estar amaldiçoada desde a altura em que tinham chegado asiáticos para a ilha, há milénios atrás. Contudo, a Serpente de Fogo decretou que, a partir de 1978, não haveriam mais demónios a habitar esta parte de Cyborg Town, tão antiga, tão ancestral….Se olhássemos para a Losjafhden de há quarenta anos atrás, nem a reconheceríamos, da maneira como está diferente!...
O bem e as canções que se tocam ao vivo na rua são demasiado positivas para que alguma magia negra entre. Mas, a meio da noite, ainda por cima com a chuva, no Outono, a pastelaria pode-se parecer com algo um pouco pobre, mas, ao entrarmos, vemos que o ambiente é outro. As lâmpadas amarelas acesas iluminavam as relaxantes paredes douradas, debaixo do balcão de mármore cinzento, estava um enorme cão castanho a dormir tranquilamente, e a ressonar auditivamente, é um S. Bernardo que tem um sono muito leve. Os mesmos músicos tocam uma melodia mais calmante para todos terem uma boa noite de sonho.
Ao lado direito, há umas escadas de madeira que levam até dois quartos: o da direita tem uma porta verde-clara com um poster da Cyborg Town, como figura principal o próprio Euncätzio com um sorriso hipócrita e forçado, mostrando os seus dentes brancos, com uma bengala de uma águia na mão direita a acenar para as maiores atracções da sua cidade e agarrando a Serpente de Fogo pela cintura, esta usando um lindíssimo vestido de gala vermelho, a concorrer para ver qual é o sorriso mais falso daquele poster hediondo. À parte desta coisa horrível, tudo nesta casa indica para uma sensação de bem-estar enorme. A outra porta no cimo das escadas de madeira é a entrada para o quarto de Tezcatlipoca.
Realmente era um sítio agradável para se estar, um pouco pequeno demais para meu gosto, mas agradável. Pelo que tinha ouvido dizer por parte de alguns antigos miseráveis que viviam antes da mudança em 1978, o velho deus de origem azteca tinha renunciado à sua fortuna, ao seu terrifico poder, ao seu palácio e ilha privada, ao seu vergonhoso harém de dois mil e doze donzelas – para um velho deus com mais de cinco mil anos, ele atém tem um grande sucesso com as mulheres, hã; enfim eu não tenho nada a ver com isso, mas acho que isso são tudo patranhas inventadas pelos velhos amigos machistas da pré-história do Palácio das Reuniões – para vir trabalhar naquela vila pacífica, em 1979, para poder ir viver com Susana Linsra. É óbvio que, quando isto se soube na sociedade bellante, foi um autêntico escândalo. Uma fada a viver com um deus, ainda por cima uma fada que estava noiva?!... Primeiro, culparam a mãe do Pedro por estar a desviar o “Príncipe dos Príncipes” por maus caminhos, segundo, a maior parte das deusas ciumentas que planeavam acabar os seus dias de imortalidade com um dos deuses mais invejados do Palácio das Reuniões decidiram abrir um processo para mandar fechar o Nuvem Doce, e é preciso sublinhar que a maior parte das “Senhoras”, num dos dias do julgamento, falaram como se fossem mulheres da raça dos Demónios!
Para os que não sabem – e devem ser muitos – cada classe aqui na Bellanária tem o seu próprio dialecto, digamos…O seu próprio sotaque. É suposto os Deuses bem honrados falarem o Bellante Arcaico, mas aquilo que os deuses ouviram no julgamento não era nada mais do que uma versão aristocrática de um sotaque mexicano misturado com uns quantos palavrões em Bellante Corrente!... (continua)

quarta-feira, 6 de maio de 2009

O homem da Espada Negra (Parte II)


Mal viu que o seu novo escravo da mente já ia longe de vista, o anti herói preferido de toda a Atlântida esfregou as mãos de contente, com os seus olhos esmeralda a brilhar de satisfação, os seus lábios rasgados pintados de vermelho expressavam bem como agora estava calmo e como tinha prevenido que pelo menos alguém de quem ele tinha uma certa afeição se magoasse.
«Mais um triunfo para os Cyborgs! Uma morte para evitar muitas outras, isso é que é o verdadeiro objectivo da guerra.» Pensou enquanto punha as luvas no queixo bem comportado. Porém, o seu sorriso matreiro logo desapareceu e bateu com a mão na testa, um pouco preocupado. «Ora que esta! Quase que me esquecia completamente. Há horas que eu devia ter ido deitar o meu sobrinho!
Ele tinha desferido um golpe fantástico sobre a SPV, mas agora faltava apenas uma coisinha que ele tinha em mente.
Algo de especial que ele planeava dar a uma pessoa especial há muito tempo....E notava-se nos seus olhos frios que estava a tramar alguma coisa, mas o quê?
Aqueles olhos vazios eram como uma barreira que não deixava passar nada nem um único sentimento. Seria o ódio o seu único sentimento...?
Sim, havia ódio no seu velho coração, ódio por tantas coisas, principalmente pelo seu eterno rival, o meu Padrasto. «Aquele diabo espera para quê? Ainda gostava de saber porque razão só aquela víbora se atreve a aparecer! Mas é típico daquele vilão. Agora....»
Juntou rapidamente os lábios com os dedos, assobiou fortemente, e num ápice, chegou qual cavalo veloz e no espesso nevoeiro, surgiu uma enorme limusina Rolls Royce preta mesmo à sua frente, pronta para seguir viagem para qualquer lugar.
A porta direita de trás abriu-se subitamente e, com uma habilidade para ser discreto, o conde entrou na viatura com muita rapidez e ordenou de rompante:
- Bobino! Leva-me imediatamente para o meu esconderijo.
- Com certeza, Sr. DS. – Acenou o motorista.
Lá desapareceu na bruma da noite aquele “herói”, sem que as minhas loucas visões conseguissem descobrir quem realmente o tal James Dark Sword era. Afinal, todos os heróis têm de ter um alter-ego........
Ao sentar-se, o homem de olhos, meio verdes, meio azuis, reparou numa exótica e bela mulher com uns óculos-de-sol vermelho vivos, vestida apenas com uma mini-saia de cabedal preta e umas invulgares meias de seda roxas que realçavam a cor morena da sua pele lisa e sedosa. Com uns sapatos de salto-alto vermelhos, ficava ainda mais alta do que realmente era e por cima daquela blusa rosa-choque curtíssima, que dava até ao umbigo, e desabotoada até se ver uma grande parte do peito voluptuoso. Sob o cabelo preto e longo e solto como uma cascata de petróleo, escondiam-se dois olhos cor-de-carvão provocadores com sombra escarlate e uns lábios que lhe davam um ar tanto mimado e desesperado.
Sob os ombros relativamente largos e pálidos, pendia num dos lados uma carteirinha de pele de crocodilo amarelo escuro com a qual as unhas vermelhas longas como garras de uma hárpia brincavam impacientemente.
O homem moreno e de forte constituição, igualmente de aspecto latino, explicou-se um bocadinho atrapalhado:
- Ainda tentei avisá-la que o senhor não estava disponível, mas a senhora continuou a insistir que vinha.
Dark Sword anuiu meditativamente com a cabeça, enquanto observava com desdenho a linda prenda que o ajudante lhe fora arranjar.
- Claro... – Disse ele com desprezo. – Se eu precisava de uma cobra cuspideira, pedia-te que fosses ao ZOO da Estação Manuelina.
A Serpente de Fogo pôs deliberadamente a sua mão delicada de unhas de bruxa nas calças de jeans pretas do cyborg com um sorriso sedutor.
- Oh, James...! – Suspirou ela sensualmente. – Não sejas tão modesto! Tu até que és bem giro, sabias?
- Poupe-me, Vossa Senhoria. – Dark Sword tremeu ligeiramente. – O que é que a senhora e o palerma do seu noivo andam a tramar?
Ela, fingiu-se indignada, com a mão magra na boca deliciosa de mulher de espanto.
- James! – Soluçou ela. – Não me digas que depois de tanto tempo ainda continuas o mesmo desconfiado e bonzinho de sempre...Aqueles homenzinhos estavam apenas a levar os meus brincos de diamantes.
O conde continuava a segurar discretamente na sua pistola, com receio que a bruxa tentasse alguma coisa, e olhava de relance para a femme fatale de vez em quando, um pouco incomodado.
Sim, o arqui-inimigo do James Dark Sword é uma mulher, e, pelos vistos, uma mulher muito perigosa e rica.
Nada se parece com uma prostituta do que uma bruxa rica. Ela fixou-o nos olhos e mirou depois o resto do corpo bem feito do Sr. Conde. Era um daqueles olhares que só podiam vir de mulheres demónio ou de estrelas de cinema fenomenalmente ricas e bonitas e que se destinava a fazer o pobre chefe da Resistência a trepar para cima dela como uma trepadeira numa latada.
Ainda por cima, ela trata o Dark Sword nas raras vezes que se encontram pelo primeiro nome e por “tu”.
Ele tem mais medo dela do que do qualquer outro homem.
- Diamantes esses que a senhora comprou do dinheiro roubado ao povo atlante! Eu vi o conteúdo da mala, e não era nenhuma bijutaria da loja dos trezentos! – Ripostou ele repugnado. – Também sei que a senhora tem uns certos negócios para comprar metade da Floresta de Cristal.
- Ai, que espertinho, bebé! – Riu-se ela, descaradamente. – Ai...! Sim, realmente as jóias são o meu único verdadeiro amor, para além do meu pozinho de cheirar...Eh, eh, eh...
Ao realçar vaidosamente os lábios cor-de-vinho com o seu batom, com um sorriso malicioso a bailar-lhe no rosto, acrescentou num tom trocista:
- Agora, meu amorzinho, o problema aqui, é que eu tenho uma data de meninos prontos para te dar cabo de ti. E...Se houver mais um ataque selvático como aqueles aos meus meninos da SPV, podes crer que basta estalar-me os dedos para te ver a esticar o pernil! Oh, oh...Coitadinho do meu querido James....Era uma vez um Condezinho!
Ao dizer estas últimas palavras, ela viu a sua garganta ameaçada por uma afiada adaga de dois gumes, empunhada pelo astuto e rápido James Dark Sword.
- Quem é que está numa posição grave agora, minha senhora? – Perguntou ele sarcasticamente. – Não vai livrar-se tão facilmente de mim! Eu vou descobrir o que é a senhora anda a tentar fazer com o dinheiro dessas jóias, e não vou deixar-me ludibriar assim tão fácil como os outros foram!
De repente, os intentos sensuais da Serpente de Fogo tornaram-se em certeza quando ela, com as mãos ainda livres, pegou suavemente na cabeça do seu raptor, e, com a boca perto dele, sorriu.
- Ai não? – Exclamou. – Sabes duma coisa, James? Eu sempre quis beijar esses lábios de vencedor!
Dito isto, pregou arrogantemente um grande linguado na boca do seu adversário, e, mal tocou os lábios firmes de metal do cyborg, despertou-lhe um desejo, há muito oculto na mente de software e miolos: o desejo carnal.
Os motores e sensores interiores do andróide começaram a trabalhar, e, em segundos, estavam entrelaçados um ao outro como duas aves do paraíso!