sábado, 30 de abril de 2011

O Discurso do Retorno...

Ao chegar apressadamente depois de um merecido duche, posto o creme para as borbulhas, e me vestido convenientemente, na sala de jantar para pedir o meu pequeno-almoço habitual – cereais com leite e chocolate, uma salsicha alemã com ovo estrelado e bacon, um copo de sumo natural de maracujá e duas tostas – vi que toda a família estava a comer também o seu pequeno-almoço, num silêncio sepulcral, qual cemitério com os seus cadáveres vivos, com uma cara que poderia muito bem meter medo a qualquer um.

Até parecia que morrera alguém.

Nem o Hans, o Primo Coutinho ou o Nälden – que costumam ser os mais faladores à mesa, quer seja almoço ou jantar – diziam uma única palavra.

Eu fiquei aterrada com tal melancolia, se o ambiente estava tão negro antes da “desgraça” chegar, imagina o que iria ser quando o meu padrasto estivesse por cá.

Até podiam pôr uma marcha fúnebre como banda sonora que ficava uma base…

A Serpente de Fogo à medida que comia a sua torta de maçã e natas e brócolos com batatas cozidas e ovo mole mergulhado em azeite (um prato de pequeno-almoço tipicamente atlante, que, cá em casa, é obrigatório e sabe deliciosamente) com considerável vagar, embora esboçasse um pequeno sorriso malicioso que não passou dos cantos da boca, surgia de vez em quando uma lágrima de terror que caía pela sua face maquilhada e pálida; a Katharina arranjava minuciosamente o seu cabelo louro enquanto servia aos restantes o leite, sem pronunciar palavra, mas com um sorriso ainda mais impaciente que a Rainha da Bellanária. O Rutger e o Ernst brincavam sem vontade nenhuma com as demónios, a tremerem de medo, tanto os dois alemães como as japonesas. Todos os servos da casa permaneciam profissionais e duros consigo próprios, sem qualquer expressão de sentimento. Hans tentava em vão ver se os seus livros de Educação Física e Ciências Negras da Faculdade serviam para aguentar as gomas e tosta mista com salsichão mais um copo de sumo de maracujá.

Tentei esboçar um sorriso ao ver aquela cena, mas Tsuna e Solaris tão-pouco queriam consumir os seus morangos com tostas e sumo.

Apenas o Tio Karl resmungava enquanto lia um livro em Alemão e bebia um copo de absinto perlado, segundo os meus poucos conhecimentos – que a propósito dava o seu nome à revista – era acerca dos graves atentados executados por bruxos do Afeganistão e Iraque. Pela primeira vez em duzentos anos, não tinha feito a barba, e entre os seus palavrões incompreensíveis em Alemão, ouvia-se algo como «.…Orientais ou Ocidentais, é tudo a mesma coisa. Mas não faz mal, porque, daqui a bocado, todos nós havemos de demonstrar do que é que os Bruxos são capazes…»

Ao contrário dos outros, haviam duas crianças muito morenas e incrivelmente semelhantes, se não fosse a diferença de sexo que brincavam sem quaisquer preocupações com os dois guardas e com as outras meninas. Pareciam tão felizes e ansiosas, só os Deuses sabiam a razão de tanta alegria…!

Para aliviar as coisas um pouco, tentei dar um empurrãozinho para a conversa, e tentei mais uma vez, um largo sorriso de orelha em orelha, para a família ficar mais feliz por rever a ovelha negra, encolhendo os ombros, e pondo inocentemente as mãos nas calças, como se fosse um dia normal.

Hans finalmente participou na conversa, a gaguejar no fundo da sala com uma voz fina:

- Jessica, vai dar um passeio pela Cyborg Town…Irás descobrir que os malvados fuinhas da SPV prenderam e torturaram mais Cyborgs, Humanos e Fadas do que o costume! Isto é tudo por causa do novo Rei dos Bruxos ter sido libertado do Castelo Negro...!

Maximilian Oniphrius abanou a cabeça tristemente, em sinal de que concordava com o sobrinho.

- Nem a Fada do Inverno nos veio visitar, todos os fantasmas e demónios da Cidade Perdida estiveram silenciosos desde que aquele crápula ganhou liberdade! Maldito Dia da Magia Negra! - Acrescentou lugubremente, ao olhar para o relógio do átrio. - A reencarnação do Assassino do Amor estará aqui dentro de quatro horas.

Os fantasmas das minhas tetraavós acenaram com as cabeças com os fogos-fátuos a pairarem sobre as cabeças delas. Os seus olhos tornaram-se mais sombrios enquanto comentaram em conjunto:

- É verdade que o Mestre vem cá…Nós, fantasmas, fadas e demónios pressentimos melhor estas coisas do que a maior parte que os outros seres…

Ao dizerem isto, a chorar muito infelizes, as pobrezinhas correram a fugir da fraca luz que iluminava a deprimente manhã.

À medida que os pesados ponteiros da torre da Cidade dos Deuses avançavam, conseguimos ouvir de Cyborg Town, lá de longe, apenas as marchas lentas dos soldados da SPV, julgando-se os melhores bruxos de sempre por serem os primeiros a anunciar a chegada de um bruxo com a magia equivalente à do Assassino do Amor. Aquelas passadas ao ganso não enganavam ninguém. Daqui a pouco já percorriam o nosso elegante bairro e iam fazer barulho.

A mulher mais velha do Château, mais para não dizer a mais convencida, suspirou como se não fosse nada com ela, bebendo naturalmente o seu sumo natural à base de couve-flor, sem corantes nem conservantes.

- Vá lá...Até parece que o Reini é assim tão mau! - Disse a minha mãe, ajeitando a sua mini-saia de cabedal escura e ao mesmo tempo, à procura do seu batom mais sensual.

O Nälden aproveitou a altura para se levantar delicadamente, esboçou um sorriso amarelo e ergueu a sua chávena solenemente até toda a gente desatar a pequenos risos e sorrisos por parte do seu coitado público.

Realmente aquele não tem remédio, mas é bom ele ter essa ideia de animar a família, é para isso mesmo que eu e ele estamos aqui: para impedir que a Escuridão e Tristeza se apoderem desta casa e do maravilhoso reino de conto de fadas que ela simboliza.

Esticando o mindinho mais longe que podia, riu-se também, e, pousando com cautela a chávena, declarou com doçura bizarra para um homem:

- Não falemos disso. Para mim os caprichos são hóspedes do Mal. “Sempre com o espírito ligeiro, dançar, cantar e beber toda a vida, é esse o melhor ideal!” Por exemplo, havia uma vez uma pobre prima minha sonhou que a porta do seu quarto se abria…

Mas o velho Tio Maximilian Oniphrius não quis saber e ergueu a sua mão rapidamente, fazendo compreender que esta não era a altura certa para haverem piadas de mau-gosto e num segundo, olhou-o severamente.

- Por favor, Nälden! Cala-te! - Disse ele friamente. - Não quero mais detalhes sobre as tuas amaricadas parvoíces. E ai daquele que mencionar uma vez mais aquele ser desprezível! Eu juro que lhe corto a língua pessoalmente!

Depois levantou-se da sua cadeira, com o nariz empinado, e dando largas e majestosas passadas, abriu as portas como se tratasse um desafio ao seu viril valor. O meu querido tio aguenta tudo, ele é um calhau...quer dizer, ele é uma rocha, duro que nem uma rocha! Pois claro, é um Von Tifon. O Tio Maximilian é o irmão mais novo a seguir ao Tio Karl Honestoffmann von Tifon (os irmãos do meu avô Adrian), e é tambem um dos bruxos mais benevolentes que eu já conheci. Acredita em mim: debaixo daquele aspecto de durão, está um homem muito bondoso.

Lançou-nos um ar triunfante enquanto se dirigia qual velho e leal leão, rei da selva para o seu próximo desafio para as portas do átrio que davam para o largo carreirinho que por sua vez ia dar lugar aos portões onde ao seu lado estava estacionado o seu Mercedes Benz prateado - o Tio Maximilian tem cá um estilo não achas? - com a chave na mão direita. A minha mãe, o Rutger, o Ernst, o Tio Karl, iam com ele. Iam buscar o meu padrasto ao Castelo Negro para o receber com condignidade...Acho que é assim que se escreve.

Os olhos do meu tio brilhavam com orgulho. Isso significava um discurso, um longo, maçador e estúpido discurso acerca das grandes vitórias e derrotas da Magia e sobre os feiticeiros. Começou primeiro a dizer que não era à toa que o meu padrasto ia ser libertado no início do Inverno. A seguir, prolongou-se numa frase a dizer que apesar de não gostar muito do meu padrasto, este seria talvez o primeiro passo que a Magia Negra alcançaria para atingir o apogéu de dias idos. Ele, que já é um feiticeiro dos seus duzentos e cinquenta anos, sabe muito bem disso. Ele é da época antes do Tratado da Magia Universal. Clamou para termos esperança de dias melhores, e que a batalha ainda mal tinha começado. Que nós, como representantes altíssimos dos antigos guerreiros astecas humanos que sacrificavam os prisioneiros aos Deuses, os que tinham tomado o lugar dos fidalgos dos Humanos, e os que agora se viam num período de decadência e de incerteza, só tinhamos razões para nos alegrarmos com esta chegada. Ele quase que não tinha palavras para expressar a insegurança, e talvez, a dúvida que palpitava no seu peito. Mas tinha qualquer coisa ali dentro do seu coração - ou lá o que é que nós os bruxos temos - que lhe dizia, que isto não era o fim, mas apenas o começo de uma era próspera, tanto para bruxos, como para Humanos, Fadas, Demónios, Cyborgs e Deuses.

Nós somos muito vaidosos...quanto mais o Tio Maximilian. Mas ele é porreiro. Um pouco dramático de mais, mas porreiro. Ainda por cima, ele tinha bebido demais ontem à noite, pelo que cada uma das frases que ele dizia era interrompida pelos soluços do álcool. O Tio Karl, que gosta muito de dizer piadinhas, perguntou quando o Tio Maximilian disse que tinha qualquer coisa no coração:

- Isso não será ar na canalização, maninho?

Toda a gente (incluindo as fantasmas das minhas tetravós e a Tia Charlotte, a irmã da minha mãe Katharina) desatou a rir. Enquanto isso, o Tio Maximilian não se cansava de dizer:

- Silêncio, por favor!


Com o discurso terminado, ele deixou que o sobrinho Rutger lhe vestisse o caro e comprido casaco de pele azul-escuro, e, com a espada de Milshatoranfang (a espada ceriminonial do Duque com um design japonês, oferecida pela Senhora Shamanarta ao primeiro Von Tifon, há centenas de anos atrás) embainhada à cintura do feiticeiro principal da Família von Tifon, com um ar solene e aristocrático, ele dirigiu-se, acompanhado pelos sobrinhos e pelo irmão, até ao carro. O meu tio tinha umas botas castanhas-escuras e umas luvas brancas. Normalmente, os bruxos - as bruxas também gostam de usar luvas, mas é muito raro eu ver a minha mãe Katharina a usar luvas - gostam de se vestir muito bem.

Dez minutos depois, já nem se distinguia as luzes do carro no meio do nevoeiro matinal. Não há dúvida que o Tio Maximilian Oniphrius sabe falar....pois claro!

Sim senhor, a isso é que chamo falar em público, muito bem! Estava muito bom, aquele discurso a sério que sim. Achaste pateta? Para ser franca, era um pouco pateta, mas nem assim tanto! Eh, eh, eh…



terça-feira, 19 de abril de 2011

O Pior Pesadelo Torna-se Realidade


"O segredo que o teu pai carregava era de estado, e ninguém – excepto os demónios – sabia que ele era um bruxo extremamente poderoso, um senhor das trevas, aquilo a que o Vaticano chamaria de um servo do Diabo. Toda a gente pensava que ele era um humano prodigioso, que raramente saía de dia, e com umas armas que atingiam sempre o alvo. Eu conhecia-o como o Faquir de Praga, e ele conhecia-me como Reichsprotektor Heydrich. Nenhum de nós tinha visto a verdadeira aparência por detrás dos nomes, por detrás dos rumores.

Ou como eu costumo dizer: nenhum de nós conseguia tirar a máscara um do outro. O teu pai era sem dúvida alguma, o maior e mais poderoso inimigo que eu já alguma vez conheci em toda a minha vida!

Durante a guerra, eu tinha pensado que ele era um humano, tal como eu. Ele não se vangloriava das suas vitórias, como o Conde Dark Sword ou os amigos da Sara. Na verdade, era um sujeito mais ardiloso e mais astuto do que qualquer outro feiticeiro.

Quando um dos meus informadores conseguia apanhá-lo (através dos relatórios, feitos, obviamente, à pressa) já ele os tinha eliminado, rápida e silenciosamente.

Tenho de confessar que o teu pai foi o único que eu não consegui apanhar, e isso, frustrou-me ainda mais quando a Princesa fugiu. Por outro lado, ensinou-me que em Praga, a Resistência contava com a magia, e desta vez, era magia que eu desconhecia, da qual eu nunca tinha ouvido falar.

Himmler nunca foi informado disto – e nem precisava. Afinal, este era um adversário à minha altura!"

A descrição da maneira como o meu pai actuava em espião encaixa perfeitamente com aquilo que eu ouvi da boca do meu próprio “avô”. E é verdade. O meu pai era um mestre na arte de mentir, seduzir, e…matar!

Por outras palavras, “…era um assassino! E todos os homens e mulheres numa guerra o podem ser, Jessica.”

Engulo em seco ao pôr estes pontos finais e estas citações. Até parece que o meu padrasto me está a controlar para dizer coisas dessas.

Tenho de descobrir mais sobre a família do meu pai. Heydrich apenas me tinha falado sobre o inesperado pedido em casamento e sobre a forma como o meu pai tinha entrado, de uma forma quase insolente, pelas portas do palácio von Tifon.

É fácil para ele dizer isso. Ele…mas não vamos tomar conclusões precipitadas. A Tsuna continua a observar-me a escrever. Só espero que não conte nada. Ainda bem que ela só sabe falar, ler e escrever Bellante, e não Inglês. À excepção do Bellante, ela sabe o Alemão, o Português, e…O Mandarim.

É por isso que guardo, muito cuidadosamente, o meu diário. Se alguém neste palácio ousar tocar no meu diário… Adeus dedinhos!

Respiro bem fundo, ao olhar de relance para o mostrador. Já é meia-noite. Eu ainda queria saber mais sobre como raio a minha mãe tinha descoberto que estava grávida. Mas parece que o meu padrasto se tinha ficado pelas partes mais “chocantes”.

Que conveniente.

Pelos olhinhos de cachorro da minha irmãzinha, ela quer que eu lhe conte uma história. Que infantilidade. Eu não sei contar histórias sobre dragões que salvam o Império do Meio, ou sobre macaquinhos com forças extraordinárias.

A luz do outro lado do quarto abre-se: é o meu padrasto, que, com o seu elegante roupão verde-escuro e o seu cabelo louro desgrenhado, acabado de tomar banho, parece convencido que sabe contar histórias de fadas.

Parece definitivamente outra pessoa! Com ele, vem os meus primos mais novos, os filhos da minha tia Charlotte.

O Fran (diminutivo para Francisco) e a Chan (Elisabete), os dois pequenos gémeos, saltitam, um pouco excitados.

Eu sou demasiado velha para coisas como estas. Mas enfim. Lá me sento com eles e, de uma forma simpática, ouço aquilo que o “Carrasco”…perdão, que o meu padrasto tem para contar para nós os quatro.

E esta comodidade quase familiar, esta “pasmaceira” faz-me pensar nos dias em que o meu pai (provavelmente quando eu era mais nova que a Tsuna ou quando tinha a idade da Chan e do Fran) me contava umas lindas histórias sobre príncipes e princesas.

Mas nessas histórias, os príncipes não eram monstros ou sapos. Não havia bruxas nem demónios japoneses. Havia mas é os bailes com as suas valsas, a sua música clássica, os seus candelabros, e as princesas com os seus magníficos vestidos todos cor-de-rosa de gala. Sim, porque o meu pai achava que os príncipes tinham que ser belos, corajosos e muito românticos.

Caramba como isso era enjoativo! Pelos vistos, a Tsuna e a Chan gostam de ouvir mentiras. Mas quem não gosta?

Ah, sim, pois claro, o patinho feio da Jessica von Tifon, a maria-rapaz da Jessica que usa umas botas e calças à militar desde os treze anos. A Jessica von Tifon que nunca se comoveu ou achou graça a um filme da Disney.

A Jessica von Tifon que está irremediavelmente apaixonada por um rapaz mais novo, mais pobre e mais bondoso do que ela! A Jessica von Tifon, que é descendente de bruxos malvados!

Vou fazer orelhas moucas aquele estúpido, é isso.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Diário da Jessica: 13 de Dezembro de 2005 (Parte II)

“…Era mais do que óbvio: se não fosse a Princesa Sara, eles já podiam estar na bancarrota. Ela tinha tomado conta dos campos, das hortas e de tudo o que incluía a indústria têxtil da família. Tenho de tirar o meu chapéu diante do trabalho que aquela maravilhosa mulher fez com uma cidade quase perdida e na falência. Se não fosse pelos meios de diplomacia, pela sua maneira delicada e sensível de resolver os problemas, talvez eu tivesse conquistado a Cidade Perdida mais cedo…Mas eu estava preso num caixão de gelo…”

Tal como o meu Padrasto me disse, os comunistas, os Nazis, a guerra, tudo aquilo tinha arruinado por completo o ducado.

A minha tia em segundo grau, a Sara, fez todos os possíveis para que os comunistas não saqueassem o ducado depois da guerra, mas era inevitável.

Porém, agora, sem a Sara…Parecia que não havia esperança nenhuma para a família von Tifon. Com os olhos do Destino postos nos três descendentes da Família que ainda podiam reproduzir (Couto, Charlotte, e Katharina) parecia que aquele era o fim de uma longa dinastia de duques alemães.

“…Foi então, que, num dia de Outubro, em que as folhas se levantavam, e eu sentia o frio daquela prisão, mais do que nunca, os ventos (ou melhor, as sílfides, elas tinham sempre pena de mim e vinham falar com o meu caixão, como se eu já estivesse morto, mas eu estava bem acordado, só não me conseguia mexer-me) contaram-me que tinham visto um homem estranho a passear em frente das grades que rodeavam o palácio…

Por mais estranho que pareça, eu nunca conheci Thomas Migntetiyte antes, durante ou depois da guerra. Sim, para mim, ele era um completo mistério. Um mistério que merecia ser resolvido.”

Oh, padrasto, quando eu ouvi esta história pela primeira vez, o meu coração quase chorou de tão emocionado que estava! Uma vez, o Rei dos Bruxos Kasimir Malaghetyev disse: “Um bruxo só se apaixona quando as lágrimas são de cristal, um peixe negro beija uma flor de lótus branca, e a Lua branca parece pintar o céu de dourado!”

Da forma mais impressionante possível, Heydrich tinha chorado lágrimas de cristal no seu caixão, por Sara. E da mesma maneira, Katharina von Tifon (a minha mãe) e o meu pai tinham feito sexo enquanto a Lua cheia e branca parecia um grande holofote sobre um palco dourado.

O Rei dos Bruxos tinha dito aquela frase de uma maneira irónica. Como se fosse impossível que houvesse lágrimas de cristal, peixes a beijarem flores, e uma noite em que o céu estivesse dourado e a lua cheia branca.

Mas estas coisas aconteceram de facto. E eu pergunto-me: “Num mundo onde o amor parece ser quase uma coisa mais inevitável que a morte, mais inevitável que o ar que respiramos, que o sangue que cresce em todas as criaturas, que nasce da árvore da Vida e da Morte, essa coisa mais preciosa, então haverá mesmo Mal em nós, esses que são chamados de Bruxos?”

Não consigo evitar, acho que eu própria estou um pouco romântica. Tão romântica, mas tão romântica, que não sei se vou conseguir terminar a história antes que comece outra vez a chorar.

É por isso mesmo que ouvir música metal é bom nestas ocasiões. Uma pessoa não pode borratar o papel todo com tinta-da-china com tanta choradeira, não é verdade? O meu padrasto bem me diz que eu me devia deixar destas “porcarias”, mas quem não disse que os bruxos mais velhos não gostam de rock ou música da pesada?

Eu tenho a ligeira impressão que a maior parte das músicas e bandas neonazis são financiadas pelo próprio Carrasco em pessoa.

Vou-te contar um segredo: quando era pequena, eu tinha um fraquinho por metalheads, e muitas vezes o Pedro tem de amarrar o cabelo num rabo-de-cavalo para não lhe atrapalhar nos seus momentos de “inspiração”.

Se fosse o meu pai, esse é que era um deus da música! Ironicamente, Thomas Migntetiyte também era um pouco rebelde. Ele adorava o jazz, e quando lhe apetecia “chatear” alguém, lá estava ele com o seu saxofone!

Lá diz o provérbio bellante: “Nunca conheci um feiticeiro que não fosse um músico!” É claro que eu desatava às gargalhadas quando o meu “avô” me contava que “seduzia” as senhoras com os seus talentos musicais.

Eu sei, não sou lá muito bem-educada em fazer pouco do meu próprio pai. Mas não acho que ele fosse do tipo musical. Acho que quando ele pegava num instrumento, toda a gente devia desaparecer da sala.

Acho que o meu pai era mais do tipo que convidava uma senhora para uma caminhada na floresta e, logo quando estavam sozinhos…bem, vocês sabem o que é que acontece quando um bruxo está sozinho com uma mulher indefesa.

Graças aos Deuses que não vivemos nos anos 50 ou 40! Já alguma vez imaginaste usar daquelas saias horrorosas, coloridas e longas que se usava no período jurássico?! Eu estou perfeitamente bem com as minhas calças à militar, as minhas botas, e os meus jeans azuis.

Mas…não achas que eu não estive a jogar as cartas que Heydrich sempre quis que eu jogasse? Uma coisa que eu não sou é estúpida, e a verdade é que me tornei exactamente naquilo que o meu pai não queria que eu me tornasse.

Ao negar a sua própria existência, o facto de ser um feiticeiro (apenas para me proteger da minha família, dele próprio e do Heydrich), o meu pai começou – segundo o próprio Heydrich – a perder os seus poderes. Começou a envelhecer tal como qualquer ser humano comum e o seu aspecto há muito belo e atraente desapareceu, tal como pó numa ampulheta.

No princípio, achei isso um pouco inacreditável. O meu pai continuava sempre com uma juventude impressionante – de cabeça, é claro. Por que de resto, ele era o meu avô, antes de tudo isto começar.

Isto torna-me um pouco depressiva, pensar que sou ambiciosa, fria, cínica e má. Estás a ver no que dá ao contar sobre o passado da minha família? Fico toda fungosa e idiota. Mas isso significa que tenho sentimentos. Se estivesse aqui a escrever, a escrever, a escrever, como se fosse uma máquina, isso queria dizer que era um saco podre sem coração, como a minha mãe, ou pior, como o Heydrich!

Enquanto estou quase a começar a continuar o romance a história do meu pai e da minha mãe, alguém bate à porta.

Oh, é a beta coitadinha e boazinha da filha do amigo do meu padrasto, a Tsuna.

- Posso entrar? – Diz ela, já a abrir a porta, um pouco timidamente, como se nunca tivesse ouvido falar em privacidade, ou como se fosse cega o suficiente para notar o grande círculo vermelho com letras bem gordas e negras “Proibido Entrar” no fundo branco, colado na minha porta.

Ok, tenho de admitir que não sou lá muito bondosa com a minha irmã adoptiva, mas eu estou a escrever, e ninguém me perturba quando eu estou a escrever no meu diário….Ah, quer dizer, quando estou a escrever os meus poemas…Ah não! Que estupidez é essa que tu estás a escrever, Jessica?!

Por causa daquele anjo com olhinhos em bico, estás a baralhar-te toda!

- O que é que é estás para aí a escrever? – Pergunta a rapariguinha de catorze anos. Obviamente que ela não percebe os meus “iletrados gatafunhos”, como diz a minha mãe Katharina.

- Não tem nada a ver contigo! – Respondo eu, com uma cara de poucos amigos, tentando mandá-la embora ao atirar uma das almofadas leopardo que a minha mãe me ofereceu como presente de Natal. E quando me refiro a “almofadas leopardo”, não estou só a falar de almofadas que imitam a pele dos leopardos, mas sim de almofadas que imitam leopardos!

Pode parecer um pouco estranho uma miúda como eu gostar deste tipo de coisas (e nem gosto!) mas a minha mãe simplesmente tinha que me oferecer algum tipo de peluche que se parecesse com um animal feroz.

«Na Bellanária é um sinal de boa sorte ter um felino perto da cama…é para as…para aquelas noites especiais…!»

E, quando ela diz isso, eu acabo por dizer: «Sim, mãe! Eu percebo porque é que a mãe só ficou grávida uma vez!»

- Ai…estás a escrever sobre os símbolos fálicos nos dentes dos leopardos? – A minha irmã é tão inocente! Provavelmente ou foi a Katharina, ou o meu padrasto que lhe contaram sobre aquilo! Caramba, porque é que tinham de pôr uma porcaria daquelas na boca dos pobres animais?

Já não basta estarem mortos… Até parece que estão a fazer outra coisa. Bem…eu acho que a minha irmã não sabe o que a palavra “fálico” significa, ou já tinha entrado em fase de coma por ignorância mínima.

Fico muito envergonhada, e até parece que vou explodir de fúria e dizer o que o “Papá Reini” e a “Mamã” são, mas não tenho coragem para assustar a pequena criatura, tão frágil e tão…pronto, não vou dizer patética ou ridícula, vou dizer…coitadinha.

- Ah…são só coisas…sobre a Mãe e o meu Pai… - Digo, quase tão sinceramente quando como falo com o Pedro.

- Oh, que fofo! – Exclama ela, como se estivesse a ver uma daquelas telenovelas que algumas vezes passa na televisão e que ela e a minha mãe gostam tanto de ver. – A Mamã disse-me que o encontro entre ela e o teu Papá foi super romântico, com velas, a luz da lua cheia, um monte de flores brancas a nascerem no Rio Bênção…

Bem, quem diria! Eu abano a cabeça, admirada…A minha Mãe contou a sua versão à Tsuna?! Claro, a versão do Heydrich era demasiado….Crua! Talvez a Katharina tenha sido sensata ao ponto de não ter referido que o “acontecimento” foi mesmo uma relação sexual!

Com os olhos esbugalhados, eu reclino-me na cadeira e quase que fico espantada por aquilo que a Tsuna conta-me. Claro, a versão das “velas a flutuar no rio Bênção a brilhar com as flores brancas de lótus, as mãos do Thomas e as minhas entrelaçadas juntamente com os nossos corpos perto um do outro, com um aroma a canela e baunilha a pairar no ar, a observar a linda lua no céu de ouro” é muito mais agradável.

Mas aqueles momentos, de acordo com o meu primo, apenas chegaram quando o meu pai, com o seu estranho rosto triangular, o seu aspecto escanzelado de acrobata de circo, e com os seus grandes olhos verdes, decidiu pedir em casamento a minha mãe.