sábado, 15 de março de 2008

Katharina - "a Pétala amarela da flor do Medo"


* Escrito no Dia da Magia Negra, 31 de Outubro de 2005 - Então estamos prontos para uma festa de arromba? é claro que estamos! Hoje não é dia para melancolias!


Por falar em dramas e tragédias, acabei por observar atentamente à minha direita o retracto da minha mãe, a bela Catarina Von Tifon – a Pura Bruxinha, como alcunha de tudo e de todos – mesmo diante do cadeirão no canto direito inferior do átrio onde o primo costuma sentar-se para beber um licor, e lá estava o Duque, com o olhar fixo na tela do quadro, completamente cativado e comovido pela formosura da mulher.
A divisão do átrio já era muito iluminada, mas agora, com aquela mulher, com aquelas suas pérolas azuis, lindamente pintadas a óleo, que complementavam uma cor bege natural, mesmo linda, aquela sala parecia ser o centro do mundo! Fechei, curiosa, o livro, por que é que o meu primo se sentia tão pensativo e nostálgico?...
O respeitado duque alemão suspirava de cinco em cinco minutos, sempre que cruzava o olhar com a falecida tia e, com o copo vermelho na mão direita grande, murmurava palavras em Alemão entre soluços disfarçados pelos goles intensos da bebida.
Eu sabia que ele não gosta de falar na minha mãe, mas…Será que haverá outra causa para além da misteriosa morte de Catarina Elisabeth Von Tifon, a falecida Duquesa e herdeira da fortuna dos Von Tifon, a lindíssima e tentadora proprietária e gerente da Clínica Bel B, uma há muito falida clínica de psicologia de Bruxos…?
Quase que não sei nada acerca da minha “mamã”, mas se ela tinha miolos, tinha.
Sei também que ela e a bruxa da Serpente de Fogo eram grandes amigas, mas esse facto é muito duvidoso…Como é que a Mamã pode ter gostado duma pessoa como a corrupta princesa do mal!? Mais; como é que ela pode se ter apaixonado uma única vez que seja pelo meu Padrasto?!...
Enfim, nos tempos como aqueles – os Anos 30 e 40 – deviam estar-se mesmo desesperados para arranjarem “amigos” e “amigas”, se é que estás a seguir o meu raciocínio.
Ouvi dizer que, nesses tempos, a crueldade e volúpia dos Humanos e dos Bruxos na nata das natas na Atlântida era equivalente, portanto, era muito fácil imaginar a minha mãe a fazer poucas-vergonhas!
Estava curiosa, pronto! Levantei-me silenciosamente, com receio que o primo me ouvisse, e tentei ver por mim própria o que é que aquele retrato tinha de tanto especial para o meu primo estar ali, exactamente duas horas, especado a vê-lo.
Fiquei espantada ao ver a beldade que a minha própria mãe biológica era: o cabelo amarelo de trigo encarrapitado num lindo penteado mesmo à alemã, a envergar um elegante casaco de mulher Chanel castanho, com umas botas de salto alto bege muito resistentes. Tinha umas luvas de seda brancas que a encaixavam na perfeição nos dedos de bruxa, magros e com unhas pontiagudas. Catarina – ou Katharina em Alemão – era uma mulher muito alta, provavelmente com um metro e setenta e cinco, e um sorriso brilhante duma verdadeira estrela de cinema.
Pela cara, teria os seus trinta e dois anos quando fora pintado aquele quadro, mas estava tão bonita que nem se via um sinal de rugas ou velhice. Aquela cara dava-me uma sensação de conforto: parecia um anjo...No entanto, pelo cigarro pousado atrevidamente - Na Alemanha dos tempos de Hitler, era de mau tom uma mulher fumar em público, pensavam logo que era uma prostituta, ou uma empregada dum bordel ou dum clube nocturno - na mão direita, se pensaria que ela era uma mulher muito influente.
Recostada num chaise longue de pele de chita super moderno, confortavelmente instalada num amplo escritório com paredes de pedra polida branca e cinzenta que adivinhei ser o dela, a minha mãe parecia mais uma actriz de cinema alemã do que uma psicóloga de renome, principalmente naqueles tempos.
A minha mãe parecia tão feliz, tão senhora, tão maravilhosa…!
Não me admirava que o meu primo estivesse ali a admirá-la, aquela deusa nórdica com lábios mais carnudos e o peito mais avantajado que ele alguma vez vira!
Pelos vistos, ela ainda não usava anel de noivado nessa altura, o que poderia muito bem ser tratada como Herrin Herzogin Von Tifon, Fräulein Katharina Von Tifon, Fräulein Von Tifon ou até mesmo Frau Doktor Von Tifon. Isto aqui era várias formas como se poderia tratar a minha mãe. A informal…Essa é que eu não sei.
Soltei propositadamente uma tosse leve, quase como se estivesse a rir-me da figura de parvo que o meu primo estava a fazer.
Toquei-lhe suavemente nas costas, duma forma muito maternal e chamei o seu nome docemente, quase num sussurro na orelha:
- Coutinho, o que estás a fazer aí?
Escutou-se um estalar de vidro no chão, consequência óbvia do meu primo se sobressaltar sobre a cadeira e o copo ter-lhe escorregado facilmente das mãos gordurosas.
Virou-se para mim com um ar temeroso, como se quisesse pedir desculpa, com imenso medo, e, nuns minutos patéticos, ouvi o vozeirão num tom nervoso e preocupado:
- Nada, querrida tia! Nada, eu…
Ao cair finalmente na realidade, como se estivesse caído estatelado dum precipício, olhou com um ar autoritário e confuso para mim.
- Ai...Jessica! – Exclamou, aliviado. – És tu, por esses olhos cor de safira, até podia jurar que era a tua mãe.
Soltei uma risada atrevida, sentando-me lentamente ao lado do primo numa cadeira e, lançando-lhe um olhar confiante, perguntei:
- A Mãe era assim tão bondosa e bonita?
- Se estás a referir que a clínica dela era uma fantochada qualquer para arrancar confissões de inocentes cidadãos alemães, judeus ou outro turista a fim de entregar as suas fichas e trabalho recolhido aos porcos da Gestapo, então sim, era um trabalho bem pago e que lhe dava a oportunidade de exercitar os seus conhecimentos acerca de psicologia aprendida em Oxford. – Respondeu de imediato, com vários sinais de arrependimento. – Ela gostava muito de Inglaterra, era como uma segunda pátria para ela, a guerra mudou a sua perspectiva radicalmente em relação a tudo. A guerra e o teu odiado Padrasto. Aquele…Aquele Schwein lavou-lhe completamente o cérebro!
Dizendo isto, engoliu furiosamente o licor, à medida que as suas mãos, escoadas em sangue por causa de ter estilhaçado abruptamente o outro copo, se retorciam, num sinal claro de ódio e raiva.
- A Katharina costumava dizer a brincar que ela era mais inglesa que alemã, antes de ter conhecido o teu Padrasto, com as ideias nazis dele! – Recordou tristemente. – Mas também dizia que amava tanto a Alemanha como de Inglaterra, de França ou da Atlântida. Tinha uma voz firme, mas linda e ondulada, com um sotaque londrino. Tinha vivido tanto tempo na Inglaterra, mas vestia-se tão bem quanto uma francesa, tinha uma eficiência e austeridade quanto uma alemã, mas sentia uma paixão ardente pela vida quanto uma mediterrânica…
- Quando é que ela conheceu o meu pai biológico? – Interrompi, cada vez mais ansiosa por saber mais.
O primo soltou uma gargalhada amarga, enquanto limpava com asseio as mãos encharcadas de sangue de bruxo.
Estavam tão sujas que nem sequer as conseguiria distinguir da carpete vermelha, e, metaforicamente falando, ele se sentia muito imundo por falar acerca do passado da minha leviana mãe.
Mas o que é que ela tinha feito de mal?...
De repente, a sua voz tornou-se um pouco mais nervosa e, num misto de surpresa e raiva, apontou o seu olhar inquisidor para mim.
Já com as mãos limpas, mas retorcidas em punhos fechados, quase como se quisesse dar um murro a alguém, perguntou de pé:
- Para que é que tu queres saber tanto acerca duma mulher que nunca gostou realmente do teu pai?! – A sua voz tornou-se má e furiosa. – A Katharina, que nem sequer se preocupava se o teu pai era dez anos mais novo que ela, se conseguisse escapar do possessivo do teu padrasto, era o que interessava!
Com os olhos muito arregalados, ele indicou um espelho pintado no quadro horizontal, e, no qual via-se um homenzinho (não teria mais que vinte, vinte e dois anos) de cabelos ruivos a espreitar por detrás do chapéu de feltro que tinha umas pedras preciosas verdes familiares: os olhos dele eram muito parecidos com os do meu avô adoptivo.
A minha cabeça estava mais confusa do que uma omeleta mal passada, a minha mãe seria ou um anjo, ou um diabo!...
Contudo, era-me impossível imaginar um triângulo mais estranho do que este; uma senhora da alta sociedade bem inteligente e astuta, um nazi provavelmente da mesma idade que ela, e um rapazinho de vinte e dois anos ruivos um rosto triangular, cabelos ruivos encaracolados e olhos verdes fascinantes!
Se calhar Katharina preferia homens mais novos, como uma vampira gosta de humanos inexperientes…Ena! Que penso eu da minha própria mãe!

segunda-feira, 3 de março de 2008

O Dia da Magia Negra...!


31-09-2005

Só reparei que ainda estava a usar aquele anel esquisito e estava a dormir tão bem como nunca. Geralmente, eu costumo dormir muito mal, mas naquele dia, estava certamente bem-disposta e sem sequer pestanejar.
Ora! Que fariam duas horas a mais ou a menos? Bocejei satisfeita, e levantei-me qual rainha dum castelo d’oiro.
O Dia das Magias Negras é feriado nacional, por isso a escola está fechada.
Desliguei o despertador. Um novo dia começara...Estava na altura de descobrir que relação havia com o anel e os indicadores do relógio de pêndulo do átrio.

Às seis da manhã, soaram por toda a Atlântida uma salva de espingardas para acordar toda a gente e convidar todos os Bruxos e Bruxas, Demónios, Cyborgs e Fadas para verem a reconstrução da luxuriosa e espirituosa Cyborg Town de noite e chamar o verdadeiro Mestre da cidade nocturna – a percentagem da população antes da Guerra de Poriavostin era constituída principalmente por estas quatro classes – o Príncipe dos Bruxos, já que o Assassino do Amor está morto, para ser o anfitreão da maior festa a seguir ao igualmente loucos santos populares em Portugal.
É claro que uma vez por ano, nesta noite, não se fala de guerra, nem de diferença de classes, pois estas quatro classes são as mais festivas e alegres de toda a Dimensão Mágica. «...Deve ser espectacular!» Pensei eu ao levantar-me vivamente da cama de uma só vez. « Mal posso esperar por ver a Gueixa Lacrimosa, a mulher demónio que consegue esticar o seu pescoço até a um comprimento indefinido que foi atropelada por um comboio; o temível e terror de Cyborg Town, o Conde Dark Sword, chefe dos Cyborgs; e, principalmente, o Rei dos Bruxos, o governante do Vale da Morte; a maravilhosa Rainha das Fadas, Veridiana II; a Carcereira do Limbo dos Espelhos.........Meu Deus, vai ser mesmo espectacular!»
A gente hoje não está em casa, nem pensar, é, como aqui se diz nos vários provérbios como “ficar em casa é ganhar bolor” , era para “trazer o filho, a filha, a sogra e o cão”, bom ....O Dia das Magias Negras é simplesmente universal, porque “nem nazis, nem bruxos, nem fadas, nem bruxas, nem Cyborgs, nem judeus, nem portugueses, nem negros, nem demónios e nem fantasmas por este mundo perdem esta festança!”
Este dia não se estuda, não se luta, nem se trabuca, apenas se amaluca!
Bom, como podes ver, para mim aquela noite foi de arromba, a melhor festa que já alguma vez fui! E também houve um pouco de aventura, sim, as emoções foram a pique naquela noite. Ouvi falar muito também de que os bruxos gozam com os Cyborgs e as bruxas com as fadas. O mesmo acontece com as fadas e com os Cyborgs. Só se ouve pelas ruas de Cyborg Town o burlesco e música de discoteca nos interiores.
Às sete, toda o Château já estava acordado: ao sair do quarto vi o Nälden a compor e a trautear músicas típicas do Dia das Magias Negras alegremente acompanhado por uma rapariga muito pálida com roube branco e pele transparente de nariz aquilino a cantar desafinadamente muito contente e a pôr o seu cabelo mais desgrenhado e em cima da cara. Era uma dos fantasmas das amantes do tetrabisavô, por sinal, a mais nova de duzentos e noventa e nove anos.
Ele abanava a cabeça à medida que a ouvia atentamente, um pouco desapontado por ela estar habituada a um compasso mais rápido.
- Nein, nein, nein! Fräulein Aiuki, é em Dó maior e não é menor! – Exclamou ele indignado. – Quando chega ao “Ò meu Rei dos Bruxos, levai esta cartinha para o meu rico namoradinho que eu não sou capaz”, não me consegue acompanhar no piano.
A fantasmagórica mulher girou a cabeça várias vezes e chorou copiosamente.
- É porque eu não sei aonde é que vais com as escalas, bruxo duma figa! – Replicou ela.
Fiquei um pouco confusa com aquela cena, aquela alma penada irritante ainda não estava na fonte a dormir?!
Num dia vulgar, teria dado uma enorme descompostura não só a Nälden, como também à minha “tertrabisavó” Aiuki, afinal, sou ou não sou a bruxa mais velha?
Quer dizer, até o primo arranjar uma noiva, sou a mais velha, mas até lá, sou eu que manda aqui no Château, e num dia vulgar, nunca teria permitido que aqueles dois estivessem juntos. Mas este não era um dia vulgar, era um dia em que se ouvia o rufo dos tambores das procissões da SPV à uma da tarde para anunciar a passagem dos espelhos contra a luz do Sol para que os Bruxos presos no Limbo dos Espelhos ouvissem e conseguissem participar no enorme e meio louco carnaval que iria durar até às tantas.
E hoje era um dia em que se conseguia ouvir o Primo Coutinho a ensaiar as suas suites e solos de trombone – pelo que ouvi dizer do Nälden, o Duque Von Tifon estriou com o uniforme na marcha de triunfo das SS quando Hitler tomou conta de toda a Alemanha e ao chegarem debaixo da varanda onde o seu “Führer” saudou-os, em vez de gritar o “Sieg Heil” com os seus camaradas e levantar bem o braço direito, atirou o trombone bem alto e para lá na cabeça da negra procissão de tochas e estandartes com águias e suásticas, gritou “scheisse!” enquanto se queixava do pé porque o trombone lhe tinha acertado no pé, estendendo vigorosamente o braço. Felizmente que ninguém notou a diferença do seu grito famoso, a não ser o meu padrasto, que depois da marcha perguntou se ele estava bem. Que grande barraca. Contudo, ele sente-se ainda orgulhoso por ter dito aquele palavrão em frente do próprio Hitler. Sabes que o Nälden foi nos Anos 20 um aluno brilhante em música de cabaret e em teatro, por isso consegue fazer as músicas mais disparatadas e satíricas que alguma vez eu ouvi! Se fosse menos tímido, poderia substituir o Rei dos Bruxos!
Além disso, ele é ou não é bonito? Não iria perder os seus serviços por causa duma asiática velha qualquer! Sim, estava com ciúmes, e quando uma bruxa ou bruxo está com ciúme, não há nada que o pare!
Pôs os braços cruzados com um olhar cínico e frio que nem o próprio Mestre Samiel Di Euncätzio superaria, fixando com os meus olhos gelados o lindo casal.
- Estou a interromper alguma coisa? – Perguntei num tom sarcástico. – Ou tu não tens mais nada que fazer, Aiuki?
A rapariga desapareceu num fumo branco e voltou para o seu lugar, baixando a cabecinha muito triste. Estava infeliz porque o Nälden poderia quebrar a maldição e eu impedi-o. Enfim, é a vida, ou talvez a morte!
Como sempre, tomei o pequeno-almoço sozinha – não sou lá muito para companhias. Estava uma delícia, e ao ouvir as cantigas disparatadas que se ouvia lá fora vinda dos oficiais da SPV a celebrar o Dia das Bruxas. Pareciam bastante bêbados.
Abanei a cabeça e continuei a comer os meus cereais com leite e cevada. Na mesa, havia uma laranja, mais um pãozinho. Optei pela laranja, e tentei pensar em outra coisa que não o meu Padrasto. Liguei, resignada, com um teclar do botão do comando, a televisão do sistema avançado de cinema. Só estava a dar porcarias nas notícias acerca de como o Capitão-Mor Goldtheeth estava super pomposo por entrar na gala do Dia da Magia Negra que se ia dar no Anel da Serpente. Batiam uma menos um quarto da tarde. Dentro de breves horas, conheceria o General B e os seus planos, uma vez que Sua Malvadez está mesmo decidido a dar o cargo a alguém mais competente do que um velho russo exausto qualquer.
Estou a referir-me, claro ao Kzenah Malagheti, o actual Rei dos Bruxos, que acha justo pormos à mercê daquele sinistro general-não-sei-das-quantas.
A justiça neste país é uma coisa muito bonita, não achas?
Bom, adiante: estava eu sentada a ler um policial, sentada num dos muitos confortáveis cadeirões do átrio, quando um estranho som perturbou a minha repousada leitura:
«click!»
Por instantes, pensei que tinha sido o palerma do meu primo Hans a pregar uma partida idiota e disparatada...Como estava enganada.
Que fiz eu? Simplesmente, ignorei aquele ruído vindo do nada, com esperanças que, se eu não ligasse, aquele burro pararia de me aborrecer com os seus jogos infantis.
Infelizmente, o maldito som ecou mais uma vez pela luxuosa sala após cinco minutos de silêncio e tranquilidade.
A minha leitura era sobre a bruxa feminina e a sua relação com o bruxo masculino, era o tema principal deste fantástico romance era acerca dum assassino que enlouquece pelas suas vítimas masculinas serem seus amantes.
Muito trágico. Detesto dramas, mas não há nada que me intrigue e abra o apetite do que um bom mistério por resolver.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Os "Guarda Costas" (Parte Final)

Lá em baixo, é tudo construído em pedra fria, incluindo os pilares que seguram as galerias de oito metros de altura.
Toda a gente pensa que, se seguirmos sem sabermos o caminho, iremos ter às ditas passagens secretas. É claro que, como eu ia escoltada pelo Fritz e o Skánvasse, dois polícias da SPV contratados pelo primo para serem os seus guarda-costas.
Aqueles dois não são polícias, são mas é dois criminosos gigantes acéfalos de uniforme, foram eles quem tinham me acordado e dado um banho de água fria com um balde que tinham achado pelo caminho do meu quarto na enorme sala de arrecadação. O primo mantém estes assassinos ao seu serviço, uma vez que são tão burros, que nem duas portas diante da outra. As ruas deste labirinto são como o interior dum enigma incapaz de se resolver: curvas, contracurvas, galerias, estalactites e estalagmites por debaixo e por cima de tectos e pisos quase macabros, com restos mortais de prisioneiros dos nossos tirânicos antepassados! Foi aí que me apercebi dos rumores de que o Château Von Tifon tinha sido construído sob uma incrível quantidade de cavernas e labirínticas grutas subterrâneas era verdade. Apenas o primo conhece 50% de todas as passagens secretas escondidas no interior do Château que dão acesso a estes escuros túneis com cem metros de profundidade, e é quase impossível vê-las a todas na sua totalidade numa só semana.
E eu que pensava que os bruxos eram espertos, mas afinal, há excepções. Podia muito bem escapar, mas o que se seguiria depois da minha captura não recompensava aquela atitude ousada.
Debaixo do disfarce de simples ex. Combatente alemão e grande diplomata no Palácio das Reuniões entre Cyborgs e Bruxos, o Primo Coutinho – como tão carinhosamente a família o trata – faz uns negócios sujos aqui e ali com os Demónios. É claro que o primo jamais seria um corrupto. Mas ele precisa desse tipo de “diplomacia” para assegurar que a Serpente de Fogo e os da SPV não suspeitem de nada acerca do verdadeiro propósito misterioso que os Von Tifon construíram esta mansão.
O palácio luxuoso e as masmorras são a verdadeira prova da dupla personalidade dele, umas vezes simpático, outras extremamente severo!
O caminho era iluminado várias vezes por tochas, mas nem isso evitava as minhas mãos de congelarem. O andar das conversas é um autêntico frigorífico. Ao descer as podres escadas em caracol cheias de bolor, tentava contemplar a enorme maravilha arquitectónica que eram as galerias debaixo do Château.
Ao chegarmos à porta, as duas bestas empurraram-me lá para o escuro escritório do primo.
Dum aspecto quase tétrico e demasiado clássico para o meu gosto, o escritório do primo era uma sala pequena e sem janelas.
Dois candeeiros pousados na mesa de carvalho iluminavam com facilidade duas aves empalhadas, uma águia que segurava nas garras uma caneta, enquanto uma coruja fazia de bibelot para uns quantos livros.
Sob a cabeça redonda do primo, estava um retracto sinistro do primeiro Von Tifon, enquanto que vigiava uma estante de alabastro. À direita, numa pequena mesa de café esculpida com três patas de leão, havia um telefone fixo moderno.
E, sentado num enorme cadeirão vertical, estava o próprio primo com o seu bigode bávaro e olhar altivo de cristal.
Não que o primo tenha um aspecto intimidante, não senhor! Antes de o conhecermos, até parece ser uma boa pessoa.
Mas, pelos vistos, hoje não estava de bom humor.
Ao seu lado, com as mãos envernizadas e unhas compridas a massajar carinhosamente as costas, estava a Serpente de Fogo em pessoa, debruçada sobre o corpo másculo do duque, com uns brincos de pérola a cair sobre as orelhas redondas e entre o cabelo longo preto, esboçava um sorriso escarninho e quase para o trocista.
Vestia um top de seda lilás, e, nas pernas sedosas e escorregadias, pousadas no colo dos calções azuis do primo de dormir, vestia umas corsárias curtas, prova que iria também dormir aqui em casa.
Enquanto o primo, apenas duma camisola branca interior e daqueles calções desportivos, com uns chinelos pretos calçados e o roupão escarlate desleixado de linho e empoeirado, ostentava nas faces um ar descontente.
- Senta-te, Jessica! – Ordenou num tom autoritário. – Querria falarr um pouco contigo.
De forma alguma recusei, e sentei-me no pequeno banco de plástico, mesmo em frente do primo, que nem parecia o mesmo. Ò Diabo...Quando ele fica assim, significa que vai haver sermão dos grandes.
O número infinito de palavras rudes incluíam vocabulário alemão e outras coisas feias como “cyborg inferior” e “uma jovenzinha não tem o dirreito de ir nesse aparrato com um...um...imundo qualquer, nascido sabe Deus onde!” ou ainda “impuro”.
Parecia um daqueles discursos idiotas de que os Bruxos são superiores aos Cyborgs na pirâmide de classes.
O problema é que a maior parte dos Bruxos levam isso tão à letra como se fosse a doutrina nazi contra os Judeus.
É por isso que não gosto nada do primo com as suas manias das “raízes germânicas”, “tradições saxónicas”, “superioridade da magia negra”, “elite bruxal” e outras tretas preconceituosas.
Ainda tentei balbuciar algo como “foi só desta vez” e “ele não tem culpa nenhuma do primo andar assim tão maldisposto”, mas foi logo interrompido por mais uma série de palavras incompreensíveis e demasiado caras como “inadmissível” ou “estamos numa casa séria, minha menina!” ou até mesmo “aquele boémio está a desencaminhar-te”.
As palavras iam-se desenrolando, uma a outra, até chegar à síntese das sínteses, algo como “eu só quero o teu bem, priminha” e ainda mais “nada de poucas verrgonhas, estamos entendidos?”.
O meu primo também tem a mania das grandezas e parecia que estava a utlizar demasiado vocabulário para uma só saída.
Enfim, terminou a longa serenata com apenas duas frases.
- Já terminei! Tens alguma coisa a dizer em tua defesa, minha menina?
- Sim, querido primo! – Respondi suavemente e com a voz distante. – Sinto muito...Tschüss.
Dito isto, virei a ele e à Serpente de Fogo – que, a partir de agora, vive connosco – costas e comecei a cantarolar, pela escadas do Château acima, a rir-me de coisa nenhuma como se fosse uma criancinha de cinco anos.
Quando as minhas pernas graciosas nem se viam, a Serpente abanou a cabeça, com um ar muito vazio e chocado.
- Bebé, a Jessicazinha está doente...
Ele acenou afirmativamente com a cabeça, igualmente preocupado.
- Mas que bicho lhe mordeu? – Exclamou curioso.
A Tsuna, mais romântica do que eu, interpelou-se(??) entre aqueles dois e sorriu com um ar sábio e, pondo a cabeça nos ombros, os seus olhos brilharam de ternura e compreensão.
- Não é óbvio, Priminho? A Jessica está apaixonada por alguém...!

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Os dois "guarda-costas"...


Quanto ao anel.... Estava eu a ver o relógiozito na minha confortável caminha. Afundei-me mais na cama, sorrindo satisfeita sobre a minha almofada lilás. Ainda eram quatro e quarenta, faltavam mais duas horas para eu acordar.
De repente, aquele anel precioso cujo tinha sido dado pelo Pedrocas no dia anterior brilhou intensamente primeiro dum tom alaranjado, decorando o meu quarto dum bizarro cor-de-rosa melado. De seguida, ouvi gritos de duas vozes estridentes em Alemão:
- SCHNELL! Sai imediatamente da cama antes que te parrtamos essa carrantona, Jessica!
- Hã? – Resmunguei, completamente ainda a dormir. – Quem é?
Mal tive tempo de vestir um roupão transparente – eu prefiro dormir nua, só com umas cuequinhas e um soutien nocturno discreto – quando quatro mãos fortes e cheias de cicatrizes pegaram em mim como se eu fosse um saco de batatas e arrastaram-me à bruta para fora da cama.
Depois, em cinco minutos, enquanto que duas mãos gordurosas seguravam firmemente com uns braços nada saudáveis e pálidos, quase em tom amarelo; levei um “duche” de água gelada que percorreu as minhas formas esguias e elegantes de rapariga adolescente enquanto o que me segurava se ria cruelmente.
Nesta altura, o anel no meu anelar esquerdo estava a vibrar dolorosamente em tonalidades de fogo escaldante. Um vapor terrível atingiu repentinamente em resposta à água nos olhos dos meus opositores, que quase ficavam cegos pela magia branca e cintilante, duma luz equivalente à do sol, a magia protectora do anel. Aquilo resultava. Graças a Deus que os tais adversários alemães identificaram-se mesmo a tempo de não ficarem com uma cegueira e serem ofuscados pela luz do anel.
Largaram-me no chão e puseram defensivamente as suas mãos a cobrir os seus rostos magros e rosados, vermelhos, quase como se tivessem apanhado um escaldão.
- Jessica, desliga lá a porra dessa porcaria e vem connosco até ao andar das conversas, sim? – Disse o mais escanzelado e num tom de desespero.
O anafado, que estava com o outro, entregou-me gentilmente um roupão e uns chinelos, sem olharem para a beleza incandescente do meu corpo de deusa.
- Veste-te, tens um encontrro. – Disse ele friamente.
Primeiro, chamaram-me ao gabinete dele no “andar das conversas”. Um eufemismo estúpido que o Sr. Duque Willhem Couto Von Tifon utiliza para designar as masmorras do Château. Primeiro, descemos uma série de escadas de mármore, rodeados por corrimões de ferro da enorme escadaria que dá acesso a todos os andares do Château. A seguir, passámos pelas cozinhas no rés-do-chão. A esta hora, ninguém estava a pés nos refinados pisos de azulejos brancos, e não se via vivalma por aquelas zonas da casa.
A cozinha, situada por detrás da escadaria, é uma sala rectangular com novecentos metros de comprimento, seis de altura e vinte de largura, com apenas uma entrada, e vários utensílios de gastronomia em várias prateleiras à direita (panelas; tachos; especiarias, etc.) e mais outras prateleiras com talheres; pratos; travessas…Enfim, o mais variado e rico serviço de porcelana Von Tifon estava ali. No meio em frente e detrás, havia vários fogões, frigoríficos, máquinas de lavar a loiça, bancas...Nesta sala não haviam janelas, pelo que era um pouco abafado. O escanzelado de uniforme preto da SPV (tal como o seu anafado companheiro) pôs de propósito no máximo com as suas mãos de ladrão profissional de jóias a roda principal que dava calor e gás ao segundo fogão a contar da esquerda. Depois, dependendo dos súbitos cliques e barulhos que se ouviam de tempos em tempos por debaixo dos nossos pés, girava com cautela as rodelas do gás, sem se notar uma única labareda azul natural. Lentamente, os outros fogões que rodeavam o segundo eram engolidos pela terra com mecanismos quase enfeitiçados, activados através de antigas palavras e encantamentos alemães que o gordo pronunciava em voz baixa e quase murmurada. Dentro de trinta minutos, onde estava o fogão do meio, apareceu duas tochas onde ardiam luzidiamente dois fogos-fátuos, e, quanto aos restantes fogões desaparecidos, havia dois caminhos que terminavam em escadas em caracol. O magro agarrou-me, com a tocha na mão direita e a esquerda a segurar o meu braço. Enquanto que o cabeçudo gordo tomou o caminho da direita, enquanto o magricela e eu o da esquerda.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Uma mensagem inquietante....

A minha coragem fez com que escrevesse numa questão de dez minutos um texto bem resumido e especifíco da vida do Assassino do Amor e como a sua maldade e ideias perversas alteraram de uma forma radical a forma de viver de toda a Atlântida em apenas mil anos.
Estava agora mais calma – como sempre quando algo de estranho acontece – e com um ar confiante. Provavelmente o Rei dos Bruxos gosta de pregar partidas e achou engraçado a imitar a voz do meu padrasto. Pois, deve ter sido isso. Além disso, entre as várias línguas que Kzenah Malagheti domina fluentemente, o Alemão é uma delas.
Sim, porque, segundo o sotaque, apercebi-me que o meu padrasto é alemão.
Estava na hora de esclarecer as dúvidas e esquecer aquele preconceito sem tese ou argumento alguns.
Passada esta simples tarefa, ocupei-me de responder a Sara com o seguinte:


Tifongirl diz: N t preokupes, dve ter sido impressão tua. O meu Padrasto nunca iria passear prqu l já morreu!


Mais calma a Sara conversou acerca da escola, dos seus deveres como fada, e do Baile de Natal do Palácio das Reuniões, um evento do qual eu ainda não tinha conhecimento.

Sara_Princess diz: é uma festa muito bonita que se dá de 7 em 7 anos num dos salões mais glamorosos da escola. Ao contrário daquela Gala da treta dos Bruxos, são convidadas variadas criaturas de todas as classes e estractos sociais. Vai ser o máximo! Até a Rainha das Fadas vai estar lá.

Curiosa, perguntei-lhe quando é que era essa festa. Ora, uma festa sem Jessica Magnetite von Tifon não é festa nenhuma.

Sara_Princess diz: é no dia 21 de Dezembro, vem o melhor possível.
Um beijo da tua grande amiga Sara...!

Recebida esta mensagem, ela passou a ficar offline. Sinceramente, as nossas conversas são sempre tão agradáveis e boas. Mesmo longe, aquela rapariga é como uma irmã mais nova para mim. A sua voz é tão bonita que até um roxinol ficaria encantado com aquele canto divinal e angelical. Ficámos, aproximadamente, duas horas a falar.
A amizade não é uma das coisas mais bonitas do mundo? Com ela, conseguimos vencer mais do que um milhar de monstros, sem essa harmonia, seria impossível viver na terra.
Já reparaste como as Fadas, os Cyborgs, os Demónios e os Bruxos são diferentes?
Enquanto que os cantos destas primeiras dão-me uma sensação de tranquilidade, paz e os segundos dão-me coragem e confiança, os últimos dois são motivo de repugnação, horror, ódio e insegurança.
Sara, como uma afilhada e dama de companhia da Rainha das Fadas, tem privilégios a que as fadas dos outros quatro elementos não têm: asas de cristal, tão bonitas como irrequietas e feitas especialmente para noviças a fadas; um vestido de pura seda branca enfeitado com uma cinta verde feita das ervas curativas para boa sorte, e uma rosa branca como um bonito e amoroso gancho. Se quiser, ela pode diminuir até ao tamanho dum pardal e caber na minha mão.
Quem me dera ter um padrinho igualmente bom como a madrinha da Sara....Dizem que a Rainha das Fadas é uma belíssima mulher que aparenta ter uns setenta anos, mas que na verdade dizem ter uns três mil anos! Ao contrário das tenebrosas lendas do Rei dos Bruxos – um homem velho de aspecto eslavo com mais de mil anos, poderosos, sempre maldisposto, de voz grossa e temperamento sádico – os contos infantis e cor-de-rosa da gentil, boa e talentosa Juliana dos Bosques Esquecidos do Gerês são incontáveis e estão entre as mais populares histórias das crianças atlantes.
Voltando à fada judia, Sara ainda queria acreditar que estava tudo bem, e, com os seus pezinhos descalços no dormitórios do Palácio das Reuniões, rezou um pouco a Deus para que este a protegesse contra o Mal, e adormeceu nos quentes lençóis.
Quanto a mim, já ia fazer o mesmo quando uma mensagem apareceu no meu computador uma mensagem preocupante vinda do Castelo Negro a dizer:



Hallo, liebe, liebe Jessica...

Presumo que já esteja a começar a ficar ansiosa com tanto mistério acerca do seu padrasto, mas tenha paciência...Cada coisa a seu tempo, minha querida.
Surpreendeu-me pela positiva, já passaram quatro meses desde que chegou à Atlântida e dou-lhe os mais sinceros parabéns quanto à sua perspicácia e admirável inteligência.
Por isso, farei com que os seus desejos ardentes de me conhecer sejam concedidos em pouco tempo.

P.S: Tem estado tanto tempo fora de casa...A minha menina anda a meter-se em sarilhos, é? Como está a Tsuna, dê-lhe comprimentos e um grande abraço a ela por mim, está bem?

Veremo-nos em breve...



Seria o meu Padrasto realmente...? Mas se fosse? Eu ando-me a borrifar para o que é que ele pensa do que eu faço ou deixo de fazer.
Não tenho medo dele e não! Não, o que preocupava realmente e não me deixava dormir era o facto de ele me tratar por “minha menina”....Já para não falar daquele beijinho na despedida. Será que ele, no fundo do seu coração, ou lá o que ele tem, sentia um amor paternal por mim e pela minha irmãzinha... Acho que não.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Um pouco do Passado (Parte Final)

Como estou a viver numa classe – ou raça, como quiseres – onde o fachismo é predominante, tal como a águia no Nazismo é o símbolo do soldado, o Tigre Branco da Sibéria com riscas pretas é sinónimo de masculinidade, poder, força e, para não falar de Magia Negra. O equivalente das mulheres ou bruxas é a serpente ou a coruja.
Por falar em tigres, o próprio Assassino do Amor tinha um como animal de estimação, que o tratava como “Tigre da Escuridão” – um nome muito irónico para um felino branco (risos) – e era como o seu maior confidente. Alguns bruxos – tanto novos como velhos – adoram tatuar as costas, braços direitos ou com serpentes negras, tigres brancos...Para ser franca, até eu sinto-me fascinada pelos tigres brancos.
Sou um bocadinho maria-rapaz, e até gostava de bordar nas minhas saias pretas um belo desenho dum tigre, pelo que é o fantástico e glorioso animal simbólico e personificação do Assassino do Amor em pessoa. Vê só o efeito sinistro que o homem provoca numa sociedade inteira de Bruxos...E ele já está mais do que morto.
É FIXE. Enfim! O Mestre Samiel é a nossa imagem de marca.
No Grito da Verdade, falarei dele mais tarde...Por agora, vou falar de como estava a fazer um trabalho na net.


Fui directa ao meu portátil – que a propósito está no meu quarto - pesquisar ardentemente acerca dum trabalho seca. E tenho de fazer graças a quem...?
Não adivinhas? Por causa do Sr. Tlaloc, o seca do professor de História da Magia Negra. É suposto ele ser o Deus da Chuva, não o “Deus do Deserto soporífero até ressonarmos na carteira”. Parece o Sr.Dr. Josefit Hermann Neves com mais uma das sessões televisivas em família nas Crónicas da Vida que dá pontualmente, todos os Domingos à nefasta hora e meia da noite na 2ª, o segundo canal televisivo atltante.
É que ninguém vê aquela porcaria, absolutamente ninguém!
Ainda me lembrava quando o esqueléctico homenzinho de óculos e aparelho lá disse na sua voz roufenha de mil e quinhentos anos « Façam uma composição acerca duma personagem famosa que viveu antes da Guerra de Poriavostin, demonstrando as vossas aptidões para o reconhecimento da 1ª Era Atlante, cronologicamente situada no Período Oriental do Mundo Antigo a.C.»
Segundo ele – ele também é o professor de Filosofia da Magia Metafísica – a minha capacidade para redigir textos sérios e de grande valor literário têm vindo a diminuir consideravelmente durante este mês de Outubro.
«Ora que essa!» Pensei eu ao teclar no Disappearing Google as palavras chave (Famoso+Atlante) que importavam para o texto. «Se aquele velho sorriso metálico pensa que me vai encostar à parede com um cinco em vinte, está muito enganado!»
Não me ia deixar ficar por vencida, e, enquanto que esperava pacientemente pela resposta da rede, tentei ver a quantos risquinhos ia a barra de estado.
Vinte por cento?! Devem estar a gozar comigo, só podem! Indaguei eu. Bom, um pouco de resignação e alguns minutos não iam fazer mal nenhum.
Dez minutos depois, um sino apitou com um estridente, porém engraçado ritmo.
No ecrã, apareceu perante os meus olhos um pequeno pop-up a dizer:


NAWMS – National Atlantian Web Messenger Service

Sara_Princess diz: SOS! Jessica, SOS...! É um caso de vida ou de morte, o teu Padrasto é o meu perseguidor! N keria dizr-t na kara prq stava km medo ke l deskobriβe.

Com um terrível calafrio na espinha, tentei responder imediatamente à pobre da minha traumatizada amiga.

Tifongirl diz: Também não é motivo para ficares asim. Tns a certza que é mesmo ele?

Sara_Princess diz: É KLARO QUE É ELE! Qm + podria ser? Ainda hoje o vi a passear à tarde na Floresta de Cristal! Graças a Deus ke n m reconheceu...

Mas eu, eu já não queria saber se ela tinha a certeza se tinha visto o meu padrasto em plena luz do dia ou se não o tinha visto.
Pela minha cabeça, subitamente, passou a ideia que o trabalho para História de Magia parecia ser bastante simples: falaria da biografia do Assassino do Amor.
Não é que idolatre o Mestre Samiel Di Euncätzio, nem pensar! Apenas sinto que há uma ligação entre a história dele e a do meu padrasto. Aliás, até acho que o General B, o meu Padrasto e o Ex. Pedófilo da Sara são a mesma pessoa. Pensa bem...um bruxo cruel, calculista, poderoso e maníaco que, simplesmente, de um dia para o outro, desaparece do mapa sem deixar rasto como tivesse tido um trágico acidente de carro? Isto e mais outras perguntas levantavam-se na minha mente, e já tudo fazia sentido.
Afinal, o meu padrasto andava vivinho da silva, e talvez quisesse algo mais valioso que a minha tutela. Ou estaria morto e aqueles outros dois homens não teriam nada nada a ver com ele?

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Um pouco do Passado... (Parte II de III)


Enquanto isso, a boquilha prateada permanecia imóvel ao pé do berço feito a partir duma cesta resistente das melhores árvores e feito através das mãos das dríades artesãs mais competentes em toda a Atlântida.
Nenhum dos dois sabia, mas aquele objecto poderia ser ironicamente a salvação e a chave para o meu tio ganhar aquela injusta batalha.
Foi aí que a minha mãe apareceu, indefesa, porém corajosa, com um frasco de leite quente para dar à recém-nascida.
Ao ver aquela cena bélica, soltou um grito de terror e deixou cair consequentemente o frasco de leite, vindo do seu próprio leite.
Por acaso o líquido materno, quente, branco e puro duma bruxa é uma coisa bem sagrada, e, por isso, mágica. Já se ouviram falar muitas coisas desta substância milagrosa e divina. Como Eris só teve filhos masculinos e ilegítimos de Samiel, mas sim com o Jamelino Beno mais bondoso, deu à sua descendência de filhas a possibilidade de dar esse hidromel portentoso e capaz de fazer mil maravilhas a tudo o que é merecedor de tais delícias.
Por isso, mal o vidro se despedaçou em mil pedaços e o leite branco se misturou com o veneno, algo de espantoso: no lugar duma explosão violenta, no local onde o pó branco e tóxico estava, apareceram rosas brancas, mesmo naquele chão de alabastro.
Nos seus botões ainda fechados, brilhavam pequenos fogos-fáctuos, ali nascidos naquele preciso momento. Dançavam e cnatavam em vozes encantadoras, porém, sussurradas e fantasmagóricas.
Eles eram, claro, os fantasmas dos sentimentos negativos da minha mãe.
Este acontecimento, decerto raro, espantou muito o meu padrasto.
De olhos arregalados, o meu Padrasto começou a ficar muito nervoso, já na sua forma humana e a recuar lentamente para a porta, notando-se uma nesga de irritação no seu semblante.
«Mas que assombração é ESTA?» Exclamou ele muito atónito. «É melhor ir-me retirar, mas eu volto! E da próxima vez, será com o Rei dos Bruxos, com o Reicshführer Himmler, até pode vir Hitler em pessoa. Mas duma coisa pode ficar descansada, minha querida Katherine: eu farei com que este seja último dia em que o seu amor e os seus filhos imundos vêem a luz do dia!»
Da sua promessa, nem sombra...Mas uma coisa podes ter a certeza: ele conseguiu separar o meu pai da minha mãe!
Com receio que os Cyborgs e Bruxos viessem a dar-se bem, o Conselho dos Bruxos mais o Rei dos Bruxos decidiram entregar-me a mim e à Tsuna aos seres humanos vulgares. Quanto ao Papá, baniram-no da Dimensão Mágica e deram razão ao malvado do Padrasto. Os Tempos Negros começaram aí, pois, com a prisão do meu primo, o único responsável pelo Château foi o pérfido. E acredita em mim, até o Rasputin era um santo comparado com o meu padrasto.
Só sei disso tudo e mais nada...Depois, os Bruxos ganharam juízo e prenderam o meu padrasto até à eternidade no Limbo dos Espelhos, até que um dia, apenas o mais cruel e perverso dos seus servos o venha libertar.
Que mau! Estou farta daquele palerma, e se me falam dele, expludo mesmo, não sou dada a brincadeiras quando estou furiosa, algumas vezes até choro e grito, e este era um desses dias no jantar. Toda a gente no Château sabe que quando me irrito, não há nada que valha o pobre coitado que se cruzar no meu caminho. Graças a Deus, o meu Padrasto não deu sinais de vida hoje, mas vou estar atenta, e, uma vez que estou interessada (e plenamente convicta) em entrar para a SPV – mesmo que não aceitem mulheres – estou
a tentar arrancar informações