domingo, 4 de maio de 2008

A Casa e os Champôs (Parte II)


Fomos até à Cidade dos Deuses, a um cabeleireiro luso-brasileiro com o primoroso nome de “Carioca Champô”.
O cabeleireiro de renome situa-se na Travessa Laura Di Euncätzio, nome dado em honra à irmã mais nova de Rwebertan Samiel Di Euncätzio, o Assassino do Amor.
É um sítio particularmente simpático, a travessa. Não está segura de se ver alguns demónios drogados por aí, mas de resto, os únicos que vão cortar o cabelo a este...Artista, são bruxos e bruxas, só gente da minha classe. O Carioca Champô fica precisamente nessa pequena rua, estreita, um pouco escura. Contudo, o cabeleireiro, muito bem escondido no 1º andar dum apartamento cor-de-rosa que tem num poste de Stop o nome da travessa, na porta B.
Ao entrarmos pela esquerda B do 1º andar do apartamento gasto, recebeu-nos um bruxo alto, de cabelos pretos espetados, colete de cabedal igualmente preto e calças roxas de ganga. Fumava um cigarro por entre a boca de feixe éclair, e tinha o estranho hábito de esfregar as mãos pálidas sob as tesouras afiadas. Assustou-me um pouco, com aquele olhar vermelho de sangue, mais parecia ser um serial killer do que um cabeleireiro.
Cá para mim ele não batia bem da bola.
Fiquei positivamente espantada quando este se me dirigiu de forma completamente cavalheira e um pouco efeminada, num sotaque brasileiro e voz suave:
- Oi, senhorita!
Eu apenas murmurei um tímido e desconfiado “Olá” para ele. Parecia um indivíduo extremamente excêntrico e nada aparafusado da cabeça.
A seguir, olhou com um ar cúmplice durante algum tempo para Nälden. O alemão retribui-lhe o sorriso amarelo, e, após cinco minutos, o tenente sorriu para mim.
Com a mão por cima do meu ombro fraternalmente, este apresentou-me ao sinistro bruxo que parecia ter trinta anos.
- Ilnerto, esta é a Menina Jessica, quer fazer um novo corte para deslumbrar esta noite no Anel da Serpente. – Disse o tenente com um sorriso divertido. – Trata bem dela, está bem. Ela é prima do Sr. Duque Von Tifon.
Dito isto, o advogado e tenente alemão entregou-me de ânimo leve às manápulas magras de Ilnerto Silves, o Cabeleireiro chefe do estabelecimento, que, por acaso, não era assim tão grande como eu esperava.
A sala de espera um apertado corredor com várias cadeiras dispostas em fila à direita, terminando num pequeno espaço onde o recepcionista e caixa, de cabelos ruivos à punk, com a mesma indumentária de Ilnerto, e com um pircing colado à boca, mascava indiferentemente uma pastilha que já devia ter uns dois dias no mínimo.
Olhei o palerma do Silves com um ar meio atarantado e nervoso, com as mãos nas ancas e o salto alto a bater no chão, como prova da minha irritação por parte das suas manias.
- Não há espiga. – Disse, dando-lhe com muita força a minha mão. – Eu fico bem.
Acompanhada pela mão de Ilnerto, dirigi-me rapidamente para a sala à direita onde eram feitos e refeitos os penteados de várias bruxas. Desta vez, era uma sala espaçosa, rectangular, onde cinco cabeleireiros se ocupavam das rabugentas clientes.
Podia ser larga, mas as janelas estavam encortinadas dum roxo de fazer clamar ao quinto dos Infernos!
A decoração era do mais nauseante que eu alguma vez tinha visto em toda a minha vida!
Enfim!
Normalmente, costumo pensar em outras coisas e só depois é que vejo se o meu cabelo está bom para ir para a festa. Corei um pouco ao finalmente me aperceber que ainda estava de roupão! Oh, por Tsesustan! Deve ter sido por isso que Ilnerto olhou para mim como se eu fosse uma pega.
Ofereceu-me um catálogo cheio de estilos e cabeleiras e cores de cabelo muito variadas, desde os cortes curtos até as colorações mais bizarras que eu tinha visto em toda a minha vida. Disse-me que se iria ocupar pessoalmente “desses lindos caracóis louros, que até parecem feitos de ouro”. É verdade que eu tenho o cabelo louro, mas prefiro pintá-lo de ruivo, para disfarçar o facto de que sou uma Von Tifon. O geral é uma pessoa dizer mal desta família, mas os rumores na classe dos Bruxos são como o pão-nosso-de-cada-dia. Eu nunca presto atenção ao aspecto do cabeleireiro, ou a aparência e forma de falar e como o dono do estabelecimento se comporta diante dos clientes.
Prefiro estar atenta ao meu cabelo louro encaracolado, ao meu lindo e longo cabelo dourado.
Estava a desfolhar desinteressadamente as folhas cortantes do grosso catálogo, quando escutei uma voz ondulada e duma mulher sensual, com um sotaque londrino, muito madura, a cantar uma melodia em Português Brasileiro.
Era uma das canções preferidas que a minha mãe costumava cantar, era cheia de alegria e vitalidade, no entanto, eu estava a tremer de medo por dentro!
Aquela história dramática da minha mãe mais parecia uma versão alemã da ópera da grande Cármen, cuja renunciou ao amor e que este a matou furiosamente.
Aquele dia estava a ser mais imprevisível do que o próprio Assassino do Amor!?...
Um pouco a medo, olhei para o corte onde aparecia Katharina com um ar bastante elegante e fascinante, para uma mulher na casa dos trinta.
Era um corte mesmo «…engraçadíssimo…» como diria o Tenente Nälden, com um pequeno rabo-de-cavalo preso por laca encaracolado com uma repa para a esquerda que dava-me uma sensação maternal de conforto.
- Sim… – Murmurei com um ar decidido. Depois, com um sorriso, olhei docemente para o querido Ilnerto. – Quero este.
- Ai, senhorita! – Suspirou ele romanticamente. – ‘Ocê não sabe que esse foi o mesmo penteado que a Dona Duquesa levou para o casamento? Foi lindo aquele matrimónio: os noivos atravessando o portal do amor, sendo cumprimentados por uma salva de pó de pérolas, aquele sortudo cyborg checo Thomas Migntetiyte de uniforme…
- Espera aí! – Interrompi, curiosa. – O senhor disse checo?
Ilnerto limitou-se a pedir-me licença para que encostasse cuidadosamente a minha cabeça na fenda feita do lavatório para encaixar com o pescoço, e continuou a tagarelar como se fosse uma gralha, à medida que regulava a temperatura da água.
- Claro que falei, menina! – Respondeu ele, num tom convencido. – Era assim que o príncipe se chamava, um astro de guerra, se é que me está a entendendo. Um herói, era o que esse burro que só nas nuvens se dava bem.
- Ah, bom… – Comentei resignada. – É que o Sr. Duque Von Tifon contou-me que ele era escocês…
- Nada disso, paixão! – Disse Ilnerto convicto. – O soldado e antigo príncipe era checo, até se diz que ele era descendente do Rei Venceslau IV, governador da Checoslováquia.
- E mesmo assim participou na frente? – Perguntei espantada enquanto sentia o meu cabelo a ser passado e esfregado com champô. – Que homem corajoso! Portanto, ele era piloto de aviões durante a Segunda Guerra Mundial?
Estava para ver se haveria mais uma história acerca do meu Padrasto. A pouco e a pouco, a galinha enche o papo, e eu estava cada vez mais perto na peugada dele.
Ao conduzir-me para o toucador e secar-me qual gentileza duma pequena ovelha, o cabeleireiro, um pouco nervoso, continuou a sua narrativa mal me viu sentada diante do espelho.
- Exacto, meu amorzinho. – A sua voz tornava-se cada vez mais receosa. – O Conde Migntetiyte era um homem íntegro, piloto de bombardeiros e corajoso em cada situação.
Soltei um baixo desabafo, quase como se estivesse ansiosa por ver como é que estaria logo à noite. Olhei a seguir para a fotografia dos “Benfeitores do Champô Carioca no último Dia da Magia Negra, em 1938”. Estavam todos os cinco vestidos a preceito, como se fossem mesmo para o Dia das Bruxas, numa das varandas do Château. Da direita para a esquerda, estava a minha mãe, Katharina, com o cabelo pintado de vermelho, alisado e curto a dar-lhe pelos ombros e um vestido preto esfarrapado a propósito, com os olhos azuis a brilharem com o seu sorriso traquinas por detrás dos lábios sensuais dela. Usava sapatos de salto vermelhos de sangue a condizer com a maquilhagem berrante de vampira e os dentes postiços, com uma vassoura de bruxa, com uma perna verde pintada, a segurar-se pelas grades da varanda. Estava super bonita! Esperava estar à altura dela no meu primeiro Dia da Magia Negra. A seguir, estava o meu avô Adrian Friedrich Von Tifon com um ar brincalhão, com uma pala de cristal negra em vez do monóculo no olho direito, vestido com roupas garridas do século dezassete, com um ar imponente, a cara coberta de pó-de-arroz e uma verruga falsa para combinar com a maquilhagem requintada que tinha na cara. Com um ar muito sério, mas que não devia ser levado a sério, ele brandia um gancho no braço direito, tentando fazer um desajeito olhar ameaçador. Quase que desatava a rir às gargalhadas, era a imitação do Capitão Gancho!
A seguir, estava um homem cujas legendas dizia, como sendo R. H, vestido ao fantasma da ópera, olhando com um sorriso traiçoeiro a câmara. O Rei dos Bruxos estava no meio, com o seu melhor casaco de pele de urso, fingindo ser um gangster famoso, com uma mala apropriada para um violino no braço, tentando fazer parecer que estava ali uma arma escondida. Por fim, estava um sócio do meu avô Adrian, envergando roupas escuras e castanhos-escuros, com um chapéu de coco, e um saco na mão direita, fingindo ser o Bicho Papão, nada convincente.Era engraçado haver uma só mulher no meio de tantos homens, até se pensava outra coisa, mas enfim…Os tempos eram outros.

domingo, 27 de abril de 2008

A Casa e os Champôs (Parte I de II)


A praça onde Gerhard e Otto Nälden vivem lembra um daqueles arredores e vivendas portuguesas no Algarve, com todas as árvores com a sua cerca e ecoponto a cada mil metros. Na porta dum condomínio fechado e branco, de estilo moderno, estava o número 13 MOV.
De aspecto paralelipipédico, a campainha com um símbolo de sino uma caixa negra com um mostrador verde a pedir quatro números.
Otto explicou-me que MOV era o monograma para Mire Oraptil Vet – cuidado com o demónio em atlante.
Nesse momento, corei muito, acanhada. Tinha feito um verdadeiro filme com um inócuo bilhete de recados.
O número de código era o código de segurança da porta, em vez de ter uma chave.
«É muito mais seguro assim, percebe?» Disse com um sorriso durante o tempo que abria a porta de aço.
O interior da casa poderia ser distribuído como um pequeno apartamento de três andares, só para os dois irmãos.
A primeira camada da casa continha uma sala de jantar, à direita, que sem demora observei, muito bem decorada, com uma mesa relativamente grande para duas pessoas.
À esquerda, havia uma pequena cozinha com uma porta oriental onde saía um cheirinho muito bom a comida chinesa.
Nälden apenas encolheu os ombros e apontou para vários objectos e decorações de estilo asiático ou chinês. Aliás, toda a casa tinha um zen muito oriental. Cheirava a incenso queimado, e uma linda música hindu de cítara tocava num leitor de cd’s, ao pé duma lareira eléctrica. Por cima da mesa, flutuava com um encantamento qualquer uma lâmpada japonesa a brilhar com inscrições antigas.
Parece que o irmão do Nälden tem um especial interesse pela cultura asiática, e também pratica artes marciais.
«...Foi ele que decorou a casa toda.» Comentou ele, rindo-se. «Eu não acho piada nenhuma, mas ainda dou uma piquena ajuda aqui e ali, afinal, temos de ser um pouco nada civilizados. Por isso é que prefiro dormir no elegante palácio do Herr. Duque do que estar nesta pocilga horrorosa.»
Dito isto, pôs a comida do irmão na mesa – arroz de pato à Pequim com um molho de francesinha estranho – e fez uma careta horrível.
Eu, com a encomenda bem segura nos meus braços, estava espantada com a enorme cultura geral do irmão gémeo. Devia ser um indivíduo bem inteligente, para conhecer tantas coisas do mundo oriental e para obter o diploma de médico aos vinte e quatro anos. Além disso, com a casa tão limpinha, logo vi que a mania das “limpezas” era de família.
Havia apenas uma moldura que não era de decoração asiática, onde, na mesa, havia uma fotografia enfeitiçada, como aquelas que havia nos livros do Harry Potter.
As imagens em preto e branco mostravam um grupo de treze homens de uniforme nazi pretos. No centro, reconheci como Heinrich Himmler, que sorria para a objectiva de forma presunçosa e arrogante. À sua direita, havia um homem alto, de olhos azuis penetrantes e aspecto sinistro, que lançava um ar frio e cínico para a câmara, quase como se dissesse “Não assino com tinta, mas sim com sangue!”. A contar da esquerda, vi o primo Coutinho a fazer a saudação nazi e a rir-se, muito orgulhoso, com a mão direita na anca e a esquerda estendida; a seguir, estava o Nälden, muito nervoso e com lágrimas nos olhos a limpar com um lenço. Depois, naturalmente, estava o irmão de Nälden, com a boina a saltar em cima dele, com um sorriso maníaco, com insígnias no colarinho, que julguei ser capitão. A quarta pessoa era um homem de cinquenta e cinco anos com uma cara familiar para mim....Obviamente, estava o chefe das SS e depois, o sexto e mais perverso de todos, que, algumas vezes, sorria com um ar de estar a tramar algo, com as mãos geladas escondidas atrás das costas. A sétima pessoa era, provavelmente, mais um humano, e o resto já se esperava que ora eram Nazis, ou Bruxos.
Olhei meditativamente para a fotografia a preto e a branco, que mantinha para a eternidade os olhares maliciosos daqueles nazis, tal como todas as suas atrocidades.
Com que então o Nälden e o seu irmão gémeo já tinham sido “anjos negros”, não era?
E até apostava que tipo de roupa estava dentro daquela caixa...
Suspirei profundamente, enquanto olhava fixamente para aquela fotografia…Tinha a sensação de já ter visto aquele homem maldito em qualquer lado, só não me lembrava aonde.
O Nälden apareceu atrás de mim e soltou um longo suspiro, igualmente melancólico.
Com as mãos pousadas nos meus ombros, duma forma quase fraternal, ele abanou a cabeça. Provavelmente ele não gostaria de falar nessas coisas delicadas…
- Sim… – Disse num tom deprimente. – Eu não me orgulho desses tempos, muito menos o Herr Duque.
De repente, pareceu esboçar um sorriso quase forçado, como se quisesse mudar urgentemente de assunto.
Com o cabelo ruivo penteado para trás, e as mãos nos bolsos das calças jeans castanhos-escuros da Pip und Böse
[1], que combinava perfeitamente com o colete de cabedal dourado, acrescentou num tom agradável:
- Dan? Não quer mudar de penteado? Eu conheço um cabeleireiro meu amigo que lhe fará, decerto, um penteado mesmo fashion.
Eu ri-me, divertida, com os maneirismos femininos do advogado alemão e, dirigindo-me à saída, conduzida pelo seu braço magro, pensei se não seria boa uma mudança de look para arrasar na festa e esquecer aquela época nefasta.
[1] famosa marca alemã para bruxos

domingo, 20 de abril de 2008

Relógios e Pegadas do meu Padrasto (Parte II de II)

Subitamente, apanhei um cheiro esquisito e doce para além do fortíssimo perfume. Uma fragrância magnifíca que me fazia lembrar a romântica canção “Papoila de Verão”.
Brevemente, sentia já a elevar-me inconsciente até a um paraíso de papoilas e de hortelã-pimenta, de cores turvas e tranquilidade...Sem saber o que estava a fazer, fechei-me num coche amarelo feito das pétalas daquela planta maravilhosa.
Queria ficar ali, a flutuar suavemente sob aquele mar de folhas de hortelã-pimenta, para sempre, naquele delicioso sonho vegetal.
Depois, surgiu um homem de aspecto deveras sinistro, um atlético bruxo alto cujo rosto e voz ouvia-se à distância, como um eco suave e lento:
- Fräulein Jessica...Presumo...
Acenei a cabeça, como que encantada e silenciosa.
- Óptimo, agora: fará tudo o que eu mandar. – Continuou a voz. – Quando ouvir a palavra “noite”, irá ter imediatamente ao Castelo Negro sem falta, depois da meia-noite, quero vê-la com os meus próprios olhos.
Uma das pétalas amarelas caiu precisamente sobre o meu cabelo encaracolado, como se quisesse acarinhar-me. Em poucos minutos, as pétalas despiram todo o que tinha, e assim que o fizeram, uma ondulante brisa fresca beijou-me nos cabelos.
Quase automática, coloquei os meus lábios sob o ventinho escapatório, e tentei retribuir-lhe o lindo favor.
Aqueles momentos de ilusão e prazer não demoraram muito, pois, de repente, surgiu uma inundação que levou como por magia tudo por que passava.
Passei os lábios pelo sumo de pó amarelo e doce, e um calafrio passou pela minha cabeça...Tinha sido drogada...!
Quando abri por fim os olhos, parecia que uma manada de elefantes tinha-me pisado, todos de uma só vez!
Felizmente, estava nos jardins do castelo, deitada, e as obras-mestras tapavam as minhas partes interessantes.
Ao meu lado estava o Tenente Nälden, muito preocupado com o meu estado de saúde, e sempre que podia, fazia respiração boca a boca para retirar o veneno do meu corpo.
Claro, eu não acreditei naquele ar extremamente assustado e o suor a escapar-lhe da cara rosada.
A sua voz assemelhava-se muito à que tinha ouvido durante o transe, e, afinal, o carro era dele. Olhei-o com uma frigidez incriminatório, e, se pudesse, dava-lhe um par de bofetadas ali mesmo!
Tinha provas suficientes para provar que ele me tinha fechado no “Tanquezinho” e me levado tudo o que era meu, incluindo as cuecas e aquele papelinho.
As primeiras palavras soaram como um rugido rouco e dorido, qual leoa doente:
- Seu nazi merdoso e hipócrita! You work for my Stepfather, do you? It was he that ordered you to put that piece of shit in your fucking car, didn’t he?!
Nälden, com um olhar confuso tentou dar-me uma palmadinha nas costas, como se dissesse que não tinha feito absolutamente nada.
- Que raio está a dizer, senhorita Jessica? – Exclamou ele. – Sente-se bem?
Eu continuei a espernear como uma louca, gritando mais uns quantos palavrões, e a dizer tantas maldições que nem me lembro.
Acho, por que Nälden me disse, falei em Inglês e pronunciei palavras indescritíveis como “impossible” ou mesmo “fucking traitor”, e até “evil nazi pufter”.
Com uma chávena de chá e uma muda, lá me acalmei, e ele me explicou a razão de eu ter adormecido.
Disse que o seu irmão gémeo trabalhava com drogas e era cirurgião chefe. A príncipio não acreditei, mas, pela sua cara de desapontado e a abanar a cabeça, vi que estava um bocado irritado com o meu comportamento. A morada tinha a ver com uma encomenda da lavandaria para que ele tinha de buscar hoje mesmo àquela hora uma roupa que estava na loja.
Como me senti culpada nessa altura por ter sido tão melindrosa e não levar a bem a fidelidade do meu amigo. Nem tinha a coragem para dizer uma única palavra, com medo que ele desse um sermão, mas aquele olhar fulminante foi o suficiente para eu perceber como tinha errado no meu julgamento em relação ao carácter de Nälden.
Só lhe queria pedir muitas desculpas por ter suspeitado de alguma coisa, mas ele apenas disse com um ar afável, mas aborrecido:
- O que mais me fere, Fräulein Jessica, não foram as suas palavras, mas sim a sua alma.
Como lhe poderia compensar...?
Haveria uma forma de reconquistar a amizade de um velho amigo, que para além de leal, foi sempre compreensível e simpático comigo?
Mais um crime para a minha lista de pecados, e aí, olhei-o com um simples brilho de contrição nos olhos, como se estivesse a dizer “por favor, perdoa-me”.
Rapidamente, um sorriso apareceu no seu rosto, e disse a levantar-me e a estender a sua misericordiosa mão:
- Que tal ir comigo levar a roupa lavadinha do meu mano, está bem?
De bom grado aceitei, e foi com uma grande lição na mente que a minha consciência foi totalmente limpa.
É uma excelente pessoa, com um nível de ética e honra fantástico! Um homem firme, mas bastante agradável e que ajuda aquele que precisa. Tem um sentido do que é o Bem e o Mal inacreditáveis. Nunca mais vou troçar dele. A príncipio quis dizer que eu tinha uma marca estranha na minha cara – um botão de tulipa amarela tatuada na minha bochecha esquerda – mas depois não falou mais do assunto
É demasiado bom para lhe porem defeitos, e apesar de ter uns quantos parafusos a menos, nunca conheci um bruxo tão generoso e prazenteiro como ele.
Lembra-me o meu avô e as suas maluqueiras. Um homem elegante, mas sempre masculino, de bom coração e sempre cuidadoso com a dor dos outros.
Fica sempre indignado com os horrores da Guerra Civil e discute muitas vezes com o primo porque razão esta guerra “ridícula” tem de continuar.
Amigo da boa música e da limpeza, gosta muito do perfeito e desconsidera o mau e o repugnante.

domingo, 13 de abril de 2008

Relógios e Pegadas do meu Padrasto (Parte I de II)


Não tenho paciência para escrever acerca da minha família, afinal uma miúda tem de ter a sua privacidade, não achas?

Por agora, vou falar das minhas aventuras, se não te importas.

Reparei que o pêndulo do enorme relógio cor-de-vinho, feito de madeira de carvalho resistente e forte, com aproximadamente três metros de altura, tinha parado de balançar.
Havia, decerto, uma peça qualquer que, sem querer, ficara presa.
A grande águia, empoleirada no cimo do relógio olhava para mim como se perguntasse «Porque não vês o que há de errado com estas rodas de aço perto do pêndulo?»
A curiosidade fervilhava na minha cabeça como se esta última fosse uma panela e a primeira um caldo de brócolos a escaldar. O que me fez ficar com fome, mas como, se ainda tinha comido, há uma hora atrás?!
«Este dia está a ser muito estranho...» Pensei com o sobrolho carregado e muito desconfiada. «Ò Diabo, Jessica... Então queres ver que é o meu Padrasto a tramar mais uma das suas...?»
Felizmente que sei um pouco de mecânica e o funcionamento de um relógio. Ao abrir a portinha que dava acesso ao interior do relógio, reparei que alguém tinha forçado sem êxito a fechadura mágica da qual só o Nälden tem a chave mestra.
Pelo menos com um pé de cabra, conseguiriam arrombar o interior daquela antiguidade numa questão de segundos, mas o nosso ladrão infiltrado, fosse ele quem fosse, tinha deixado uma lima enferrujada e um arame com um cabelo louro na cabeceira perto do relógio. Das três uma: ou era a primeira vez que roubara alguma coisa em toda a sua vida ou as marcas de verniz vermelho estalado que já tinham caído no meu armário da roupa justificavam uma elevada falta de escrúpulos e dinheiro.
De qualquer forma, estava algo preso nas rodas dentadas: um papel a4 dobrado oito vezes com um cheiro fresco a hortelã-pimenta.
A príncipio, fiquei admirada, aquele papel enorme apenas tinha um conjunto estranho de algarismos, o mais bizarro possível, à excepção duma morada em letra timbrada e com uma caligrafia cuidada, dum estilo quase académico a dizer:

03 VT3 13 66 62

A entregar a
Praça Papoilas de Verão,
Junto à fonte dos Imortais

Nome do Atum Enlatado
Código: 13 30 13 MOV


Era só isso, mais nada. Aquela salada de letras e números era mais amarga do que salada de fruta com sal.
Aquela conversa toda de comida deixou-me com a água na boca, mas nem por isso dei-me por vencida. Tinha de saber como se moviam as peças daquele complexo “jogo de xadrez”.
Eu sabia lá que números eram aqueles, e só há uma praça com o nome Papoilas de Verão. Na Cidade dos Deuses, afinal, os Deuses não podem morrer. Com certeza, treze e meia deveriam ser horas, e os outros dois números é que não sabia o que significavam.
Aquelas últimas iniciais MOV...Que significariam?
Pensei, pensei, pensei...E matutei até que o meu cérebro explodisse, mas nada.
As únicas pistas que eu tinha aqui conduziam para um encontro do ladrão agendado para a uma e meia da tarde naquele dia.
Uma coisa era certa: tinha de me despachar para desmascarar esse espião duma figa, porque se ele pensava que podia rir-se da poderosa família alemã Von Tifon, estava muito enganado!
Ia eu pedir ao incapaz do subordinado do meu primo para me dar boleia quando chego ao seu quartinho idiota e nem vivalma!
Onde teria parado aquele boneco articulado, aquela...Como é que hei-de pôr isto duma forma não-ofensiva? Ah, sim! Aquela marioneta de corda germânica que só sabe repetir «Oh, Mein Gott, oh, mein Gott! Francamente!» e nem outra palavrinha sequer.
Tentei procurá-lo por todo os cantos do Château, mas nem sinal daquela miserável barata alemã ruiva de olhos azuis.
Já a perder a paciência, dei uma olhadela ao “parque de estacionamento” perto dos magníficos jardins do palácio.
Para o meu espanto e surpresa, o “Tanquezinho 4x4 de grande cilindrada” estava mais quieto do que uma fada hipnotizada por um bruxo.
Contudo, havia mais um papel no porta-luvas, estofado de pele de zebra – tal como todo o resto do interior – acidentalmente aberto e a deixar, como por conveniência ou distracção da parte de Nälden. Tal como observara das últimas vezes que viera no carro do alemão, o seu estranho comportamento e personalidade eram assinados em cada coisa que fosse sua.
Pendurado debaixo do retrovisor, havia um dado de peluche cor-de-rosa e perfumado do famoso after-shave parisiense Diore Homme com o qual vejo o subordinado e advogado da Família Von Tifon brincar quando há uma bicha fenomenal na suposta via-rápida para o Palácio das Reuniões.
Eu já não gostava de advogados antes de ir para a Atlântida, agora, por causa daquela florzinha-de-estufa alemã, abomino-os!
«Que paneleiro desagradável!» Pensei ao chegar o banho de vapor que se passava ali dentro às minhas pobres narinas.

sábado, 5 de abril de 2008

As Tramas dos Bruxos (Von Tifon)

Há umas cartas atrás, disseste que a minha família era muito eclética, ou seja diferente, e que talvez pudessem haver podres na família.



Sim, realmente, tens razão, mas, cá em casa, toda a gente se compreende, e como não podemos viver nesta casa que, se não, não íamos caber, vou-te dizer que somos muito unidos espiritualmente. A maldade que nasce em cada um de nós e segue-nos durante toda a vida não impede que nos amemos como pessoas do mesmo sangue e descêndencia.



O humor e a diversão são constantes nas reuniões de família, é cá uma festa entre os "Tufões" quando a família se junta!...


Para falarmos na minha Mamã, tenho de falar no meu Tio-Avô Demetrius e do seu irmão gémeo mais velho, o Duque Von Tifon e meu avô Adrian Friedrich Von Tifon e a irmã mais nova, Nefrufi. Os irmãos do meu avô eram seis ao todo, porque já vês o quão grande a família é. O nosso avô – o filho barão mais velho do Bisavô Ignaz Hyeronimus, que por seu lado, é o irmão mais novo de nove filhos do honrado e já há muito falecido Trisavô Randolf Moritz – deu três filhos: Katharina, Charlotte e o pai do meu primo, o Tio Ludwig Johann Von Tifon.
A sua esposa era a muito estimada bruxa atlante, a lindíssima Alice Dalila Di Kilzart, pela qual o avô materno se apaixonou loucamente.
Foi uma linda história de amor, que perdurou durante muito tempo; a Vovó Alice era uma mulher trabalhadora, branda e serena. Uma mãe dedicada e preocupada com os seus três filhos, e dava-se muito bem com o ciumento cunhado que teve uma mulher ainda mais bela, mas estéril, era sempre ela quem propunha a toda a família os piqueniques de Verão.


Por outro lado, o avô era um homemmuito sério e austero (como a maior parte dos Von Tifon). Era o perfeito bruxo de família por excelência, nas suas próprias palavras, um herói das grandes batalhas franco-prussianas, sempre com as ideias fixas em mente. Detestava crianças e brinquedos, odiava música e ruídos, não gostava do Sol ou de dias bonitos – muitos anos a suportar chuva e lama é o que dá, resmungava o primo contra o avô. Era, igualmente, um homem muito solitário e amargo, as únicas coisas que o punham mais simpático do que um cordeiro era o gato persa da família, o Spiegel, e a mulher, a nossa Avó Alice. De resto, era um grande amigo de cães, até há opiniões na família que ele gostava mais dos bichos do que as pessoas. Teve, em tempos, três cães: um pastor alemão, um lavrador preto, e um salsicha muito engraçado. O quadro de família, mesmo por cima da comprida escadaria bifurcada, mostram-no em primeiro plano com o Olaf (o pastor alemão), o Rolf (o lavrador) e o Siegui (o baixote) ao seu lado esquerdo do trono, de cauda a rabiar de alegria junto do dono. À direita, com um dos braços fortes sobre o ombro, está a avó, e, mais atrás, estão os restantes seis irmãos Von Tifon, com excepção do outro gémeo, que está à esquerda dos cães, a segurar no Spiegel A Tia Charlotte e o Tio Ludwig estão mesmo no meio do retracto, ao pé dos cães. A mamã ainda não tinha nascido nessa altura. Porém a única personagem no retracto que não se esforça para esboçar um leve sorriso é o chefe da família, o Avô Adrian ou o “Herr Von Tifon”, como gostava de ser tratado.


Com o rosto magro de bigode branco bávaro bem cortado, pálido, o monóculo azul cristalino a pender no olho esquerdo deformado e o nariz adunco e afincado, grande, juntamente com aquele olhar penetrante e severo, o avô dá um ar muito intimidante e dominador. Deveria ser um bruxo dos seus duzentos e cinquenta anos, mas se estava bem conservado…Ao olhar para ele, diríamos que teria uns cinquenta anos de idade humana.
Morreu em 1938, no estalar da segunda grande guerra, mas, apesar de ser misógino e de não gostar de crianças, o avô simplesmente apaixonou-se pela avó e pelos frutos que ela lhe deu: três saudáveis filhos. Ele falava muito alto – coisa rara para um alemão – e a sua voz estranha e particularmente arrepiante ecoava pelos corredores quando se irritava muito, e não era preciso fazer muito para o incomodar. A Tia Charlotte contou uma vez ao primo que ele era parecidíssimo com o meu Padrasto, até na voz. Acho que não. Uma coisa que me espantou imenso é que ele casou-se com uma bruxa de cor preta, e mais ainda, que não era da sua nacionalidade. Para além disso, há que sublinhar que, quando se casaram, no Dia das Bruxas em 1866, a avó tinha vinte anos e ele quarenta! A avó Alice morreu em 1980, deixando um diário oculto algures na biblioteca, intitulado “Casada com Um Von Tifon”, que relata, segundo diz a lenda, todas as memórias, sofrimentos, e aventuras que passou junto com o marido. Uma vez que a Avó desenhava muito bem, fez um esboço dela própria, muito junto ao avô, que está com as mãos juntas aos ombros lindos dela. A avó era morenaça, tipo Beyonce, ou indiana, com os cabelos encaracolados negros, e uns olhos negros amendoados. Era pequenina, comparada com o avô – A Avó Alice tinha um metro e quarenta e nove, enquanto que o avô deveria ter um metro e setenta e nove. Apesar das suas impressionantes diferenças, davam-se muito bem, e aplaudo o facto da avó ter aguentado setenta e dois anos um homem velho, feio e prepotente. Desta união digna dum musical muito semelhante àquele lindo do Fantasma da Ópera ou à Bela e o Monstro, nasceu Ludwig, Charlotte e Katharina.

domingo, 30 de março de 2008

Indicação de blogs - "Diz que até não é um mau blog"


Olá a todos os “comentadores” e sejam, mais uma vez, bem vindos a Histórias Com Nome Próprio.
Eu, Tifongirl, fui indicada pelo blogueiro arthurius maximus para o prémio “Diz que até não é um mau blog”.


As coisas que funcionam neste prémio são assim
:
Ao receber a indicação, o contemplado deve escrever um post sobre a mesma e mencionar o blog indicado e, por sua vez, fazer mais cinco novas indicações.

Por mim e pela minha experiência em navegar na blogoesfera, descobri blogs muito interessantes e criativos.
Os donos desses mesmos blogs devem orgulhar-se de terem layouts incríveis e posts apelativos e cheios de imaginação!

Aqui estão eles:

Contos Ancestrais
Zaragata

Algumas Bobagens

Trocentas Coisas

Xeques-mates

Espero que gostem destas maravilhas da Internet. Eu gostei… LoL xD

Estes concursos servem para ver se os nossos blogs são mesmo bons, e, pessoalmente, gostei imenso da ideia.
Uma salva de palmas para o inventor deste prémio e um grande abraço para todos…


Tifongirl

domingo, 23 de março de 2008

Katharina - Pensamentos e Biografia da minha mãe...(parte I)



Mulher: a mais nua das carnes vivas e aquela cujo brilho é o mais suave
De Tifongirl


Começo o meu post antes de ir para Londres com esta citação de Antoine de Saint-Exupéry em honra à minha falecida mãe, que morreu em 1997, e a ela o dedico, com muito amor e carinho da sua filhinha mais nova, a querida bruxinha que, ainda hoje, espera por não ser ameaçada pelo terrível "bruxo maligno" que pode assumir várias formas, e que, até hoje matou tanta gente: o cancer ou cancro...!




Mamã, obrigado por tudo o que me deixaste... Um beijinho.




O olhar tão moderado e soberbo da Katharina fazia-me fantasiar de cenas realmente passadas na vida dela, e como verdadeira bruxa que era, com aquelas mãos tão prestigiosas e que fariam o próprio Hitler tremer de cima abaixo da braguilha.
Era natural que, durante o curto período da sua vida – a mãe foi morta aos setenta e oito anos – como feiticeira negra e alemã, muitos homens da sua época e país natal estivessem aos seus pés. Katharina, em público, raramente usava maquilhagem ou calças, pelo que constituía o estereótipo nazi essencial, sendo virgem, mas, contudo, gostava de namorar muitos e beijar poucos. Por outro lado, os Bruxos também sentiam-se atraídos por ela, uma vez que era muitíssimo semelhante a Eris, o ideal da bruxa no seu todo; inteligente e submissa, culta e elegante, eloquente e bem parecida, a minha mãe punha os olhos de qualquer bruxo fora de órbita. Era uma daquelas senhoras influentes e ricaças que não se deixava enganar por qualquer marmanjo que lhe aparecesse à frente, é por isso que gosto também dela. Era uma mistura de Marlene Dietrich com a Rainha Melnjar, entendes? O meu primo contou-me durante a nossa conversa que, apesar de querer ganhar dinheiro a qualquer custa e preço, a minha mãe não era desonesta e cobarde. Para usar uma palavra alemã no vocabulário germânico do primo, Doch, que significa pelo contrário. Ela era a matrona exemplar dos Von Tifon.
Uma vez que era dois anos mais velho que a própria tia, se podia esperar uma atitude bastante dominadora por parte de Ihre Exzellenz – Sua Excelência, o Duque Willhem Albert Siegfried Couto Von Tifon, herói da Frente Russa, condecorado com a Cruz de Ferro de 1ª Classe pelo próprio Adolf Hitler – quanto à tia. Não senhor, minha querida.
Ele era o predilecto da Tia Kathy, e gostavam muito um do outro como irmãos.
Descobri perspicazmente que, se não tocasse nos pontos negativos da vida da minha mãe durante a conversa, poderia descobrir imensas coisas acerca dela e do meu pai, “o ignorante, tarado e desleixado” do Tomás ou Thomas Alexander McCares, escocês de nascença, um pobre rapaz do campo, com uns parafusos a menos, herdeiro duma grande riqueza e de vastas terras.
A história de Thomas McCares e Katharina Von Tifon é, segundo o meu primo, uma comédia e uma tragédia.
Nasceu no ano de 1904, e já aos dez anos era muito temperamental e extrovertida. Acho que herdei a tendência dela para meter-se em sarilhos e para ser sempre do contra, e também acerca de ter a cabeça quente é verdade.
Era uma mulher muito brincalhona e cheia de surpresas, que, umas vezes estava muito bem-disposta, ora a gritar furiosamente pelos cantos por causa de alguma coisa que tinha corrido mal. Adorava se caricaturar como uma fria, dura e bruxa má loura, mas ela não era nada disso. Em privado, gostava de tocar guitarra e era tão doce e gentil com as crianças como o pó-de-arroz e batom rosa que lhes deixava no rosto.
Imaginei a minha mãe a brincar com a sua própria figura e a fazer vozes para as crianças, enquanto os homens da família e as mulheres destravam às gargalhadas.
Também me ri, tentando aguentar-me de pé, com lágrimas de felicidade a rolarem pela minha cara com a figura ridícula que o primo fazia ao contar aquilo, de pé, na cadeira a imitar numa voz grossa a minha mãe:
- “Vá lá, Coutinho! Não sejas tão mauzinho para a Tia Kathy! Meninos, vamos lá! Andor, andor! Está na hora do chichi cama.”
- Ò Primo Coutinho! – Ri-me, com a barriga a fazer cócegas. – A sério que a Mamã era tão bem-disposta?
- Sim, ias dar-te tão bem com ela… – Suspirou ele. – Vocês as duas poderiam conversar durante horas que se entendiam perfeitamente. Seria ela, provavelmente que dominaria a conversa, porque ela era uma fala-barato. Nasceu uma tagarela, morreu como uma tagarela…
O Primo Coutinho sorriu, também com lágrimas, mas de tristeza…O que é que se passava com ele…?
A Mãe teria alguma coisa escondida dentro das saias?
Com o copo de aguardente segurada pela mão, reparei que esta tremia à medida que engolia a bebida forçosamente.
Com um ar sério, lançou-me um olhar sombrio:
- Enfim: ela era ambiciosa, talvez demasiado para um país controlado por homens, e morreu como uma Cleópatra, suicidou-se!
O meu queixo caiu nesse momento! Como?! E porquê? Realmente, os Bruxos são trágicos por natureza, é sempre a mesma coisa. Sempre que têm tudo na vida, acham-se no direito e privilégio de morrerem duma forma heróica, só porque não tiveram uma vida que não corresponderá ao aceitavelmente ético e honesto. Ainda bem que a Mamã era honesta e não acreditava no Nazismo.
- O quê?! – Exclamei, sarcasticamente. – Como poderia isso ser?
- É o que te estou a dizer, a tua querrida Mamma foi encontrada morta nos arredores de Berlin, com uma pistola prateada encostada à sua orelha a jorrar de sangue, deitada, nua, completamente pálida, mas com um sorriso no rosto. – Declarou num tom sinistro.
Queria chorar, mas a minha natureza insensível preveniu-me de entrar em pânico, servi-me dum copo de aguardente, sem que o primo se importasse com isso, e, num só gole, afundei as minhas mágoas no álcool. Tenho de me habituar às bebidas fortes, afinal, um bruxo não é bruxo se não ser para as bebidas. Soltei um guincho agudo vindo do meu próprio estômago a arder. Está bem, estava um pouco transtornada por aquela notícia, mas o primo, como já devia ter visto o cadáver da minha mãe, apenas acrescentou, bebendo refinadamente a aguardente aos poucos:
- Muito bem, Jessica. Não chores, apenas engole essa tristeza e pena que tens dentro de ti.
Um sorriso cínico bailou-lhe no rosto mal pousou o copo e levantou-se, calmo, como se não fosse nada.
De repente, senti as suas mãos e braços a envolverem-me carinhosamente, qual pai que consola a filha.
Num único instante, senti os seus lábios perto dos meus, e, por uns segundos, pensei que fosse ele o assassino. Sim, porque eu não acreditei muito naquela história de depressão e remorsos. A minha mãe jamais seria tão cobarde ao ponto de se matar com a menos dolorosa e silenciosa arma letal para matar um bruxo adulto.
Senti as suas mãos suadas a penetrarem bem dentro do meu roupão azul-claro, e, naqueles minutos, as mãos, corpo e cara do meu primo mudaram para alguém diferente, um homem maduro, de aspecto nórdico que me puxava egoistamente para perto de si.
Contudo, a voz era a mesma, num sussurrar quase assustador:
- Estou livre, querida Jessica, e tu, também estás, minha prima?
- O que é que está a fazer, primo? – Indaguei, curiosa, ao ver que ele brincava ternamente com os meus caracóis e me levava para o sofá. – Está doido ou quê, passou-se de vez, é?!
O meu primo já não era sim o meu primo, mas sim um bruxo com um amor obscuro e misterioso, quase como se tivesse medo que me perdesse.
Os seus lábios firmes e velhos de homem de quarenta anos fizeram-se sentir, desta vez nas maçãs delicadas do meu rosto, e, enquanto me abraçava provocadoramente, ouvia a sua distante voz:
- Entschuldigung, Jessica. É o meu instinto, tu comprrendes. Quando a morrte surge na mente dum bruxo, seja de que idade for, as suas hormonas ficam mais abertas e logo se dá a transformação amorosa.
- Eu perdoo-o, afinal, o primo deve sentir tanta falta da minha mãe que nem sequer consegue tirá-la da cabeça. – Comentei ironicamente. – Deixe-me em paz!
Se não fosse a Serpente de Fogo a chegar, já se teria dado muita coisa!
Gritou histericamente contra o primo para ele se levantar imediatamente senão era ela quem ficava selvagem. Não queiras saber como é que foi a discussão, as cenas entre a namorada do meu primo e o primo são patéticas.
Adiante, falemos doutras coisas.