segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Sonho de Burlesco


Antes de passar a ficar consciente, os meus poderes escondidos deram-me outra visão, e quero confessar-te que ontem foi a noite mais aterradora de toda a minha vida! Um dos hotspots favoritos do meu padrasto no Dia da Magia Negra, quando ele pode finalmente sair da toca do Castelo Negro…pode não parecer lá grande coisa, aquela enorme vivenda vermelha situada numa rua secundária e sombria chamada Rua das Framboesas, com cerca de oitocentos e quarenta metros de comprimento, ajuntada a uma série de edifícios com mais de duzentos anos, cheia de lojas baratas e pensões de terceira categoria, onde não podem passar os carros; mas era, com certeza absoluta, o esconderijo perfeito para que a Serpente de Fogo e os seus capangas me escondessem. O ícone do clube Red Witch é uma autêntica caricatura pornográfica da Serpente de Fogo num vestido preto, e…como é que eu sei todas estas coisas…? Porque o vi!...
Meia-noite menos um quarto: as cortinas das enormes janelas estavam cobertas com cortinas verde-cinza, de modo a que as únicas formas de luz eram cinco velas de fogo vermelho a brilhar vivamente numa mesa de café ricamente decorada com flores selvagens tais como dente-de-leão; beladona; rosas; silvas; e vinhas de uvas dos campos de setenta mil anos da Cidade dos Deuses. Na penumbra, à esquerda estava um espelho de dois metros suficientemente grande para uma pessoa passar por ele partido em bocados, e à direita, uma mulher pequena, pálida como a cal, com pinturas vermelhas e pretas esquisitas na cara, seminua, permanecia deitada num espaço delimitado por um giz de mercúrio em forma de losango, com a barriga para baixo, a cheirar directamente um incenso esquisito púrpura.
Era uma espécie de cerimónia ou coisa parecida, ela pronunciava palavras incompreensíveis em Atlante Arcaico – uma versão antiga do Atlante que tem mais de cem mil anos – contorcendo-se em si própria, fazendo repetitivamente com uma facilidade incrível posições de Yoga que só um verdadeiro mestre nessa arte de relaxamento conseguiria atingir. Agora podia supor com toda a minha certeza que ela está completa e definitivamente louca!
Segundo os meus estudos em Magia Negra, ela estava a invocar um bruxo do Limbo dos Espelhos, e parecia não estar a resultar. Esta técnica de magia era utilizada pelos bruxos mais experientes e poderosos, mas nem uma bruxa com a idade de noventa e um anos conseguia atingi-lo na perfeição.
Graças a Deus que tirei um curso acerca de Atlante Arcaico para compreender o que ela continuava a murmurar entre dentes:
- Grande e Supremo Deus da Morte e do Mal Atlante, eu vos chamo, meu Mestre!
Ò Aquele que exterminava almas e corpos de imbecis fadas com um só dedo, erguei-vos das trevas e fazei sentir o vosso majestoso poder!
Grande Filho de Tsesustan, Rwebertan Samiel Tristan Euncätzio, eu vos INVOCO!
As fatais doze badaladas soaram por toda a Atlântida, e aí, nem um som de fantasma ou cheiro repugnante se fez sentir, mas sim toda a Atlântida mergulhou numa onda de um perfume de homem forte demais para se respirar, e uma brusca neblina tão espessa como uma sopa de batatas e ervilhas cobriu por completo a Lua.
Porém…Dez minutos passaram….E nem sinal do tal “Deus da Morte” que a maluca referia nos seus bizarros cânticos.
Esforços inúteis eram aqueles, não achas?
A mulher começou a ficar impaciente, batendo com o pé no tapete vermelho de fogo infernal que tinha comprado especialmente para aquela ocasião.
Não seria apenas imaginação sua ou tentativa falhada de ver o seu ex. Marido…?
Afinal, nunca se sabe o que pode dar a uma viúva…!
Levantou-se daquela posição tão desconfortável, achando estranho o bruxo estar atrasado, e ainda com os pés descalços no tapete da sua própria energia mágica derramada, os seus olhos pintados de negro começaram a arregalar-se, enquanto esperava já com a mostarda a subir-lhe ao nariz.
Pedira a solidão absoluta em todo o hotel só para ela para todos os oficiais da SPV, explicando-se que era um assunto secretíssimo de Estado, que não seria revelado a ninguém; gastara o equivalente à riqueza dum sultão ao “redecorado” o seu “cantinho”; ainda por cima passara a manhã inteira a preencher uma papelada do tamanho de não-sei-quê para ver navios….?!
Se ele não chegasse pelo menos até à meia-noite e meia, aquilo certamente não iria ficar por ali, não senhor.
Ali estava ela, a fazer figura de ursa, apenas com um biquini de ouro puro e com um manto vermelho de seda pura e uma coroa de diamantes sem mais ninguém, e com um ar de poucos amigos.
- Bebé, amorzinho…- Disse ela de forma dissimulada, mas logo mudou para um tom, digamos mais alto. – APARECE, CASO CONTRÁRIO VAIS TER A PIOR NOITE DA TUA VIDA, SEU IDIOTA!
Saltando e lançando vigorosamente um vaso de porcelana pela porta, despedaçando-o aos bocados, a irada e histérica mulher estava incontrolável!
- SEU CRETINO MENTIROSO DE UMA FIGA! APARECE, SENÃO…
De nada valeram os seus agudos gritos de ira, que ecoaram qual rugidos de uma tigre fêmea por todo o arranha-céus, ressoando o “senão…” com uma força tal que o seu querido espelho de cerimónias quase se partia.
Mal ia derramar a primeira lágrima de ressentimento por ter confiado em superstições idiotas quando um surgiu vulto esguio sobre-humano: vestes negras como a cor da morte, não distinguindo completamente o rosto ou forma, ou o quer que aquele diabo fosse, de uma estatura alta, que, comparado com a Serpente de Fogo, este era um gigante escondido por entre chamas vindas do Inferno.
A sua voz poderosa e severa, com um misto diabólico de astúcia na pronúncia e sotaque atlante, disse sarcasticamente:
- Por que gritais, Majestade?
O monstro robusto apontou para os ponteiros do relógio da avenida, anunciando meia-noite e ponto.
Aí, a mulher corou de vergonha, baixando a cabeça sem saber que fazer. Tinha mandado adiantar a torre principal da Atlântida na Cidade dos Deuses meia hora para receber os convidados a tempo na festa, e com os seus compromissos, esquecera completamente de arranjá-lo pontualmente para receber um convidado ainda mais ilustre e poderoso dos que os outros à meia-noite.
É mesmo distraída, tem os genes sonhadores da Sara, que se há-de fazer?
Fez uma vénia profunda ao senhor, ajoelhando-se solenemente qual bela e educada dama que julgava ser perante o fantasmagórico espelho, e baixou os olhos como se fosse escrava do espelho, literalmente.
Não percebia nada do que estava a acontecer, mas pelos vistos, aquele devia ser o amante a que a mulher é tão dedicada. Talvez o Finistergäse trabalhe para ele…
Quando se levantou, olhou para o seu “Mestre” de uma forma quase de meter dó, e limpando inocentemente as lágrimas, e fingindo-se de mártir, soluçou numa voz suplicante:
- Bebé S…Sabes que o prazo para me levares daqui está quase a chegar ao fim e eu…
Mal ia falar a próxima palavra, o homem ou fosse o que aquela besta era, interrompeu-a friamente:
- Amanhã!
Sabendo o que aquilo significava, a desesperada e condenada rainha ajoelhou-se duma forma humilhante, fazendo uma incrível cega para não olhar directamente para o Diabo, chorou cada vez mais.
- Faça com que o prazo se prolongue um poucochinho. – Sugeriu ela sem outra alternativa, num tom graxista. – Sei lá…Mais uns meses, semanas… Por favor, tenha piedade de mim, Vossa Excelência. Sessenta e seis anos passam depressa demais para uma Nobre de vinte mil! Por amor da vossa Virtuosidade, não me conduza ao implacável Castigo Eterno!
A voz do espelho respondeu de uma forma rígida:
- Nen!
Foi então que a escorregadia e falsa bruxa esboçou um sorriso malicioso, dirigindo-se para o espelho de uma forma confiante, mostrando o seu belo corpo ondulante e sensual de um lado para o outro.
- Trago para o meu senhor uma nova vítima! – Comentou com um brilho maldoso nos olhos claros de víbora. – A minha jovem e bonita amiga de maquilhagem já está presa nas masmorras lá em baixo pelos meus homens, ela, que nunca pisou o vosso reino obscuro. É uma alma apetitosa, ainda na flor da idade, ingénua, mesmo que se diga sabida da vida.
De que pobres coitados aqueles dois estariam a falar? Achas que estavam a falar de mim? Só espero que não!
O diabo, mais interessado em saber mais acerca da rapariga, perguntou:
- E que deseja essa formosa duquesa?
A Serpente de Fogo soltou uma risada sádica, qual uma hiena que não está boa da cabeça, contente por se ter livrado de mais uma possível rival.
Limpando delicadamente as longas unhas com uma lima como se fosse uma famosa estrela de cinema, ela respondeu de uma forma irónica:
- A tola acredita mesmo que um dia irá desenterrar o misterioso passado da sua família, e por que razão os seus pobrezinhos pais a abandonaram. Uma historieta comovente como só se vê em filmes pirosos, até apetece vomitar de tão estúpida que é.
Terminada aquela resposta, passaram-se três longos minutos, até que o lúgubre homem coberto na escuridão do vidro disse enigmaticamente:
- Seis meses de fortuna, no sétimo ocorrerão uma catástrofe enganadora!
Que planos diabólicos eles estariam a tramar…?
Um sorriso maldoso e cheio de esperança apareceu logo na cara da falsa mulher.
Estaria a mentir-me quando afirmou que eu era, de uma certa forma convincente, a sua única verdadeira amiga....?
Parecia bem que sim, já que esta era uma bruxa invejosa da beleza de qualquer mulher que se atravessasse no seu caminho. Disso eu posso ter a certeza, os olhos azuis grandes dela brilhavam de triunfo.
- Querido bebé, ò Senhor da Vida e da Morte; faz com que essa estúpida encontre o seu derradeiro fim. Que o dia 6 de Junho de 2006 seja teu, das tuas mãos, transforma as suas em mãos assassinas! – Declarou sombriamente a maldita mulher. – Com elas, a desgraçada cravará nas costas do seu amado cyborg um punhal, condenando-os ao desespero; a eles e a toda a Atlântida para que só tu, meu adorado Mestre, governes com as tuas trevas este reino!
- Sim… - Murmurou a voz, num tom terminal e sinistro…Que bizarros e estranhos segredos a Cyborg Town me estava a reservar…?!

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Fen Li - a "Baronesa dos Demónios"


Fen Li Ning Michaela Di Euncätzio era a sobrinha mais nova do Assassino do Amor, e talvez, a seguir a Enoque Pedro Di Euncätzio, uma das figuras do Clã Di Euncätzio mais popular na Bellanária. Ela ganhou, entre a comunidade dos Demónios, o apelido de “Santa dos Alpes”, por ser muito generosa e apiedada dos mais desafortunados. Passou à história como santa e mensageira dos Deuses, tendo sido reconhecida até pela Igreja Cristã como beatificada e canonizada em 1435, dois mil anos depois da sua morte. Na Bellanária, na parte cristã, particularmente, ela é popularmente conhecida como Santa Baronesa Michaela, mudando o nome para um ar mais ocidental, e as iconografias da mulher em si não condizem com as descrições que o tio da jovem faz sobre ela na “Biografia Crónicas da Minha Vida”. O facto de ser de etnia oriental não condizia com a descriminação racial que havia no tempo dos descobrimentos.
O título de Baronesa já fora atribuído aos dezassete anos, por ser tão condolente, corajosa, com uma eloquência impressionante, dominadora de várias línguas, e inteligente.

Aos doze, fora viver com o irmão mais velho para a Bellanária, em casa do tio deles, o Assassino do Amor; na China, o pai morrera muito jovem, e a mãe já não os podia sustentar.
Assim, conheceu as gentes Bellantes e os Demónios e Fadas e outras tantas criaturas mágicas, as quais teria um amor maternal que nunca se separaria, até ao fim dos seus dias. O seu génio notara-se logo ao conseguir dominar a língua bellante, e em escrever fantásticos discursos oratórios sobre a liberdade das mulheres e o estado deplorável em que viviam os Demónios.

No entanto, a vida da jovem aspirante a Kinnary[1] – equivalente bellante na linguística para Baronesa e tipo de Fada, metade cisne, metade mulher, que era uma espécie de embaixatriz das deusas mais importantes, e que se encarregava dos assuntos de Estado como se fosse uma secretária de Estado – nunca foi um mar de rosas.
[1] Ser originalmente da mitologia tailandesa, metade cisne, metade mulher, que personificava o amor e a beleza feminina

Teve de enfrentar o seu cruel e possessivo tio, que, alguns dizem, desenvolveu uma paixão pedófila pela sobrinha quase doentia, vendo nela as qualidades necessárias para a sua “Bruxa Perfeita”. Por muito que o Assassino do Amor a quisesse afastar do mundo exterior e mágico que eram as Fadas, ela sempre arranjou maneira de escapar às suas garras, pelo menos enquanto foi, legalmente menor, que, naquela altura, era até aos vinte e quatro anos de idade para as mulheres e dezasseis para os homens. A sua inteligência, combinada com a força e determinação do irmão mais velho, Quing, deram origem a muitas histórias, das quais se conta que o primeiro encontro com Samiel, em que este os recebeu na maior pompa e luxo, oferecendo-lhes um manjar digno de Deuses, para uns dois meses depois, quando tinha a confiança ganha com os dois irmãos, ter relações sexuais com a própria sobrinha. As suas tentativas pedófilas foram muitas vezes frustradas, pelo menos com Fen Li, ela era da família dele, e isso deu origem a também muitos escritores estrangeiros escreverem sobre Quing e Fen Li, nomeadamente os irmãos Grimm, com a história de “Hansel e Gretel”, é claro que «…quem conta um conto, acrescenta um ponto, mas, neste caso, não censuro o facto de terem falado sobre a nossa família, ocidentalizando a nossa vida…» confessou anonimamente um membro da família Di Euncätzio no século dezanove, agora desaparecida para todo o sempre. Na autobiografia do Assassino do Amor, ele conta, no poema, como é que a sua monstruosidade e loucura levou ao ódio e confusão por parte da sobrinha:


Ai, Fen Li, de pai e de esposo,
O teu nome me faz suspirar,
Esse inocente fogo delicioso
Que primeiro nos faz palpitar!...

- Oh, não vás, donzelinha inocente,
Não te vás a esse engano entregar,
E amor que te ilude e te mente,
É amor que te há-de matar…

Só a tua visão,
Pequena inteligência
Artificial,
De papel vegetal,
És uma boneca,
Recheada com caramelos de clemência.

Atingir a tua meta,
Alcançar a tua suave e macia mão,
Que parece quase a última sílaba de um não,
Acariciar,
E deliciar,
Os meus olhos famintos com a beleza que
Estive prestes a condenar…!


Não há nada em ti que queira
Mudar,
A tua alma estremece mais
Do que uma fogueira,

E eu, feiticeiro cruel, enamorado,
Espírito nocturno que assusta os animais,
Apercebeu-me, que,
É uma maldição não mais ver-te,
Emaranhado,
Aprisionado,
Condenado,
Pago pelo crime de amar,
De te beijar,
Querida fragrância de Primavera,
Viver-te no leito da minha morte, entristecer-te,

Lágrimas de anjo caído que jamais poderá
Te apreciar,
Anjo divino,
Elegante, de tecido frágil e fino,
Oxalá que ninguém te apanhe,

Ou a minha alma jamais, ninguém,
Amará…! ´


Mais tarde falarei no Grito da Verdade sobre ela….

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

"Ancient Conspiracy on the Dancefloor !



O meu Padrasto, é tudo culpa dele, e ainda bem que consegui afastar-me daquela louca. Eu tentei um largo sorriso, e, indo em direcção à saída, a rir-me, disse:
- A senhora é que está com pele de galinha, não eu. Como queira.
A bruxa, fazendo uma cena com os olhos lacrimantes e juntando as mãos como se fosse conduzir-me para uma oração, olhando para o céu de uma forma piedosa (só faltava a auréola para se fingir de santa), agarrou na minha perna direita.
Que é que ela queria…? Até parecia o fim do mundo, eu só ia deixá-la por uma hora, que mal tem nisso.
Mas como na verdade a Madame é uma toxicodepente cobarde como sei lá o quê e só se sente protegida com um par de gorilas sem cérebro, burros que nem uma porta e que têm ambos a altura do Monte Evereste, lá estava eu a arrastá-la pelo chão até que chegámos à saída.
- Docinha, meu bem, não te esqueças de estar aqui à meia-noite e ponto, é uma promessa, bebé! – Implorou ela. – Mas lembra-te, lembra-te! Serás maldita se aos teus princípios de boazinha inglesa voltares, e o teu amor aqui mesmo encontrará o seu fim! Para sempre, para todo o sempre, serás do Tsesustan, e ele te dará, a ti e ao teu amado cyborg, a terrível condenação ele fará com que vocês partilhem, a tua eterna maldição! Chauzinho!
Revirei os olhos, um pouco irritada com aquela cena digna de uma comédia, e, abrindo forçosamente a porta com o peso da estúpida mulher em baixo, e suspirei em sinal de reprovação de tal peça.
- Eu sei! – Comentei sarcasticamente. – De nada, a senhora também é uma santa que ninguém poderá imaginar! Agora faça o lindo favor de largar a minha perna que só tenho duas. Até já, Chauzinho!
Acenando com a mão, fingindo que estava contente, lancei um último olhar ternurento e de amizade para com a minha nova amiga, acalmando-a. Mas…Sabia, não, pressentia que onde quer que estivesse, o meu padrasto estaria muito satisfeito por ver eu sucumbir por fim ao sentimento humano e cair na tentação; pois a sombra de um homem alto sinistro parecia estar a rir às gargalhadas, mas estranhamente não se ouvia nem um único som da sua boca…Que cambada de malucos. Eu sempre disse que a cidade não era boa para a saúde das pessoas, mas francamente. Até parece que os Bruxos citadinos não se habituaram à ideia que o isolamento é a melhor forma de aumentarmos os nossos poderes. É esquisito, sempre que penso no meu avô, lembro-me sempre de Deus, mas não é de admirar, sabia sempre o que eu queria, conhecia-me tão bem que até acho que quando era pequena, acreditava que ele era o meu anjo-da-guarda. Jamais se zangava, e a sua voz tão clara e sincera emitia um calor paternal tão amoroso…
Obviamente, quando eu fazia algo mesmo mau, ele castigava-me justamente, nunca me bateu, bastava uma semana sem televisão ou ficar sem sobremesa para eu compreender, depois, ele dava-me um beijo na cara e dizia-me na sua maneira tão bondosa «Eu não me quero zangar contigo, Jessica, mas algumas vezes é preciso.»
Ao caminhar num passo acelerado para o metro na pequena paragem na praça principal, tentei não dar nas vistas para não ser apanhada desprevenida por algum demónio ou fantasma. Respirei bem fundo e entrei no transporte público sem uma única gota de medo, mas quando me sentei confortavelmente na cadeira, pensei se seria boa ideia dormir com a Serpente de Fogo.
O meu sentido de dever falava mais alto que o meu amor e curiosidade pelo padrasto que apodrecia no Castelo Negro.
Seria boa ideia libertá-lo…? Ou era apenas uma loucura pueril criada pela minha mente jovem e ingénua, incapaz de compreender a grande e sombria conspiração que se passava na Bellanária…?
E quantas mais dúvidas a minha cabeça armazenava, mais tentada eu me sentia em fazer tão inocente crime. O meu avô decerto não aprovaria, muito menos a minha actual família, mas era a única maneira de saber quem era esse obscuro homem, esse tal padrasto que me torturava a mente. Ele (O meu Padrasto) chegara à minha vida de surpresa, e, sem qualquer aviso, me enchera mistérios e enigmas por resolver.
Chegara a hora do meu destino seguinte ser revelado. Iria para o caminho do Bem ou do Mal…? Escutaria as sensatas palavras do meu Avô ou iluminaria o caminho escuro para ver o rosto do meu Padrasto…?
Pondo a minha cabeça sobre as minhas mãos, deitei umas tantas lágrimas, guardando-as na minha mão, perguntei em voz alta:
- Porque espero? Que irei fazer?
Uma voz fria ecoou de súbito nos meus ouvidos:
- A decisão é sua, Menina Jessica. Se assim o desejar, eu mando abrandar a máquina caso queira telefonar ao Herr Duque Von Tifon para o prevenir. Que direcção do caminho deseja tomar? Diga-me só o caminho e deixe o resto comigo. Guiarei a sua vida, jovem Fräulein!
Virei-me assustada para a frente e vi um pequeno bruxo a conduzir o metro, com o rosto cobrido pelo chapéu, e de certa forma, eu sabia que ele estava a sorrir para mim, à espera da minha difícil escolha.
Olhei pela janela de vidro, e reparei que havia algures lá fora no caminho escuro iluminado apenas por algumas lâmpadas que deixavam a desejar, pondo uma simbólica bifurcação: a seta da esquerda era para um atalho para voltar para trás, o da direita ia direitinho para a Cidade Perdida, para a minha casinha e cama quentinha.
Se fosse para a esquerda, estaria a abrir as portas da liberdade ao Diabo na forma humana…? Mas se fosse para a direita, jamais descobriria a verdadeira natureza de todos os segredos que antes me tinham sido escondidos e negados…..!
Então, numa tentativa desesperada, fiz opção: levantando-me, com um ar jovial no olhar, ordenei ao condutor:
- Para a Cidade Perdida, mas pode ter a certeza, caro senhor, que eu não vou desistir de saber quem realmente eu sou!
O misterioso condutor de baixa estatura acenou com a cabeça:
- É valente, mas isso não chega para enfrentar o seu padrasto, minha querida. Coragem não provada, não basta para vencer o passado. E, infelizmente para si, doçura, o tempo é a única coisa que não se pode parar, mas sabe que a vontade do Mestre ultrapassa tudo….
Num tom de terror, com um olhar penetrante que arrepiaria até o mais poderoso e bravo de todos os Cyborgs, coberto por uma capa preta, acrescentou:
- Sua Excelência, o meu amo, ele consegue tudo, ele triunfa sempre…! Sabia que na vida real, o Mal ganha sempre no fim!
Ao dizer estas palavras, começou a repeti-las, fingindo bater num bombo, e na verdade, o metro começava a ganhar velocidade cada vez que ele repetia a oração “O Mal ganha sempre no fim!”, de uma forma simplesmente infernal e diabólica.
As minhas pernas tremiam como varas verdes numa implacável tempestade e já andávamos a trezentos km’s por hora, sem ele conduzir o “metro fantasma”! Parecia um autêntico pesadelo, só que desta vez era real. Terrivelmente real! Só me apetecia gritar, mas em vez disso, apertei fortemente contra o meu peito a pequena chave, tentando manter-me calma.
Desconfiada da forma sinistra como aquele homem falava, forcei-o a virar-se para mim, e vi em vez de um bruxo, um perfeito boneco feito de cera à escala real, deitando a língua de fora para mim, com sete velas a flutuar assustadoramente sobre a sua cabeça, cada uma delas pregada com treze agulhas formando um místico símbolo: um losango negro, com um florete, um k e uma rosa a atravessar o losango; o símbolo do Mal Supremo!
Aí é que não aguentei mesmo, aquilo estava a ficar igualzinho a um filme de terror.
Explodi, e, com a mostarda a subir ao nariz, dei um grito de horror à medida que tudo ia ficar escuro….

domingo, 5 de outubro de 2008

"um mistério indecifráfel...Quem matou a minha mãe?"


Não fazia sentido: primeiro, a Serpente de Fogo comprara “O Cavalheiro”; segundo aquele bruxo alemão viera ter comigo; terceiro, seis bruxos que eu nem as minhas amigas sequer conhecíamos convidavam-nos para um baile, para logo se esfumarem que nem fumo; agora aquela malvada rainha queria que eu libertasse o meu padrasto do Limbo dos Espelhos…?! Essa conspiração cheirava mais mal do que os cozinhados do Samurai Dourado, ou eu não me chame Jessica Magnetite Von Tifon.
Mas, e se ela quisesse mesmo ajudar-me, pelo olhar piedoso e inocente, com a sua voz meiga e boa, era quase impossível recusar.
- Eis uma das muitas chaves do Castelo Negro. O Herr Finistergäse pagou mil marcos por ela há trinta anos. – Disse ela, respondendo as minhas dúvidas. – Com esta beleza poderás libertar o teu padrasto do castigo eterno. Mas as portas da liberdade e da magia no Castelo Negro têm um elevado preço.
A minha resposta automática em relação à menção do meu padrasto na conversa foi ir directamente para a saída, com um olhar de desprezo e nojo contra a mulher de magias negras proibidas. Ela sabia a minha fraqueza, mas como raio teria descoberto…? Talvez esse Finistergäse lhe tivesse dito. Mesmo assim, era preciso jogar pelo seguro em vez de confiar numa víbora falsa e, com as mãos retorcidas num gesto de recusa à tentação, tentei ir-me embora.
- Não acredito em ti, velha bruxa! – Insultei friamente. – Além disso, porque raio eu gostaria de libertar o meu padrasto?
A mulher balançou lentamente qual exímia encantadora de crianças a pequena chave num fio de ouro da espessura dum fio de cabelo, e sorriu duma forma sedutora, entregando gentilmente a chave na palma da minha mão, e com o seu “dedo mágico”, encantando o fio, tornando-o numa serpente que se enrolava na ponta dos meus dedos.
- Pensa bem, querida: ter um padrasto talvez não seja assim tão mau. – Disse ela num tom agradável ao olhar fixamente para o pequeno réptil prateado que segurava na chave com a boca. – Se bem conheço o teu padrasto (e conheço-o) ele foi injustiçado. Havia um canal mal ligado, um fungo no labirinto da sua cabeça que não funcionava bem.
Dizendo isto, fez um sinal desenhado com chamas de fogo com os seus longos dedos degenerados pelo tempo e exposta às magias de Tsesustan.
Sorrindo, no entanto a tremer, suando por todo o corpo, mostrando o quanto receosa ela estava acerca deste feitiço, acrescentou com um tom fino e irritante:
- Por mais que nós, bruxas, queiramos, minha querida…Um quadrado não pode ser um círculo.
Que estaria ela a dizer…?! Não estava a dizer coisa com coisa. De certeza que estava medo daquele “amante misterioso”. A sério, nunca a tinha visto com tanto medo, e normalmente, o motivo da sua histericamente é pura excentricidade, mas aquilo era um medo de morte! Já tinha ouvido dizer que a esquizofrenia e as drogas tinham muitas vezes príncipio dos Anos 30 levado a Serpente de Fogo à loucura e à morte, numa dança de vários corruptos e perigosos entre ela e oficiais nazis; escândalos de triângulos no começo da Guerra Civil (1936-????...+∞) nas mais poderosas esferas da Resistência; catástrofes de atentados contra a sua vida, tanto do lado dos Bruxos como dos Cyborgs.
Mas o pior de todos estes crimes foi embarrilar os Nazis, não sei o que se passou, mas o que quer que ela tivesse feito, eles não gostaram da partida. É o seu maior pesadelo, e todos aqueles que habitam na Atlântida, quer sejam deuses ou demónios, conhecem o único ponto fraco da diabólica e valente mulher, que apesar de ter só um metro e cinquenta e cinco – uma estatura considerada minúscula para alguns oficiais da SPV que têm dois ou três metros de altura, o que é simplesmente uma mulher assim tão pequena meter medo a homens tão musculados que até parecem gorilas com cérebros do tamanho de amendoins – mete respeito e medo a todos.
A razão para a sua psicótica doença mental foi ter testemunhado um homicídio de natureza tão horrível e desumana aos dezoito anos de idade (ela nasceu em 1911).
Toda a gente o diz, e toda a gente sabe cá na Atlântida que os parafusos da bela e estranha mulher de noventa e quatro anos estão a cair de ano para ano.
Qualquer dia…Adeusinho razão! Fiuuuuuu…! Estás a perceber o que eu quero dizer, que qualquer dia ela fica com os miolos tostados. Ainda ontem estava a perguntar porque raio a Serpente de Fogo é assim ao jantar. E todos me responderam que ela tinha visto alguém assassinar a minha mãe. O problema é que parecia que sempre que lhe perguntam quem era o louco que nos fizera o favorzinho de ficar sem Katharina, ela desculpa-se com uma história qualquer que o maldito tinha-a ameaçado que se algum dia ela tentasse pôr as coisas a vir ao de cima, este voltaria para fazer a sua vida negra até a enlouquecer, e conduzi-la a um estado de demência incurável! Eis o pior medo da mulher mais valente de toda a Atlântida: de ficar mais louca que é!

terça-feira, 16 de setembro de 2008

A Chave do Túmulo da "Besta"


O Dia das Bruxas é uma noite mágica, disso, ninguém tem dúvida, mas o que eu não sabia, é que seria assim tão reveladora para o meu passado…!
Um humano que queira ser bruxo morre três vezes: na vida mortal, na vida moral, e na vida espiritual, só assim, é que se poderá aceder à pior prisão: o Castelo Negro.

A "Pura Princesa Swerdinada Arco-ìris de Fogo" também tem defeitos.


Podia muito bem ser verdade como podia ser mentira, mas o que a Serpente de Fogo estava a fazer na sala não era ficção: gritava de agonia, tentando fingir que não tinha exactamente gritado com um dos servos dum dos seus amantes mais perigosos, e, durante um quarto de hora, aquela peixaria continuou, com ela a andar constantemente à roda, como se tratasse de um pião gigante, para por fim parar meditar nos seus erros.
Estava mesmo em sarilhos não achas? Os seus olhos encheram-se rapidamente de lágrimas, e, pegando irada num vaso de porcelana, atirou-o contra a estátua do seu pai, o grande deus Neptuno.
- Odeio-te, PAPÁ! – Berrou numa voz aguda irritada. – ODEIO-TE, PAPÁ! POR CAUSA DA TUA ESTÚPIDA PREFERÊNCIA PELA MINHA TONTA IRMÃ, ESTOU AQUI A MORRER!
Subitamente, uma voz feminina indagou nas sombras do salão vazio a rir-se:
- Olha só quem está com a mostarda a subir ao nariz? Mete-me dó, Vossa Majestade!
Ela virou-se nervosamente para mim, fixou-me com olhar terrível durante uns momentos, depois soltou uma risada aguda convencida digna de uma bruxa.
Saberia ela o sofrimento e curiosidade porque eu passava…? Tinha lido os meus pensamentos…? Talvez sim.
Que estaria ela a preparar com os seus caldeirões…? Tirou habilmente da sua minúscula mala de pele de cascavel verdadeira verde-escura uma fita métrica, e começou a medir a minha cintura como se quisesse saber se eu era gordinha. A fita longa de cores quentes em vez de centímetros tinha como unidade de medida pequenos caracteres atlantes que correspondiam ao destino de cada pessoa. Já tinha ouvido falar daquelas coisas chamadas “adivinha-métricas” numa conversa com a Sara, mas nunca pensei que existisse mesmo, afinal são tão caros que só para os destinos mais inúteis é preciso desembolsar cem euros!
A Serpente de Fogo percebe mesmo desta coisa da magia negra. Ao tirar notas das medidas exactas, e do meu negro destino – a minha cintura apontava para um estranho losango com duas rosas.
Depois, esboçou um sorriso misterioso, e começou a mexer continuamente, sem razão nenhuma, com um brilho estranho nos olhos azuis claros (já te disse que ela pode mudar a cor das suas íris, umas vezes para verde, outras para azul, outra para negro, e outras para vermelho de sangue!), na sua mala. O aspecto piramidal da pequena carteira do tamanho inacreditável de uma maçã deixava-nos a pensar como é que poderia ser possível guardar tanta coisa num sítio tão pequeno.
- Olhos de sal perturbados não ficam bem a uma bruxa bonita como a nossa querida e bela Jessica Von Tifon. – Comentou ela a atirar batons, gloses, estojos de maquilhagem, frascos de perfume de todos os tamanhos e formas. – Muito menos a uma duquesa da Bellanária. Por isso é que adivinhei que ias passar a noite da Magia Negra no Castelo Negro, além disso, tenho o dom de falar com os mortos.
Só ficou satisfeita até encontrar por fim num compartimento secreto da carteira verde-escura, uma chave do tamanho de uma semente de mostarda: uma horrível serpente azul indigo estava enrolada no seus adornamentos, devorando a sua própria cauda de escamas ásperas e secas, e o
aspecto da chave de prata com ouro era horrivelmente sinistro, com uma rosa de marfim incrustada no meio.
O pequeno objecto prateado brilhava na palma da mão escorregadia e hidratada da mulher qual um pequeno diamante raro.
Isto começava a ficar interessante…Os meus olhos viraram a sua atenção para a pequena maravilha.
Com a sua longa unha de bruxa do indicador, ela apontou para o raro utensílio. Parecia reluzir a sua luz vermelha de uma forma tão atractiva como diabólica.
Agora é que eu estava a somar as parcelas, aquela estúpida e o bruxo que andava sempre atrás de mim eram meros fantoches nos fios de outra pessoa mais inteligente.
Uma pessoa que tivesse neurónios suficientes para saber que a filha da filha mais velha da mulher do grande Duque Von Tifon teria uma certa influência e conseguiria para seu próprio proveito certos documentos importantes. Enganar um homem assim seria mais difícil do que eu pensava. Seria o meu padrasto o autor daquela palhaçada toda…?

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Herzogtum Von Tifon...


Depois do grande contributo que todos eram para que o Grito da Verdade continuasse a ser uma realidade, aparece um novo Blog na minha lista de blogs que escrevo: Herzogtum Von Tifon (Ducado dos Tifon), um Blog que apresenta tudo o que há para saber acerca da família de Jessica.
Desde o preguiçoso e imortalmente arrogante gato persa Spiegel, até ao lado mais oriental da família.

A excêntrica família alemã mais louca de toda a blogoesfera está de volta, neste Blog, dedicado exclusivamente à Cidade Perdida e a “Eles”…


Não percam…! Em http://herzogtumvontifon.blogspot.com/

Um abraço, de todos os Von Tifon...

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Comentários precisam-se (urgente)



Há sempre algumas pessoas nesta vida que pensam que a vida é algo efémero...Não é, é imortal!...

Por favor, atenção a todos.........! O meu blog e diário pessoal foi atingido por uma crise de falta de inspiração aguda.

Peço a todos os bloggeiros que, se quiserem ajudar, façam um inventário acerca do meu blog, um comentário geral de todas as coisas que viram e que personagens gostariam que se realçasse mais no blog....Um grande obrigado e beijo a todos.

Até 16 de Setembro, teremos este pedido acertado em primeira mão na minha agenda, mas se não receber nada, terei de fechar os dois blogs...

mais uma vez, muito obrigada pela vossa colaboração