domingo, 22 de julho de 2012

Tal avô, tal neta?



Saudações da vossa Tifongirl.... Agora já sabem porque é que eu pus o nome tifon como pseudónimo, há cinco anos atrás, a Jessica foi a primeira Von Tifon, e eu identificava-me um pouco com ela na altura.  Nessa altura, eu gostava de fazer pinturas a aguarela, ouvia uma música muito heterogénea e tinha uma relação complicada de amor/ódio com os desenhos animados Japoneses (mais conhecidos por anime) , que ora eram passados às sete e meia da manhã, ora no horário infantil, às cinco da tarde. Tal como a maior parte das coisas que me metem medo, passei a interessar-me, e comecei a vê-los nas versões originais ora na internet ora nos canais em que os desenhos eram mais maduros. Mas a minha influência principal (ou inspiração, como quiserem) eram as sitcoms e filmes sobre a Segunda Guerra Mundial (não sobre a guerra do Pacifíco, que passei a interessar-me recentemente), mas sobre o lado alemão.  

Inspirada pela minha amiga Norueguesa Lisa , começei a desenhar uns esboços das personagens mais intrigantes das minhas histórias. Gosto muito não só da manga Japonesa mais para adultos, como também as obras fantásticas de Picasso e do grande Salvador Dalí. Em relação à escrita, a inspiração...é um segredo! He, he, he :P 

Aqui está um esboço que fiz recentemente sobre a Jessica  (uma parte da cara dela) e o contraste entre ela e o "bruxo demoníaco do cigarro"  http://princesshamanarta.blogspot.pt/2007_05_20_archive.html   "Digamos apenas que eu sou o porta-voz da desgraça, minha querida..." A citação que gostei mais naquele poste, há cinco anos atrás.

É impressão minha ou eles não são assim tão diferentes ? ;) 

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Um café com canela às sete da manhã...

Diário da Jessica Von Tifon 


12 de Março de 2005



Ao ver que o dono não estava a olhar para nós, decidi contar ao velho Duque Von Tifon (por mais difícil que te custe a acreditar, prefiro tratar-lhe por “Sie”, ou por “Avô” do que pelo título dele, já o conheço quando ele estava disfarçado,  e faço uma leve – mesmo leve, porque nunca sabe com a minha família – ideia de como é que ele é, uns meses e a marca de nascença davam-me os palpites suficientes para perceber que podia tratá-lo familiarmente) porque é que estava sozinha, principalmente num feriado.

Entretanto, ele começou a fumar, ao ouvir, com a maior das paciências o que se tivera passado quando eu vi o Heydrich – numa visão – pela última vez. O meu avô não ficou nada surpreendido com os meus talentos para a magia.

«A princípio pensei que era um pesadelo mas não é possível: o senhor sabe tão bem como eu que eu adoro estudar Introdução a Matemática Aplicada à Magia Universal. Nunca iria adormecer na secretária! A Sara não parecia estar assim tão certa do que estava a fazer, mas o Pedro, ele queria mesmo beijá-la…Nesse momento, senti uma vontade enorme de matá-lo! Lá estava ele, a beijar outra mulher…E eu sem poder fazer nada! E eu que pensava que o Pedro era do tipo que só andava com uma miúda de cada vez. Depois disso, a pobre da Sara fugiu dele, com as lágrimas no rosto. Foi aí que o Heydrich encontrou-a…» As lágrimas cairam lentamente dos meus olhos. Parva, que figura ridícula que eu estava a fazer, no entanto, não conseguia evitar que as mãos tremessem. Quem me dera que pudesse deitar a porcaria da chávena do café para o chão. Ao menos teria algo com que descarregar…

Porém, o meu avô estava mais frio do que se não estivesse a chover. Eu sei perfeitamente que ele adora o mau-tempo. Acha romântica a trovoada, embora Março não seja lá muito a altura certa para aguaceiro. Nunca gostei de ver o fumo a enrolar-se por volta do corpo do Fixtanea (melhor do meu avô) até que só é possível ver-lhe os olhos, cinzentos e brilhantes. Faz com que eu fique com arrepios…!

Contei-lhe também o sítio, que era numa rua estreita e com umas flores amarelas…

- Em que rua de Cyborg Town? – Perguntou asperamente o meu avô, com os olhos menos suaves do que nos minutos anteriores.

- Não sei! – Encolhi uma vez mais os ombros, sem coragem de enfrentar o Avô nos olhos. Tinha de confessar: era o mesmo olhar que eu tinha visto no seu auto-retrato no Castelo Negro, naquele Dia da Magia Negra. – Devia ser antiga mas era muito larga, com uma placa a dizer qualquer coisa em Bellante Arcaico.

- A antiga Avenida dos Vitoriosos…Lembro-me que foi posta em ruínas em ‘78 para construírem uma auto-estrada lá. É antiga, mas não tanto como a velha Lisaiten. – Comentou a voz grave e rouca do meu avô, enquanto expelia mais um pouco de fumo para o ar, indiferente, nada admirado pelo meu olhar curioso. – Era o nome Japonês para Losjafhden.

Franzi o sobrolho muito desconfiada.

- Desculpe lá por estar a interromper, mas…Eu sou um bocado má em História Nacional…De que Avenida dos Vitoriosos é que o Avô está a falar…? – Comentei num tom confuso. – Se  bem me lembro das aulas ela foi restaurada em 1956 depois da guerra…E a estrada onde eu estava ficava do outro lado do rio…!

O meu avô lançou-me um olhar amargo ao deitar num gesto quase automático as cinzas do cigarro de hortelã-pimenta para o cinzeiro.

- Eu estou a falar de 1878, quando a tua mãe nem sequer era nascida, Jessica.  Nem tu, nem a Sara, reconheceriam o lugar. A Avenida dos Vitoriosos…um nome que foi manchado pela imitação barata e desprezível que os Russos fizeram deste lado do Bênção!

As palavras do meu avô sairam-me da boca, ao recordar-me de uma vez ler uma espécie de crónica que ele tinha feito sobre Cyborg Town e arredores:

- “Quando vi a destruição da velha Lisaiten, o lugar que o pobre Ishikawa Rokurou tinha ajudado a reconstruir através do valor da recompensa que o Imperador lhe ofereceu, senti-me impotente. Lá estavam eles a arruinar o verdadeiro espírito de Cyborg Town e eu sem poder fazer nada!” – Ao acabar a frase, eu fiquei um pouco arrepiada. – Avô…será que alguém manipulou o Pedro para que ele fizesse o que fez? Isso não significaria um duplo insulto a um descendente de um dos Guardiães?

Abateu-se um silêncio de cortar à faca na Doçaria Madrid. O dono não dizia palavra, muito menos eu. Uma mistura de sensações inundaram a minha mente: repulsa, medo, fascínio, admiração…atracção!  Ali estava um homem que tivera sido em tempos um guerreiro…e pela cara, reflectida nas paredes espelho do café, não parecia ter enferrujado. Era mais um tigre, enjaulado, só à espera do momento certo para atacar. Então fora essa a sensação que tivera percorrido o meu coração quando conheci-o.

Embora a música do disco de vinil de Marlene Dietrich estivesse a tocar como se o tempo não tivesse passado, eu sentia que o vibrador do meu telemóvel estava a fazer cócegas nas minhas pernas. Os carros, modernos e pintados com cores resplandecentes passavam na rua molhada e enublada com uma velocidade estonteante, como fantasmas. Só pedia aos Deuses que não fosse o Pedro!

O outrora e futuro Duque da Cidade Perdida (pelo andar que as coisas vão, tenho a ligeira sensação que o Wilhelm não vai ficar no seu trono de Duque durante muito tempo) acabou o cigarro. O seu olhar era ríspido enquanto se levantava da cadeira. As mãos compridas e enrugadas tinham deixado dois Fenixinianos pelos dois cafés. Porém, ao mesmo tempo, eu tinha a ligeira sensação que ele escondia algo mais dentro do sobretudo do que a carteira, algo longo e letal, embainhado num estojo de couro preto.

- Pensa o que quiseres, Jessica. No entanto, se eu vir esse metade humano a aproximar-se de ti mais uma vez que seja…  

O movimento foi tão rápido que eu quase tive de usar a cadeira para proteger o meu querido telemóvel! As aulas de karaté ainda estão um pouco vívidas na minha memória, e a adrenalina de combater com alguém mais forte do que eu fez com que gotas de suor frio caissem da minha testa, agora com o cabelo ruivo despenteado. Eu sei que o meu avô não me queria magoar…mas ele desfizera as duas moedas de cobre em quatro!

O dono do café arregalou os olhos, meio escondido atrás do balcão. Tão depressa como tinha aparecido,  a lâmina afiada do meu avô escondeu-se (como uma serpente) no sobretudo preto e resistente.

- Não se preocupe, meu bom homem. – Disse o meu avô num tom mais cortês. Atirou-lhe três notas de trinta Fenixninians até ao balcão. – Isto é o suficiente para cobrir os estragos?

- Chega e sobra, Vossa Senhoria, Sr. Von Tifon! – Gaguejou o dono, enquanto agarrava nos noventa Fenixninians como se fossem três botes salva-vidas.  

Eu revirei os olhos, ao ver naquele homem o mafioso Grão-Mestre da Irmandade do Tigre Azul, espelhado nos vidros turvos das janelas do café.   

Um café com canela às sete

Olá, daqui Jessica Von Tifon, a bruxa que vos contou as histórias da família mais louca do mundo - a seguir aos Addams, a sério, a minha família é um manicómio!

Quando penso que toda a gente vê-me como uma rapariga super simpática, amiga dos outros e com um humor muito refinado, ninguém diz: "Lá vem a neta do Duque Von Tifon..." ou "Olha, cuidado com a bruxa!" A minha família é que me conhece... É verdade é que sim, posso ser um pouco mázinha quando quero. Mas hei, a minha mãe era uma leoa com os homens, o meu avô era um pouco excêntrico (se bem que até acho que podia dar-me muito bem com ele)...Não me podem culpar por ser assim. Uma vez, um colega meu e a minha pessoa estávamos a conversar calmamente. Quando eu lhe digo que as raparigas Bellantes são simpáticas, ele diz-me assim, com toda a naturalidade do mundo, como se soubesse perfeitamente como é que são todas as mulheres bellantes, sejam elas humanas ou bruxas:

"Cá para mim as miúdas são todas umas piegas..."

Ai, valha-me santa pachorra, senão fosse a minha paciência de santa - que apesar de ser uma bruxa, ainda tenho uns nervos de aço, digo-te - eu juro que lhe dizia quem eram as piegas! Dava-lhe um murro no sítio que eu cá sei que ele perdia logo a vontade de repetir a graça. Porém, uma vez que os meus lindos olhos verdes (que nisso, são iguaizinhos aos do meu avô) não sabem mentir, o franganote lá disse, um pouco assustado:

- Sem ofensa, Jessica! Tu não és assim, tu até és muito fixe...

- Podias inventar uma desculpa qualquer para dizeres que estás com medo de mim, Thaiko! - Disse eu num tom desconfiado, muito mais amargo que o café que me fora servido. 

O Thaiko, que apesar de ser mais velho que eu, com um ar de quem preferia estar à chuva do que estar a ouvir os meus comentários sinceros, tentou desviar a conversa para algo menos embaraçoso:

-  Então...ouvi dizer que acabaste com o Pedro...porque é que fizeste isso? - Perguntou num tom um pouco curioso, como se tivesse pena do cyborg.

- Não foi por causa do Fixtanea ou do meu padrasto, se é isso que estás a pensar. - Bebi um pouco do café, pensativa. À noite, continuo a perguntar-me a mim mesma porque raio teria feito tal coisa, mas quando via o Pedro agarrado à Sara, muito apaixonado por ela, não conseguia ter pena dele. Dela, com certeza que tinha, aquela rapariga já nasceu ingénua! - Além disso, ele desiludiu-me e os tipos que desiludem-me não merecem o meu amor.

O café do coitado do Thaiko já estava frio de tanto ele mexer nervosamente com a colher.

 - Ah...então não te importas com o que possa acontecer com ele?

- Cá por mim ele até podia ser atropelado por um carro da SPV... - Comentei enquanto sorvia calmamente o café com canela.

Eu até podia dizer isso com a maior das indiferenças, mas no fundo, sabia que estava a chorar por dentro. Também aquele palerma não merece que eu esteja a deitar ranho por tudo o que é sítio. Estava um dia de chuva, húmido como eu sei lá o quê. Tal e qual como em Londres...Não sei porquê, mas sempre que estou triste, vem-me à memória os dias cinzentos em que estava sozinha em Londres.

 Numa das janelas enevoadas e turvas com a chuva gelada, vi dois olhos azuis a espreitar. O Thaiko tremeu ao ver o que eu vi, mas eu não tremi. Tinha saudades do meu avô - isto é, do meu pai - e realmente, agora que sei que o Fixtanea era realmente o meu avô (Adrian Demetrius Von Tifon) disfarçado, não consigo odiá-lo. Quando cheguei à Bellanária e ouvi falar sobre ele, não deixava de pensar: "Deve ter sido um homem incrivelmente poderoso!" Depois, tenho tantas perguntas para lhe fazer...

Estou a falar como se fosse a Sara não é? Mas isso de eu ser curiosa já é de família.
O meu avô caminhou calmamente no café um pouco...Como é que eu hei-de dizer isto de uma forma simpática? Ah sim, era um café um pouco rasca. Enfim, os amigos da Sara nunca podem ter bom gosto. O cáfé chamava-se Doçaria Madrid, e, exceptuando os bolos, o café vinha sempre queimado. Mas é um daqueles lugares em que uma pessoa vai e nem a chuva parece assim tão deprimente, com o ar velho e o cheiro a anúncios dos Anos 20 com Art Novae esparramados pela parede dourada.

Estava a usar uns sapatos italianos pretos, com um sobretudo preto, e um cachecol bem elegante. Definitivamente não estava com cara de quem estava contente por me encontrar num sítio daqueles. Ao fechar o guarda-chuva (para alívio do dono do café, que era mais supersticioso do que a nossa vizinha de Merlonogrado, uma velha mas tão velha que a canção Portuguesa "Era uma velha que morava numa ilha..." faz com que eu desate às gargalhadas sempre que a ouço) ele pediu o mesmo que eu: um café preto com canela. O dono lá acenou aos tremeliques que sim, Vossa Alteza, é para já! As pessoas com mais de setenta anos ainda se lembram do homem cuja voz na rádio lhes fazia um calafrio na espinha.  E pensar que o meu avô é muito mais velho que os humanos e consegue andar àquela chuva sem soltar um único espirro!

Sentou-se à minha frente, enquanto o Thaiko retirava-se discretamente com um ar de quem não queria ser olhado de lado pelos clientes. Eu tiro o casaco e quando toda a gente vê a marca do falcão dourado com os três fogos-fátuos no meu pulso direito, é como se caísse um silêncio de cortar à faca sempre que vou a algum sítio!

Até pareciam bóis a olharem para um palácio...

Lançei um olhar um pouco carrancudo para os outros clientes.

- Que foi? Nunca viram um homem a tomar café com a neta?! - Perguntei com um ar muito indignado.

E de imediato os outros clientes pararam de olhar e retomaram ao que estavam a fazer. Revirei os olhos, aborrecida com uma das mãos na colher, brincando um pouco com a ressonância da chávena de vidro. 

- Palermas... - Murmurei entre dentes.


O meu avô soltou uma fungadela divertida, enquanto agradecia com um acenar cortês pelo café à empregada Lituana.

- Lembras-me a tua mãe…

- Mas porque raio é que lhe lembro a maluca da minha mãe? – Perguntei, admirada com a pergunta.

Ao sorver um pouco do café com o mindinho esticado, ele esboçou um sorriso ao dizer em Alemão:

- Du kommst auf meine Mutter…Bist du jörzenig wegen dieses idiöten shy-bata?

Tendo a esquecer-me que o meu avô não sabe falar assim tão bem Inglês quanto o Alemão, o que por vezes é um bocado chato. Não consigo perceber metade do que ele diz em Alemão por causa do sotaque de Shunamari e quando fala, é quase num sussurro. A minha mãe também tem esse sotaque, mas o Inglês dela tem um sotaque Americano fluente.   

Conformada, encolhi os ombros.

- Se está a falar daquele palerma do Pedro, então não, não estou chateada! – Respondi num tom muito rude e zangado. – E se quer que lhe diga o senhor não tem nada que me seguir para onde quer que vá…

Ao pegar na minha mão ele começou a falar em Bellante do Norte:

- Estava preocupado contigo, saíres assim sozinha de madrugada! Pensei que tinhas perdoado aquilo.

Ri-me, como se não acreditasse no tom amável dele. E não acredito mesmo, eu sei perfeitamente que o meu avô esconde sempre qualquer coisa por detrás de uma voz viril, grave e autoritária que por vezes é sedutora.








segunda-feira, 26 de março de 2012

Primavera do Sul e Inverno Nortenho


Svetrlyu Krissmas kçe Panketrlabiellatualztli

Feliz Festival das Bandeiras e Boas Festas Nacionais!
Basicamente era o que estava escrito no dialecto Bellante Padrão, no dialecto Bellante do Norte, no dialecto Tienense (uma variedade do Japonês), em Inglês, em Russo, e em Alemão, numa tinta dourada num fundo azul-escuro, em três faixas que decoravam um portão de alabastro que costumava ser usado como um antigo torii , retirado de uma cidade antiga do Norte.
O Festival das Bandeiras é também uma maneira da minoria Cristã festejar o Natal no Império Bellante. No refinado e luxuoso salão barroco, com uma iluminação toda ela a óleo e a velas, o ambiente era deveras gótico. Uma música de fundo - esta tocada por músicos com amplificadores - era tipicamente Bellante, com uns instrumentos das mais variadas origens.
No meio de cada janela comprida e clássica, em forma de arco (quase a imitar as antigas janelas dos palácios dos sultões na Índia) havía uma estátua a representar uma das inúmeras Imperatrizes que a Bellanária teve, todas elas esculpidas como mulheres extremamente belas, tal como as estátuas Gregas de um templo. No entanto, os artistas tinham decidido por manter a beleza original de cada uma da nacionalidade e época da etnia reinante. Começava pela estátua de Melnjar I, e ía até Swerdinada Eudóxia Patrícia Di Neptunus, a mãe da Serpente de Fogo. Quase no fim, havía uma mulher com uma placa a dizer:

Nilampadma II Jagannhati, filha do Rei dos Dragões Jagannhata XXII com a Imperatriz Claudinitiana Xóchitl III. Mãe do Imperador Tsubasa Kleitsuitl. Nascida em 24 de Março de 1720 e morreu em 2 de Janeiro de 1769, cada com Ayumu Tokugawa.

Era a tetra-avó da Serpente de Fogo. Talvez seja por isso que ela tenha aquele longo cabelo negro. Portanto, pelo que eu percebi, era muito raro haver filhos na antiga Corte Imperial Bellante, e se os houvesse, o poder era automaticamente dado à filha mais velha. Para uma sociedade muito machista, isso é um bocado esquisito. Bom, se calhar os Bellantes tinham aprendido que só uma mulher conseguiria controlar a sede de sangue humano dos Deuses pelos seus antepassados meso-americanos. Pelo que sei sobre a longa Dinastia Di Neptunus - que, segundo dizem começou desde os princípios da fundação das Ilhas Bellantes - Swerdinada II Eudóxia Patrícia Di Neptunus tinha antepassados Nahualli, Gregos, dos Naga, Japoneses, Russos e até Alemães!
Os Bellantes - pelo menos a maioria - acredita no Shamanismo e no Espiritismo. Ou seja, nós acreditamos nos espíritos que vivem na Natureza e em fantasmas. Tanto nos palácios e templos do sul, como nos castelos do norte da Grande Ilha, é normal verem-se estátuas dos antepassados mais célebres...quer eles tenham sido bondosos ou crúeis para com a sua gente.
Quando reparei que haviam mais estátuas, desta vez, de homens, fiquei espantada. Os Imperadores eram mais altos - ou tinham sido esculpidos numa escala maior que o das Imperatrizes - que as suas respectivas esposas. Os rostos eram normalmente mais severos do que os das mulheres. Cada um usava uma lança ou uma espada à cintura, e com uma posição quase militarística, até parecía que estavam a proteger as Imperatrizes.
Como não podía deixar de ser, o salão tinha o brasão Imperial com o Dragão Japonês e o Jaguar Azteca em cada uma das longas cortinas vermelhas e azuis-esuras. Aposto que o dragão Japonês era dourado na cortina vermelha e o jaguar era prateado no fundo azul das outras cortinas. Se pensas que isto só apareceu a partir do reinado da Serpente de Fogo, enganas-te redondamente...os Bellantes sempre se orgulharam da sua aliança com os Japoneses, desde os princípios do século doze.
O Festival das Bandeiras é um pouco ambíguo: de uma forma, festeja a Independência Bellante, e ao mesmo tempo, há vários símbolos de outros países em cada uma das regiões e ilhas... No entanto, todos os Deuses, Feiticeiros Brancos, Fadas, e outras tantas personalidades importantes estavam presentes em Suryadevnahutbal.
O ambiente era festivo, e sobre a luz do luar e das velas, todos riam-se, todos dançavam, e todos cantavam ao ritmo da música alegre e patriótica no Bellante padrão da Cidade dos Deuses.

Aí vem o Avô Inverno, com o seu sotaque exótico,

Com as suas luvas de gelo, ele abre o pórtico
Para as flores de pessegueiro,
Para as camélias, vermelhas com o meu guerreiro...

Querida terra coberta do branco,

Como estás bela hoje no teu aveludado manto,
Oferecido pelo deus das nevadas,
És um país cheio de donzelas encantadas!

O senhor Inverno, como bom feiticeiro educado,

Avisa sempre o dia e a hora da sua chegada,
E a Bellanária recebe-o, qual dama amada,
Que estranho casal este, nunca se viu no mundo civilizado!

E ela suspira quando ele lhe diz:

Querida terra coberta do branco,

Como estás bela hoje no teu aveludado manto,
Oferecido pelo deus das nevadas,
És um país cheio de donzelas encantadas!

O Avô Inverno

Está a sempre a mudar de lugar
É um viajante eterno,
Que nunca nos deixa de espantar,
Com o seu vento que gela até o Inferno!

Mas é da Bellanária que ele gosta mais,

Menina jovem, ladina, nunca teve pais,
Ela gosta muito de brincar,
Querida criança decorada com fitas azuis a imitar o mar,
Se alguma vez ela pudesse amar...!

E o Senhor Inverno lhe diria:

Querida terra coberta de branco,

Como estás bela hoje no teu aveludado manto,
Oferecido pelo deus das nevadas,
És um país de donzelas encantadas!

Quando passeei, um pouco distraída em direcção ao fundo do salão, reparei que a voz com sotaque Russo era a de Nina Malaghetyeva, a nona filha de Kasimir Malaghetyev. O rufo dos tambores era contagiante, e em breve, tanto eu, como a Sara, a Nuo, a Tsuna, e a Sumitraijin estávamos a dançar ao ritmo da canção alegre! Os Deuses estavam a envergar - só eles é que eram permitidos usar aquelas cores vistosas no Festival das Bandeiras - túnicas cobertas de plumas coloridas, que iam desde o vermelho até à opala brilhante, o verde esmeralda, o azul-escuro e o prateado. A típica música Bellante, exótica, quente, tão picante quanto o molho de piri-piri tropical das Ilhas de Shunrasen que os seus habitantes põem nas tortilhas, era maravilhosa e milenar...!

Deve ser por isso que a Senhora Bilafassabnsair (ou a própria Bellanária) é representada como uma jovem exuberante de longos cabelos negros, com um toucado de penas de quétzal verdes e perfumados de várias flores, com um xaile cor-de-rosa a cobrir-lhe dois terços dos seios avantajados e uma saia comprida, justa e dourada (como símbolo das temperaturas quentes das ilhas do Sul). No Festival das Bandeiras, ela é acompanhada pelo "Avô Inverno", o "Senhor Inverno", ou simplesmente "deus das nevadas", um homem de aspecto Japonês (ou pelo menos que se assemelha a um homem estrangeiro, de meia-idade, alto, sisudo e pálido...mais concrectamente, a um bruxo). Algumas vezes é a própria figura do Mestre Rwebertan Samiel Di Euncätzio que personifica o Norte e o Inverno. Há quase dois mil anos, a figura mais parecida com a personificação do Inverno era o antigo Itztlacoliuhqui-Ixquimilli (Ponta Curva de Obsidiana - Olho de Adaga). Com a vinda do Assassino do Amor e do Ded Moroz , este deus acabou por ser esquecido e morrer. No entanto, o Senhor Inverno carrega sempre consigo uma espada curva de obsidiana e a maior parte dos avôs nesta época tentam pôr os olhos mais penetrantes e oblíquos para se assemelharem aos olhos " em forma de adaga" do antigo deus.

Pois é, o Festival das Bandeiras tem muito que se lhe diga... As três figuras centrais são o Senhor Inverno, a Bellanária e a Imperatriz ancestral Melnjar I.

A Sara tinha-me contado, antes de chegarmos ao Suryadevnahutbal, que normalmente no Festival das Bandeiras, a apresentadora está vestida como a Senhora Bilafassabnsair e o anfitrião ou estava a envergar as roupas do Assassino do Amor, ou disfarçado do Senhor Inverno. Bem, a Nina tem um cabelo muito comprido, mas é loura e é também um pouco alta demais para se fazer de Deusa com origens Aztecas. Quanto ao anfitrião, nem sinal dele...!



terça-feira, 20 de março de 2012

Interrogatório entre o pó-de-arroz

A Rainha das Fadas, com um elegante vestido, cruzou os braços, como se estivesse muito desconfiada de que algo de mal pudesse vir a acontecer à pequena Tsuna. Os olhos delapidados e suaves, mas austeros da Senhora Roshini dardejaram para a janela.




- É melhor fecharem aquela janela senão ainda vai acontecer uma desgraça! - Avisou a experiente fada de um metro e cinquenta de altura.




Eu estava completamente aparvalhada: a Tia Charlotte, a Tia Irene e algumas ondinas correram apressadas para a janela e fecharam-na com o trinco. Até parecía que estavam com medo que algum demónio tivesse possuído a minha irmã Tsuna! A Tia Charlotte estava mais branca do que um papel, a Tia Irene até fazía uma careta de quem tinha comido algo estragado, e a Sara, no seu cantinho, a tremer que nem varas verdes.




Um pouco nervosa, a minha tia Chinesa com um metro e setenta soltou um suspiro, muito aliviada. Estava com uma das mãos ainda na fechadura do trinco da grande janela, e a outra no braço da filha. O cenário era no mínimo ridículo. Quer dizer, eu sei que os bruxos costumam ser um pouco perversos, mas nós estávamos no terceiro andar. Duvido que conseguissem ver qualquer coisa de cá dentro.




Arqueei as sobrancelhas, espantada com o facto de que todas as fadas, raparigas humanas, e feiticeiras tinham ficado um pouco perturbadas com aquele episódio esquisitíssimo.




- Bem, se a Tia age assim por causa de um carro fora do prazo desconhecido, nem quero saber como é que é quando aparece o Lao lá em casa... - Comentei, ao tirar os sapatos de salto-alto, cansada. - Vou tomar um banho.

De repente reparei que a Rainha das Fadas, como se fosse uma senhora daquelas actrizes Chinesas que vemos nos filmes Bellantes - que, para tua informação, são a maior seca do mundo, sem contar com o facto de que eu só percebo metade do que eles dizem em Bellante do Norte - dos decadentes e poeirentos cinemas em Shunamari , estava a agarrar-me. Até parecía a que fazía de mãe da Elizabeth Montgomery no Bewitched . As únicas diferenças são: a Senhora Roshini não tem um ar nada excêntrico de mulher Americana e de bruxa muito menos! É só porque ela estava a olhar-me com uma cara de quem conseguía ler-me os pensamentos. Hey, não comeces a gozar, a dizer que eu sou cota e não sei que mais!
É só porque o meu avô - sabe-se lá como - tinha gravado os episódios todos a preto e branco da série original dos Anos 50 - e aos sábados, costumava arrastar-me só para eu vê-los com ele. Eu cá nunca achei lá muita piada a sitcoms Americanas. Não têm imaginação nenhuma e a política do "nonsense" na série estava com uns efeitos especiais tão foleiros que eu prefería mais ver uma repetição do 'Allo 'Allo do que ter de aturar aquele sotaquezinho à Americana. A única série que eu achava muita piada era o Twilight Zone . Algumas vezes até penso que vou acordar e o Rod Sterling vai aparecer e dizer com aquela voz sinistra: "Ela está presa no Twilight Zone..." Mas não, a única coisa que ouço é o toque " poison" do Alice Cooper no meu telemóvel como despertador.
A sério, porque, com tanta magia e tanto mistério e tanto militarismo, bem podiam fazer da minha na Bellanária uma daquelas séries foleiras que só dá à meia-noite, para os miúdos não verem, com bola vermelha e tudo.
É por estas e por outras que eu fico admirada: como é que alguém como a Sra. Irene Plah pode ter permitido que a minha mãe adoptasse a pobre coitada da Tsuna?! A Tsuna, ultimamente tem tido a mania de pôr no siemens dela o toque do D'artacão às sete da manhã. É irritante, para uma rapariga como eu que prefere os Black Sabbath ou os Iron Maiden como despertador...sinceramente, qualquer dia perco a cabeça e ainda arrombo a porta e grito a altos-pulmões: "Porque é que não desligas essa porcaria?! Estou a tentar dormir! " A Tsuna, música ocidental ela só gosta das Spice Girls (devíam chamar-se as Raparigas da Merda) e da Britney Spears ...com tanto mau-gosto, não sei aonde é que as orelhas da Tsunazinha vão parar.
Enfim...como eu estava a dizer, a Rainha das Fadas estava a prender o meu braço com uma das mãos, enquanto que olhava para mim como se eu fosse uma das dançarinas do "Survivor" da Beyoncé.
- Tu...tu és como uma irmã mais velha para a Tsuna...como é que tu deixaste que ela ficasse assim, nas garras de um louco qualquer?! - Ela exclamou muito irritada.
Tenho de confessar: fiquei muito admirada quando ela falou num Inglês fluentíssimo. Arqueei as sobrancelhas, com o orgulho ferido evidente nos meus olhos. Não, ela não podía estar a falar comigo! Eu sou a Miss Responsável, eu, que certifico-me sempre que o telemóvel da Menina Tsuna está sempre com a bateria cheia, eu que vejo se ela tem o lanche todo pronto para a escolinha dela!
- Peço imensas desculpas, minha senhora, mas eu não fiz absolutamente nada de mal para que a Menina Tsuna ficasse assim! Se ela dá conversa a estranhos, a culpa é dela, não minha... - Mordi os lábios, antes que pudesse dizer mais alguma coisa, quase numa forma disfarçada de mostrar que estava envergonhada. Tinha metido a pata na poça!
A Tia Irene arregalou os olhos, ainda mais irritada do que a própria Senhora Roshini. Apontou com a unha envernizada para mim, como se fosse uma advogada de acusação, mas ao mesmo tempo, a tremer, como se estivesse na Oprah Show:
- A culpa é toda tua, minha menina! Por tua culpa, a minha filhinha está naquele estado...
- Mas que raio é que a minha filha te fez para ficares toda lixada, Irene?! - Exclamou a minha mãe, que até parecía uma mártir, com uma das mãos pintadas com verniz vermelho para o peito.
A Tia Irene esboçou um sorriso sarcástico, enquanto ainda abraçava a filha com um ar extremamente protector.
- Ah, pois claro, quando se trata de defenderes os teus interesses, lábia não te falta, não é Katharina?
- Vais bater, é Irene? Sim, porque nem que um raio me caísse em cima da minha cabecinha linda é que eu deixava que tocasses num único fio de cabelo da minha filha! - A minha mãe quase que arranhava as portas dos cubículos onde estavam os chuveiros.
- Não me provoques, Katharina! - Cuspiu a Tia Irene, que já estava a começar a ficar farta do tom falso que a irmã falava com ela.
De imediato, a Mãe, como é habitual nela (nisso ela e a Serpente de Fogo são iguaizinhas) ficou fora de si.
- Chinesa imunda! - A minha mãe estava toda vermelha, ao gritar em Japonês aquelas mesmíssimas palavras.
E, surpreendentemente, a Tia Irene ficou tão irritada que atirou-se à minha mãe como se fosse uma leoa furiosa a tentar proteger as crias.
- Eu vou-te arrancar essas verrugas todas à dentada! - Berrou a Tia Irene, já com o cabelo negro todo despenteado.
E eu ali, no meio daquela algazarra toda, um pouco embaraçada pelo facto de que as mulheres na minha família eram assim. Palavra que nunca me chateei assim tanto...Será que sou adoptada, como a Tsuna? Pensei, ao levantar um pouco os bordos da saia curta do meu vestido, enquanto olhava com um ar de quem não quer a coisa, para o meu pulso. Não, infelizmente, eu sou tão Von Tifon como a tia Charlotte e a Mãe. Ainda tinha aquela tatuagem no pulso.
Tentei fugir daquela confusão, e dei com a Tsuna, que estava a secar (ainda!) o cabelo lustroso e negro. A imagem reflectida daqueles olhinhos castanhos era tão triste como uma ovelha perdida.
Algumas vezes pergunto-me quem é que teve a ideia peregrina de lhe pôr um nome daqueles, tão infantil e amenininado.
Debruçei-me na borda da banca e lancei-lhe um sorriso:
- Tsuna...tu chamas-te mesmo assim?
Sem que eu desse por isso, ela já se estava a rir.
- Claro que não! Onde é que já se viu uma rapariga chamar-se assim? - Exclamou ela, com uma maturidade estranha para uma miúda de treze anos. - Não, o meu nome completo é Tsukiko Nuan Von Zaubermann...
Revirei os olhos, muito admirada. Nunca imaginara que a Tsuna também tivesse descendência Alemã, mas enfim, o mundo é mesmo pequeno...
- Para uma Chinesa, tens um nome muito multicultural...
- Por favor, Jessica, não digas à Mamã que eu disse-te isto... - Ela corou, muito envergonhada, num fiozinho de voz. - Ela não gosta lá muito que eu fale sobre o meu pai.
Agora estava curiosa...O que é que a Tia Irene (que não é realmente minha tia, mas bem que podía ser) andará a esconder que seja assim tão importante ao ponto de fazer com que a filha diga que o nome dela é Tsuna?! Bom, de qualquer maneira, já me habituei tantas vezes a chamar-lhe de Tsuna que não é agora que vou começar a tratar-lhe por Tsukiko Nuan Von Zaubermann. Contudo, já estava mais que pronta para ir para o salão de baile. Mas eu tenho um bicho-carpinteiro para o mexerico: chamem-me o que quiserem, por mim, acho que era mais preocupação do que meter o bedelho aonde não sou chamada.
Olhei-a conspicuamente.
- Estás com um ar de quem quer contar-me mais alguma coisa... Diz lá, eu não vou ficar passada dos carretos. - Disse, com um ar de quem era mesmo a irmã mais velha dela.
Cabisbaixa, a Tsuna soltou um suspiro, digno daquelas rapariguinhas que se vê nos mesmos filmes antigos Chineses, mas que são todas muito bonitas.
- Não gosto que a Mamã e que a tua Mãe andem a discutir...A culpa é minha por ter sido raptada e de mais ninguém. - Murmurou ela, com pena de si própria.
- Que dizes? A culpa é minha, Tsuna, que sou uma despassarada... - Tentei animá-la, mas nem com o meu riso forçado e embaraçoso ela sorriu. - O que é que se passa?
- Bom... lembras-te daquela noite em que eu só voltei de madrugada e a Imperatriz deu-me um sermão enorme? - Disse ela muito envergonhada.
Acenei com a cabeça, ansiosa por saber mais. Afinal de contas, tratava-se da segurança da minha irmãzinha, e eu também quería saber o que é que se tinha passado para ela voltar como se tivesse ido para sítios que meninas tão pequenas como ela não devem frequentar. Tinha sido há coisa de um mês, mesmo depois do Dia da Magia Negra, quando eu estava muito atarefada com os testes e sempre que chegava ao Château, punha-me a estudar que nem uma doida.
- Foi numa quinta-feira, não foi? - Fez uma leve pausa, ao encarar-me com um ar inocente.
- Sim, tu tens piscina às quintas. - Respondi pensativa, ao imaginar que tipo de coisas é que tinham acontecido à pobre da Tsuna.
- Eu ía telefonar-te, (tu sabes como aquilo é muito longe, fica perto da Vila Enublada) para chamares o Nälden para me dar boleia. A partir das sete e meia nunca há autocarros para a estação de metro, e lá estava eu, enregelada, perto da paragem de autocarro. Quando estava quase a abrir o guarda-chuva para ir para a estação a pé, uma limusina estacionou de repente.
- Que tipo de limusina? - Perguntei, um pouco admirada. Normalmente, os bruxos nunca vão à Vila Enublada. Aquilo fica no meio dos montes, num vale cheio de arvoredo e com um lago perto.
A Tsuna encolheu os ombros.
- Não conheço marcas de carros, nem coisas dessas. Mas era grande e cinzento, com um motorista à frente.
- Conseguiste ver a cara desse homem? - Falei, desta vez na minha língua materna. Estava um pouco cansada de falar no dialecto Bellante do Norte.
A minha irmãzinha abanou de imediato a cabeça.
- Não, estava muito escuro e ainda por cima com a chuva... Tu sabes que na Vila Enublada não há quase electricidade nenhuma. Eles vivem na idade da pedra! - Exclamou a Tsuna, e ao ouvir o que tinha dito, corou muito embaraçada e pôs a mão na boca. - Não devía ter dito isto. Enfim...
Soltei uma fungadela divertida. Parece que a Tsuna está a aprender comigo a ser mais sincera e a não esconder assim tanto os sentimentos dela. Com as mãos apoiadas no queixo e os cotovelos na banca, até parecía que estávamos a cochichar de "bonzões" daquelas revistas foleiras de adolescentes.
- Esse motorista...ele falou contigo?! - Exclamei, um pouco espantada. - Conseguiste ver pela voz se era novo ou velho?
- Não, havía outro homem no assento de trás, com uma boquilha preta a segurar um cigarro. O que estava sentado atrás tinha a janela aberta e chamou-me com uma voz grave, sabes, daquele tipo de voz que se esperaria de um bruxo Japonês. Fiquei muito arrepiada: ele tratou-me por "Tsuna-chan". De repente, reparei que estava a falar em Inglês com um sotaque Espanhol, e não em Bellante, Alemão ou Japonês. Era o Sr. Fixtanea...
Arregalei os olhos, desconfiada.
- Mas o que é que esse velho sacana quería de ti a essas horas?!
- Nada! Ele só pediu-me para que me aproximasse, e eu fiz isso. - Ela respondeu, ofendida, como se eu estivesse a duvidar da palavra dela. - Depois perguntou-me como é que eu estava, e se precisava de boleia...
Cruzei os braços, um pouco chateada. Mas ela não sabe que é perigoso aceitar boleias de tipos esquisitos, quanto mais um velho bruxo como o Fixtanea?! Lancei-lhe um olhar desaprovador:
- Tu não sabes marcar o número do Palácio das Reuniões no telemóvel? Se fosse a ti e visse esse maluco à noite, ainda por cima com chuva, chamava logo a polícia... - Comentei, num tom mais honesto.
- O Sr. Fixtanea não é nenhum Assassino do Amor, Jessica! - Ela respondeu. Contudo, recuperou de imediato a calma, ao corar, um pouco envergonhada. - Ou pelo menos eu pensava que ele não era... Eu estava sozinha, Jessica...
Enquanto se penteava, a minha irmãzinha olhou para mim, pouco à-vontade para falar daquele assunto e acrescentou:
- Fiquei tão contente com a notícia que aceitei com um sorriso na cara... Entrei no carro, ao pé do Sr. Fixtanea, que olhava para mim como se eu fosse neta dele ou qualquer coisa parecida. Era muito mais comfortável do que estar à chuva! Os assentos de couro vermelhos davam uma sensação quente. Cheirava muito a tabaco amargo e seco, e a única luz que havía era um candeeiro à moda antiga, verde-escuro. O motorista pousou o guarda-chuva nos assentos de frente e pôs uma manta nas minhas pernas, o que me soube muito bem depois de estar ao frio com uma ventania horrível. Com a luz, reparei que este tinha uns olhos negros, e o nariz era fino. Parecía ser do lado da família da Avó Murakami. "Com licença, menina". Disse ele em Japonês, num sotaque da Cidade Perdida. A seguir, voltou para os lugares da frente e fez as mudanças.
Soltei um suspiro, frustrada, ainda com os braços cruzados.
- É uma pena que não conheça ninguém da família do lado da Avó.... - Disse eu. Estava a começar a ficar pelos cabelos com tanto mistério! Percuti com os dedos no braço esquerdo. - E o que é que aconteceu depois disso?
Muito assustada, ela engoliu em seco e confessou, numa voz que traía o seu rosto que tentava a todo o custo não parecer nervosa:
- Não sei...
- Não sabes?! Mas se tu te lembras do que é que aconteceu antes do raio do homem acelerar para Shunamari?! - Exclamei, agora verdadeiramente preocupada.
Tsuna bocejou, um pouco cansada. Não era para menos, já eram dez e meia da noite. Nem sei porque é que a convidei para isto, além disso, ela não é praticamente do tipo de miúda que gosta de quebrar barreiras.
- Só me lembro que estava muito contente e a rir que nem uma perdida, depois, adormeci... Lembro-me também de uma música a altos-berros que quase arrebentava-me os tímpanos. Tipo daquelas que se ouve nas discotecas em Cyborg Town...?
Sem querer a minha Mãe olhou para ela, um pouco apreensiva. Porque é que ela tem sempre de se meter nas nossas conversas? A sério, a minha mãe, com aquele cabelo enorme, felpudo, louro e rebelde (o enorme e rebelde são um pouco das características que herdei daquela bruxa com a manía que é a Marylin Monroe) quase que estava fazer-me sufocar, atrás de mim, como se fosse da minha idade, ou um ano mais nova que eu!
- Se calhar é melhor ires embora, Tsunazinha, esta festa vai ser um pouco pesada...
A Serpente de Fogo, com um ar de quem quería fazer pouco da Tsuna, esboçou um sorriso sarcástico, ao olhar com os seus olhos de sereia fora de prazo:
- Não me digas, Katharina, querida...!
Cá para mim, ela até podía tropeçar nos sapatos de salto-alto cor de diamantes e o pézinho dela se transformar num lindo trambolho!
Mal tive tempo para ruminar sobre o que teria acontecido a Tsuna há um mês atrás, porque uma voz nos altifalantes (provavelmente uma mulher do Norte da Bellanária, com um sotaque Eslavo) anunciou:
- É favor as senhoras convidadas e meninas dirigirem-se ao salão onde o Baile de Gala de Natal terá lugar.
Lá, teríamos de esperar pelo misterioso anfitrião que tivera financiado o imenso e opulento baile de solstício de Inverno....

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Chorão dos Castigos

Poema dedicado à Princesa Anjali Sarvahdinada de Rwebertan Samiel Di Euncätzio. Esta trovi, traduzida do Bellante Arcaico só para vocês, é conhecida como "Chorão dos Castigos"...é um post-mortem, um poema que só foi encontrado e publicado depois da morte do temível Assassino do Amor. Traduzido primeiro do Chinês para o Japonês em 1323, e depois para o Bellante Arcaico do Norte (uma língua morta muito semelhante em fonética e em grafia ao Japonês da altura), o poema é um favorito dos feiticeiros quando cantam ou num tom triste, ou num tom mais alegre, o seu amor às mulheres.

Para compreendermos o poema na sua totalidade: na primeira quintilha (nunca quatro, porque na tradição oriental, quatro era um número de mau-agouro, demonstrando o carácter supersticioso de feiticeiro de Samiel, cinco, tal como o pentagrama) nessa altura, folhas secas - Outono - era um sinónimo para uma mulher de meia-idade, que é exactamente o que o Assassino do Amor se assemelhava quando atingira os mil anos de idade. É uma referência ao Taoísmo e ao princípio feminino e masculino (yin-yang) a influenciar as quatro estações e a passagem da estação - envelhecer.

Na segunda quintilha, desta vez, o Mestre Samiel faz referência ao calendário lunar Bellante. Após o décimo oitavo mês do calendário lunar Bellante, apagavam-se as grandes lareiras que aqueciam as cidades bellantes num período de abstinência conhecido como Nenontemi - cinco dias de azar. Uma ironia ao comparar o número do azar Japonês com o número do azar Bellante - cinco. Mas é também uma metáfora para dizer que o ódio de Samiel pelo Império Bellante pode ser apagado na escuridão dos cinco dias azarentos. Ele está à espera que a Princesa tenha coragem para vir despedir-se dele depois do último mês como ele está prestes a morrer.

A quarta quintilha é um refrão, como se Samiel estivesse à espera que outros pusessem em forma musical o seu poema. O chorão na mitologia Bellante é símbolo de amor proíbido, e Samiel diz que sente-se castigado pelo Amor mas que este tem um doce aroma de paixão - o fruto da paixão - e a sexo.

Na quinta quintilha, o sujeito poético perde todas as estribeiras - como o povo diz - e confessa o desejo que sente pela pessoa amada. Na Bellanária, há uma espécie única de trevos de cor preta e que se assemelham a cabelos anelados. Mas no último verso da quintilha, ele desculpa-se num tom formal a pedir humildemente qualquer coisa....talvez seja só um beijo como diz a terceira quintilha...Ou talvez seja mais alguma coisa, ou seja, o corpo nu da princesa, uma coisa absolutamente escandalosa em pleno século catorze, não só para os Bellantes, como para os Chineses e Japoneses! Não admira que na versão Chinesa traduzida para o público e na versão Japonesa, esteja apenas - "seda pura do teu vestido" (túnica oriental) em vez de "a seda pura do vosso natural vestido" (como a princesa veio ao mundo).

Na sexta quintilha, o Assassino do Amor fala em sangue impuro - sangue que pode não ser Bellante, ou pode não ser humano (um demónio). Ele confessa que nem com a magia dele ele poderá purificar-se. Isto é uma óbvia referência à tradição hindu dos Rhakasas - demónios com olhos vermelhos. Mas Samiel diz que esses olhos azuis (azuis é uma metáfora para mortos, melancólicos, tristes) choram por ela.
Ele sofre tanto que, ao continuar para a sétima quintilha, pensa enforcar-se com a sua própria dor.

A oitava quintilha é uma repetição da quarta... E assim termina o sofrimento de Samiel com o castigo eterno...


Oh, linda princesa,
Não vedes que as folhas deste velho rosto,
Estão a secar? Se ao menos eu pudesse cumprir
A promessa,
De nunca mais vos ferir...

Se eu morrer,
Se o meu ódio se extinguir,
Como a chama do último mês,
A desaparecer de vez,
Até mim podereis vós vir?

Um beijo,
É só isso que vos peço!
Perdoai este bruxo malfazejo,
Perdoai, senão nunca mais cesso,
De chamar pelo vosso doce nome!

Porque será,
Porque será que terei de estar sempre preso,
Ao macabro chorão com perfume a maracujá?
Porque será que sempre que vos vejo,
Penso que saí de mais uma patifaria ileso?


Nos meus braços quero prender-vos,
Quero sentir a seda pura do vosso natural vestido,
Não haverá um momento em que não deixe
De me perder nos amorosos e macios trevos,
Dos vossos cabelos, acetai, minha senhora, este humilde pedido!


Este sangue impuro,
Que corre apenas por vós,
Nem com Magia Proíbida eu curo,
Estes olhos azuis rasgados, gelados,
Não vedes que o sangue que deitam já forma nós?


Nós horríveis de dor,
Que me estrangulam, apenas por amor,
Se alguma vez um inocente homem matei,
Foi apenas porque vos amo tanto,
E saiba que por vos, tudo ao Império eu perdoarei!


Porque será,
Porque será que terei de estar para sempre preso,
Ao macabro chorão com perfume a maracujá,
Porque será que sempre que vos vejo,
Penso que saí de mais uma patifaria ileso?

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O passeio com a flor de macieira


Verão de 1915
Era a terceira vez que ela estava com ele, e Kazuhiro não se decidia em dizê-lo. Gostava muito daquela rapariga humana com antepassados da família von Zaubermann. Os Von Zaubermann eram uma das famílias Alemãs mais influentes da Bellanária. Eram fidalgos, mas fidalgos a sério, com coroa e tudo! A rapariga entrara suavemente no carro dele e o jovem ficou desde logo excitado. No entanto, o seu semblante calmo não o traiu. Era uma situação já de si um pouco embaraçosa: um homem mais velho, uma jovem donzela de dezassete anos, Austríaca, com cabelos cor de trigo e uns lindos olhos cor de avelã. Ele sentiu que ela também estava nervosa, e por isso não deixou de pôr a mão na mão dela:
- Sente-se bem, Fräulein Gretel? - Perguntou, num tom delicado e gentil. - Se quiser, posso levá-la de volta até ao baronato da sua família...
- N-n-não, eu estou bem. - A jovem corou, muito vermelha, enquanto que se habituava ao calor que emanava da mão suave e carinhosa do bruxo. - É só que é a primeira vez que tenho um encontro a sério com um homem, e ainda por cima mais velho que eu...
- Não se preocupe, é a menina que decide para onde vamos. - Disse ele com um grande sorriso, ao deixar que o carro de luxo começasse a trabalhar. - Qual é o sítio que menos conhece na Bellanária?
Gretel estava só de passagem naquele Verão. Mesmo assim, queria aproveitar para conhecer melhor os sítios mais bonitos da pátria do seu pai, que era irmão do Barão Konrad Engelbert Ichirou Von Zaubermann, filho de um Ishikawa (outra família - para além da família Murakami - muito importante de feiticeiros Japoneses). Todo o exotismo daquela ilha enorme no Atlântico fascinava-a. Sentia-se sobretudo encantada pelas paisagens verdes da Floresta de Cristal.
O filho do Duque tinha-a ido buscar na fronteira da terra de Merlonogrado com o mar, no porto onde costumavam atracar muitos navios Russos.
E qual não foi o seu espanto quando se sentou à beira de Kazuhiro naquela limusina verde-escura, que tinha uma capota de pele bem resistente cor bege que combinava muito bem com o fato ocidental verde cor de cinza que o jovem bruxo usava naquela altura. Conseguiu sentir bem de perto a água de colónia dele. Ser-se filho de um dos homens mais poderosos do Império das Ilhas Bellantes - já para não falar do Duque ser um valente militar no Japão - tivesse um pouco a ver com o estilo refinado de Kazuhiro. Ela, uma filha de um homem que tinha desistido do seu título nobre para casar com uma viúva de um compositor Vienense, jamais poderia ser considerada como uma dama da alta sociedade Bellante! O que é que ele via nela?
Repentinamente, ela sentiu uma vez mais a mão enluvada do bruxo a tocar-lhe levemente na mão.
- Está a tremer, Fräulein Gretel...o que é que se passa? - A voz melíflua e cortês de Kazuhiro sussurrou no seu Alemão com um leve sotaque Japonês, que era tão agradável para os ouvidos de Gretel como uma poesia ao pequeno-almoço, numa manhã quente de Verão.
- Eu...eu acho que sentir-me-ia muito melhor se fôssemos para a floresta.
Kazuhiro, enquanto conduzia em direcção ao sul, começou a assobiar num tom doce e quase de brincadeira, uma canção Bellante, uma melodia que tinha não só um certo encanto semelhante ao dourado sedoso do pêssego, como a beleza de um violino. Os olhos de Gretel olhavam sonhadoramente para as altas e majestosas árvores do país.
Em breve, a jovem descobriu que Kazuhiro era tão falador quanto dizia que era. Contou-lhe sobre a vila de Itshaki, que ficava a uns poucos quilómetros da fronteira do ducado. Era uma vila que ficava perto do monte Yamakutlatectli, por onde nascia o Rio Gulmin, dando um ar fresco e silencioso à estrada acidentada, desenhada como se fosse uma interminável de espirais entre as colinas da fronteira do ducado. Ali, só se escutava o cantar suave dos pássaros e o vento a murmurar por entre as ervas altas dos campos. As cerejeiras ainda estavam em flor, dando ao horizonte uma tonalidade cor de rosa, mesmo que ainda fosse meio-dia. A vila era mesmo no fundo do vale, atravessando o rio como se fosse uma cidade flutuante. Ao longe, Gretel avistou um pagode Budista que devia ter centenas de anos! Era uma torre que apesar de ser velha, ainda se mantinha de pé. O rio murmurava uma antiga canção de um idioma desconhecido e exótico aos ouvidos da jovem rapariga Austríaca, e, quando Kazuhiro parou o carro, ela reparou que este não se atreveu a passar pela ponte de madeira para Itshaki.
- É uma ponte muito antiga, e o rio aqui é forte. - Ajudou-a a sair do carro com uma mão, enquanto que pegava na espada embainhada e a punha de novo a tiracolo na cintura. - Tem a certeza que fica bem com esses botins? O caminho até ao monte ainda é um pouco acidentado, não é?
Kazuhiro era um homem muito amável, mas ele estava sempre a fazer perguntas. Fazia com que ela se perguntasse a si própria se ele tivesse sido mesmo educado numa cidade Alemã. Porém, o certo é que ao ver o quão alto o monte era, Gretel ficou um pouco amedrontada com a sua saia longa e comprida.
Ele começou a tirar o fato e de um momento para o outro, já estava com uma túnica da mesma cor verde-escura e húmida, mas que o fazia mais masculino. Só aí é que ela reparou que ele estava a usar umas sandálias de madeira.
Esboçou um leve sorriso enquanto lhe dava a mão. Disse que este sítio era o preferido dele quando era um rapaz.
- O meu pai levava-me para aqui quando queria que treinássemos a sós. Isto em pleno Inverno, consegue imaginar o monte todo coberto de neve?
- Como nas montanhas em Viena? Sim. - Respondeu a jovem de longos cabelos louros, ao ajeitar o longo vestido cor de cereja.
Ao ouvir o nome da cidade de onde Gretel era, o jovem bruxo ficou um pouco surpreso.
- É de Viena? Que coincidência... Eu gostaria muito de ir até lá! Deve ser uma cidade lindíssima...
Ela sorriu meigamente, tão doce quanto uma amora acabada de apanhar. Não sabía o que havia de dizer. O sotaque crioulo daquele jovem homem era como um acorde desconhecido de um violino, suave e romântico que se espalhava no ar como uma fragrância floral, vindo ter às orelhas da jovem Gretel, acariciando-a suavemente.
Chegando à brisa quente da vila, ela reparou como todas as pessoas olhavam-na de soslaio, desconfiadas. Talvez porque a maior parte deles apenas tinham vistos pessoas de cabelos louros há centenas de anos, e essas últimas pessoas quase tinham destruído a vila de Itshaki. Estou a falar da invasão de Itshaki que tinha causado, há uma centena de anos atrás, um grande número de mortes, não só do lado dos Japoneses, como também dos Russos. Embora fosse difícil que o mais comum dos Humanos chegasse aos setenta anos naquela altura, os habitantes daquela vila ainda se lembravam do que tinha acontecido.
Obviamente, Gretel não tinha culpa nenhuma disso, mas as mulheres não deixavam de cochichar entre si quando ela passava de mão dada com o jovem filho varão do Duque Von Tifon.
Mas ela não ligou muito a isso. Sentia-se segura perto daquele homem atlético e alto.
Como se o seu longo cabelo de ouro fosse uma extensão dos campos de trigo lá no vale, Gretel tocava com as suas avelãs - incrustadas como jóias no rosto de anjo - a montanha, com as maçãs do rosto coradas.
Kazuhiro pensou que ela se assemelhava a uma flor de macieira, mais do que nunca, com o vestido cor das rosas, e o cabelo e a pele eram como a própria maçã - deliciosos e apetitosos, enquanto que ela se agasalhava com o lenço da cor das açucenas.
Ela acompanhava-o o melhor que podia nos seus botins, delicadamente, sempre com uma pose de senhora, enquanto o bruxo lhe contava mais sobre a vila de Itshaki.
- Dizem que ainda se consegue ouvir o trote dos cavalos dos já mortos senhores da Magia Negra, no topo do monte, em noites de Verão como a próxima. O brilho metálico das espadas a se encontrarem com os sabres dos guerreiros Russos, os tambores da Guerra Russo-Japonesa parecem ecoar perto das rochas no caminho para o topo deste monte... Mas é claro, a senhora não acredita em fantasmas, pois não? - Perguntou o feiticeiro Japonês enquanto a ajudava a subir o primeiro degrau ressequido pelo tempo.
Gretel estremeceu. Tinha sido educada num meio muito marcado por aquilo que é sagrado e católico, e raramente gostava de ouvir histórias macabras sobre sítios onde as corujas crocitavam e onde os morcegos tinham os seus ninhos.
Abanou fortemente a cabeça.
- Claro que não, credo! Se acreditasse, como é que acha que ficaria se visse o seu pai, mein Herr?
Para sua grande surpresa, Kazuhiro soltou uma grande e compreensível gargalhada, um pouco embaraçado.
- Pois, lá isso é verdade.
Não pensaram muito nisso, ao subirem as intermináveis escadas de pedra do monte de quatrocentos e cinquenta metros de altura.